Palavra sobre palavra

Dez letras de rappers que citam obras literárias e reflexões a respeito da potência poética desses paralelos

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Fotos: Willy Vanderperre/Dazed

Se cinema, televisão e, hoje em dia, a internet são temas recorrentes em letras de rappers por aí, a literatura também pode ajudar a elevar um verso ou uma rima. Por isso, destacamos 10 canções que lançam mão desta estratégia. Até porque, considerando a força poética e a narrativa do rap, elas servem de exemplos para um tipo muito moderno (e refinado) de intertextualidade que merece os seus ouvidos.

Emicida – “Triunfo” X Capitães da Areia, de Jorge Amado

Em “Triunfo”, a poderosa faixa de 2009 que apresentou Emicida ao Brasil, o rapper de São Paulo canta “Atabaques vão soar como tambores de guerra / Meu exército marchando pelas ruas de terra”. O primeiro verso faz referência ao título do penúltimo capítulo de Capitães da Areia, de Jorge Amado, lançado em 1937. (No livro, o capítulo em questão se chama Os atabaques ressoam como clarins de guerra). Nos contando sobre um grupo de meninos que mora em um trapiche, em Salvador, o escritor baiano denuncia o fracasso social dos centros urbanos. Além disso, ainda aponta para um despertar da consciência de classe no Brasil getulista. Não é por menos que a jornada de Pedro Bala e seus companheiros foi considerada propaganda comunista e teve 808 exemplares queimados no ano de seu lançamento. Vale lembrar: Emicida já disse que Capitães da Areia foi a obra que inaugurou seu contato com a literatura.

Killer Mike – “Willie Burke Sherwood” X O Senhor das Moscas, de William Golding

Um tributo à família e dedicada especialmente ao avô, “Willie Burke Sherwood” é uma composição autobiográfica de Killer Mike – uma das metades do aclamado duo Run The Jewels, ao lado de El-P. Durante o primeiro verso da faixa que abre R.A.P Music (2012), o rapper conta da vida dura na infância, dos amigos que perdeu para a violência nas ruas, da necessidade de sobrevivência e diz: “So I convinced myself it was better for me / To be Jack in The Lord of the Flies” (“Então me convenci de que era melhor para mim / Ser o Jack, de O Senhor das Moscas”). Estreia e maior clássico de William Golding – ganhador do Nobel e um dos ícones da literatura britânica do século XX –, O Senhor das Moscas (1954) conta a história de um grupo de meninos que sobrevivem a uma queda de avião em uma ilha. Longe dos adultos, eles passam a se organizar politicamente e o resultado é a divisão entre as facções lideradas por Ralph e Jack. Enquanto a primeira busca soluções amparadas na democracia e no bem-estar comum, a segunda é baseada na violência e na prevalência do mais forte. A história, um debate sobre filosofia moral e o conflito rousseauniano entre construção social X natureza humana, serviu como referência certeira para Killer Mike abordar a corrupção que a violência das ruas pode enxertar em um indivíduo.

Childish Gambino – “I.Crawl” X Matadouro 5, de Kurt Vonnegut

O clássico romance de Kurt Vonnegut, Matadouro 5 – que completou 50 anos em março – é brevemente homenageado em “I.Crawl”, de Childish Gambino. Durante a faixa do álbum Because The Internet (2013), Donald Glover cita referências que vão de memes da internet a programas da Nickelodeon, até que canta “I scorch winters, I burn autumns/Gut n***as, so Kurt Vonne” (“Eu queimo invernos e outonos/caras corajosos, tão Kurt Vonne”). A menção ao autor americano – que traz uma wordplay complementando o nome do autor com “gut” no início da frase – coloca o verso anterior no contexto de Matadouro 5. Com toques autobiográficos, o livro conta a história de Billy Pilgrim, que, entre uma viagem no tempo e outra, está presente no colossal bombardeio da cidade de Dresden, na Alemanha, feito pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra, em 1945.

