Ouvir Música Como Ela É Feita

Escutar os discos de uma só maneira sempre pode te atrapalhar a aproveitar outros sons

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Como você ouve música?

Não pergunto sobre o aparelho que você usa, ou se está de fones ou sem, nem mesmo se ouve na academia, no carro ou enquanto trabalha. Quero saber em que você costuma pensar enquanto uma música começa a tocar. É possível que a maneira que você escuta defina não só seu gosto, mas se uma música vai te agradar ou não. Em outras palavras, talvez você não curta um disco ou banda porque ouve de um jeito que seja muito diferente do espírito com o qual suas faixas foram compostas.

Julgar o que é bom e o que não é na música é relativo, todos nós sabemos (e pouca gente consegue imaginar o quanto queimamos a cabeça na hora de escrever uma resenha. Esse relativismo acontece não só porque o que parece bom pra um pode ser ruim para o outro, mas porque cada música é feita com uma intenção diferente mesmo. Não tem como comparar, por exemplo, um Pop dançante a um Rock pesadão e dizer que um é melhor que o outro. Porém, se o intuito for fazer dançar, não é difícil afirmar que o primeiro será mais eficaz que o segundo.

Mas eu não vim aqui falar de mim, quero falar de você. Como você percebe a música, o que te agrada nela? Talvez você seja uma pessoa da poesia, então procura a beleza das letras e melodias. Ou você pode ser alguém preocupado com a estética, daí pensa logo de primeira se o que está escutando é Shoegaze, ou Indie Folk ou French House. Você poderia ser ainda uma pessoa que busca, ao invés de influências estéticas, suas próprias influências e ouve música lembrando daquela tal época da sua vida ou daquelas tais pessoas, ou mesmo tempos, lugares ou situações que você nunca viveu, mas sempre achou interessante. E isso tudo, ou qualquer outra alternativa na qual você se encaixe, influencia diretamente na sua percepção – o que define também o seu gosto. Já parou pra pensar nisso?

Percebo que fica mais fácil entender isso no contraste de como as outras pessoas te apresentam música. Alguém pode chegar pra você e dizer que tal disco é bom porque ele é de tal estilo e você ficar com cara de interrogação (porque nunca pensaria que isso faria um álbum ser chamado de “bom”), ou que aquela banda é boa porque faz referência a alguma outra época. Pode acreditar, você não está sozinho com essa sensação de deslocamento conceitual.

E por que ficar atento a isso? Justamente para poder achar formas de ser flexível e aprender a escutar de outros jeitos. Isso te ajuda tanto a aproveitar músicas que antes não curtiria, quanto a lidar melhor com as avaliações dos outros.

Entenda: Ouvir a música como ela é feita é uma maneira mais eficaz de compreendê-la. Você não vai achar aquela faixa tão viajada ao compreender que ela faz parte de um projeto experimental, ou não pensar que aquele hit é tão bobo quando sacar que a proposta dele era só fazer o pessoal dançar sem muito compromisso. Se uma música foi feita para ser o melhor Rock Psicodélico já feito, pouco vai importar sua letra, enquanto um voz e violão basicão pode ser excelente se a ideia for passar o sentimento dos versos.

Parece óbvio? Sim, mas a prática é outra realidade. Mas vale a pena tentar ser mais flexível na hora de ouvir música? Faça o teste e me conte depois.

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MARCADORES: Discussão

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.