Ouve que lá vem trilha (do Hélio Ziskind)

A viagem sonora do músico que criou as trilhas de “Rá-Tim-Bum”, “Castelo Rá-Tim-Bum”, “Cocoricó” e “X-Tudo” tem origem experimental e desafiadora

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Fotos: Reprodução/Divulgação

A nostalgia já é um sentimento potente e, quando ela se liga à música, parece ganhar intensidade ainda maior. Mas muito antes de sequer imaginar que sua obra seria tão associada à nostalgia, Hélio Ziskind queria mesmo era testar timbres e desafiar paradigmas musicais. Seu nome pode não ser tão familiar, mas suas músicas e sua atmosfera tão própria certamente representam um tempo para o qual muita gente quer voltar.

Hélio Ziskind foi o responsável por trilhas sonoras da TV Cultura durante as décadas de 1980 e 1990 – e seu trabalho é um poço nostálgico para a geração millennial. Alguns dos títulos mais conhecidos incluem Rá-Tim Bum, Castelo Rá-Tim-Bum, Cocoricó e X-Tudo e, como consultor do canal, ele também compôs temas consagrados para programas como Nossa Língua Portuguesa, Planeta Terra, Roda Viva e Repórter Eco.

Além da TV Cultura, Hélio teve vivências em variados espaços de composição, como no grupo experimental Rumo, nas adaptações de obras de Philip Glass e Steve Reich e em espetáculos de performance e dança – e no meio disso tudo, sobra até espaço e inspiração para o famoso tema da Ultragaz. Foram diferentes cenários e tempos que receberam o talento de Hélio, o que resulta em uma assinatura autêntica e, ao mesmo tempo, camaleônica e experimental – adjetivo curioso (mas nem tanto) ao pensarmos em uma música voltada para o público infantil.

Para Hélio, o termo carrega um sentido diferente daquele do senso comum. “Não é que eu vou experimentar uma coisa para ver onde dá. A música parece experimental porque o que está consagrado como forma na cabeça dos músicos nasceu em certo contexto”. Hélio conta que sempre se apegou à percepção de que o ser humano tem afinidade com o som em si e que, quando isso consegue ser transmitido em forma de música, não interessa se o ouvinte é criança ou adulto. E seu som nos atinge em cheio. A explosão criativa de Hélio é abrangente e sedutora – por conta do clássico quadro “Passarinho, que som é esse?”, a mãe de um pequeno telespectador veio lhe perguntar onde era possível fazer aulas de trompa.

Ao compor, Hélio prioriza características elementares do som, entre elas, o timbre. Qualquer um que já tenha escutado as canções e trilhas do Castelo Rá-Tim-Bum percebe que existe uma concordância sonora entre os diferentes elementos das trilhas. O timbre, para Hélio, é assunto que por vezes fica de fora da formação dos músicos – algo que ele sentiu em sua passagem pela Escola de Comunicação e Artes, na Universidade de São Paulo. “Havia história da harmonia, a organização do tempo… E o timbre? O timbre ninguém sabia dizer nada, em lugar nenhum”.

“Não é que eu vou experimentar uma coisa para ver onde dá. A música parece experimental porque o que está consagrado como forma na cabeça dos músicos nasceu em certo contexto”

O timbre na obra de Hélio é uma linguagem tão fundamental que ela não é encarada como enquadramento estético, mas como possibilidade de trazer voz a um universo fantástico. Afinal, qual é, por exemplo, o som que representa um maluco que responde perguntas dentro de um computador? Ou um gato que administra a biblioteca de um castelo mágico? A propósito, a resposta para a primeira pergunta vem de um sintetizador clássico dos anos 1980 chamado Yamaha DX7 – o mesmo que esteve em clássicos como “Take On Me”, do a-ha, e “Take My Breath Away”, do Berlin (trilha do Top Gun).

A tecnologia auxiliou Hélio a criar universos fantásticos, especialmente a partir do final dos anos 1980, com sintetizadores e diferentes linguagens expandindo universos. Para ele, a música eletrônica é um recurso poderoso, mas tão poderoso que, por vezes, os músicos invertem a ordem das coisas: não é mais a música eletrônica que procura emular os instrumentos, é o inverso. Como exemplo, ele cita o andamento e as percussões robóticas do Radiohead – “Eles são quase os Beatles, mas pararam um pouco antes”. O flerte com a música eletrônica trouxe diferentes matizes para seus temas na TV Cultura, como na abertura de X-Tudo, com referências de techno que chegam a remeter a Aphex Twin.

“[Na ECA] Havia história da harmonia, a organização do tempo… E o timbre? O timbre ninguém sabia dizer nada, em lugar nenhum”

O aspecto experimental de suas trilhas vem muito do período no grupo Rumo, comandado por Luiz Tatit e responsável por incrementar debates de música contemporânea na ECA e aplicá-los à canção. O tradicionalismo dos professores fez com que o grupo pensasse na fala com um recurso musical – não as rimas do rap, mas a fala cotidiana. Hélio considera que o ambiente universitário agregou diferentes perspectivas e direcionamentos. “Foi a primeira vez que eu me deparei com o conceito da harmonia ser algo histórico e como isso avançava ao longo do tempo. Mas, ao mesmo tempo, achava ridícula a ideia propagada por lá de que a música [do Rumo] não poderia se comunicar com as pessoas da sua própria época – era uma reza da ECA”.

O modo declamado e que transforma a voz em instrumento, típico do Grupo Rumo, está na abertura de Nossa Língua Portuguesa e no clássico início de Castelo Rá-Tim-Bum. São vozes que quebram a rigidez. Nesse quesito, Hélio cita o exemplo de Billie Eilish como um dos nomes recentes que mais lhe encantou.

Ao mesmo tempo em que Hélio é associado à nostalgia, há nele sempre uma busca incessante pelo presente. Ele, claro, se orgulha dos mundos fantásticos construídos e sonorizados na TV Cultura, mas carrega consigo o ímpeto de sempre caminhar – mais do que isso: repensar e reformar estruturas. “Para mim, é uma obsessão estar no presente. Eu preciso me sentir nos dias de hoje, o jogo continua”. E, de qualquer maneira, sua obra continua fazendo isso por aí: seja em remixes funk do tema da Ultragaz ou em cada nova criança cuja atenção é fisgada em meio aos timbres e às vozes de Hélio Ziskind.

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Autor:

Produtor, pesquisador musical e entusiasta de um bom lounge chique