Baco Exu do Blues – “Minotauro de Borges” X “A Casa de Asterion” (O Aleph), de Jorge Luis Borges

O conto de Jorge Luis Borges (parte de O Aleph, de 1949, uma das obras mais importantes do célebre escritor argentino) dá um toque existencialista ao mito grego do Minotauro, a partir da narração em primeira pessoa do monstro da história – deprimido por sua condição e pelo isolamento no labirinto. Após uma breve e intensa narrativa sobre solidão e vazio, Borges arremata com Teseu, que mata o Minotauro sem esforço, dizendo a sua esposa Ariadne: “Acredita, Ariadne? O Minotauro mal se defendeu.” Finalizada com “Tô me acabando por inteiro / Você me mata ou eu me mato primeiro”, a composição de Baco, na qual o baiano afirma que é ele próprio o Minotauro de Borges, é um grito desesperado sobre (a busca por) saúde mental.

Black Alien – “Take Ten” X O Médico e O Monstro, de Robert Louis Stevenson

Adaptada incontáveis vezes para o cinema e o teatro, a famosa história de O Médico e O Monstro é lembrada em “Take Ten”, canção de Black Alien presente no disco Abaixo de Zero: Hello Hell (2018). No verso “O médico e o monstro, Dr. Jekyll e Mr. Hyde / A Babylon de frontside, just gimme”, o pano de fundo é o conflito entre as diferentes “personalidades” do rapper após a recuperação do vício em cocaína. Lançada pelo escocês Robert Louis Stevenson como O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, a novela gótica de 1886 explora o fenômeno que acomete o médico Henry Jekyll, que luta contra um alter ego colérico e insistente dentro de si.

Em “Carta Para Amy”, do mesmo álbum, Black Alien também faz referência a O Som e A Fúria, principal livro de William Faulkner, americano vencedor do Nobel de literatura e um dos grandes romancistas do século XX.

Blackstar (Mos Def & Talib Kweli) – “Thieves In The Night” X O Olho Mais Azul, de Toni Morrison

“Uma das mais verdadeiras críticas à sociedade e eu li quando tinha 15 anos. É especialmente verdadeiro no mundo do hip hop, porque ficamos cegos por essas ilusões”. A frase de Talib Kweli se refere ao livro O Olho Mais Azul (1970), de Toni Morisson, vencedora do Nobel e responsável por romances poderosos sobre a vivência da mulher negra. A história de Pecola, uma garota negra americana que sonha em ter olhos azuis e que de repente se vê inserida em uma realidade devastadora, é um estudo racial tão mordaz que foi introduzido no refrão de “Thieves In The Night” quase que literalmente. A faixa presente em Blackstar (1998), de Mos Def e Talib Kweli, um dos melhores discos colaborativos da história do hip hop, traz o refrão “Not strong, only aggressive / Not free, we only licensed / Not compassionate, only polite / Not good but well-behaved / Chasin’ after death so we could call ourselves brave, still livin’ like mental slaves / Hiding like thieves in the night from life/Illusions of oasis making you look twice”( “Não forte, apenas agressivo / Não livres, somos apenas licenciados / Não compassivo, apenas educado / Não bom, mas bem comportado / Perseguindo a morte para nos chamarmos de corajosos, ainda vivendo como escravos da mente / Se escondendo como ladrões na noite / Ilusões do oásis fazendo você olhar duas vezes”). O trecho é praticamente idêntico a uma passagem de O Olho Mais Azul.

Makalister – “Amores Perros” X Cartas de Dostoievski

Além de alguns dos maiores clássicos da história da literatura (Irmãos Karamazov e Crime e Castigo, por exemplo), Fiódor Dostoiévski ficou conhecido por escrever cartas que revelam ainda mais – e de maneira mais direta – como funcionava sua brilhante e atormentada mente. Boa parte endereçadas ao irmão Mikhail, as correspondências ficaram famosas por abordarem temas que vão da intimidade de seu trabalho de escritor – como a conturbada relação com os editores – a intrincadas reflexões sociais e filosóficas, muito por conta do período no exílio após fugir, endividado, da Rússia. Em “Amores Perros”, do disco A Terça Parte da Noite (2016), Makalister – figura prestigiada do underground e grande MC catarinense da atualidade – canta, olhando para o passado, que “Aquela época do punk existe nas cartas de Dostoiévski”. Com sample afiado de violinos, a faixa é uma viagem melancólica e nostálgica que tem como motivação um amor intenso e mal resolvido.

Parteum, Kamau, Paulo Nápoli e Rick – “Época de Épicos” X Júlio Verne

Nessa pérola escondida do rap nacional, três veteranos – e pesos pesados da rima – se juntam para um festival de punchlines e wordplays sob uma bela produção cheia de violinos sampleados. Parte do repertório de Raciocínio Quebrado (2005), clássico de Parteum, “Época de Épicos” traz o seguinte verso do dono do álbum: “Eu analiso e crio imagens tridimensionais / Viagens fenomenais como contos de Júlio Verne / Eu arrepio a epiderme de quem para pra escutar o que recito ”. O talentoso rapper paulistano homenageia o escritor francês, autor de obras seminais como Viagem Ao Centro da Terra (1864), A Volta Ao Mundo Em 80 dias (1874) e Vinte Mil Léguas Submarinas (1870) e considerado um dos inventores da literatura de ficção científica. E mais: em 2007, Parteum e seu grupo Mzuru Sana, já haviam lançado o projeto Ópera Oblíqua, inteiramente inspirado na obra de Machado de Assis.

Frank Ocean feat. Andre 3000 – “Pink Matter” X Os Assassinos, de Ernest Hemingway

Depois de Frank Ocean fazer referência a Dragonball Z (“Cotton candy, Majin Boo”), Andre 3000 evoca o autor de O velho e O Mar durante seu verso, na soturna “Pink Matter”, presente em Channel Orange (2012). Ernest Hemingway, gigante da literatura americana, ficou conhecido por seu estilo conciso e minimalista, de frases diretas, cuja força está no subtexto que permeia a narrativa – técnica conhecida como Teoria do Iceberg. Enquanto rima sobre lembranças de um relacionamento que terminou, Andre 3000 diz: “Far’s too close, and I remember / My memory’s no sharp/Butter knife, what a life, anyway / I’m building y’all a clock, stop, what am I, Hemingway?” (“O longe está muito perto, e eu me lembro / Minha memória não é tão afiada / Faca de manteiga, mas que vida, enfim / Eu estou construindo um relógio, pare, o que eu sou, Hemingway?”). A menção ao relógio pode ser relacionada a “Os Assassinos”, pequeno conto de 1927, no qual um relógio na parede é o símbolo da tensão em um ambiente preparado para uma emboscada da máfia. Mas, além disso, o integrante do Outkast associa seu estilo enquanto escritor ao de Hemingway haja visto seu estilo também sintético de suas rimas anteriores. Da mesma forma que o autor norte-americano, a partir de uma história curta, retrata, por exemplo, a paranoia e a violência durante a época da Lei Seca nos Estados Unidos, o rapper, fala de maneira simples e poética, sobre como as memórias de um desencontro amoroso podem ser implacáveis.

Chance The Rapper – “Finish Line/Drown” X Harry Potter e A Pedra Filosofal

“Scars on my head / I’m the boy who lived” (“Cicatrizes na minha cabeça / Eu sou o Menino que Sobreviveu”. Chance The Rapper canta a frase no primeiro verso de “Finish Line/Drown”, canção do laureado Coloring Book (2016), celebrando seu retorno após um período de incertezas. O Menino Que Sobreviveu é o título do capítulo que abre Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997), primeiro livro da série escrita por J.K. Rowling. Como vocês sabem, Harry sobreviveu… a um feitiço Avada Kedavra, de Voldemort… e ficou com uma cicatriz na testa e coisa e tal. Chance já demonstra ser um potterhead na faixa anterior do álbum, “How Great”, ao citar o personagem Pedro Pettigrew, o maior 171 da literatura fantástica infanto-juvenil da história recente.

“Da Ponte Pra Cá” – Racionais MCs X Vinicius de Moraes

Finalizando seu primeiro verso em “Da Ponte Pra Cá”, do álbum Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002). Mano Brown manda uma das punchlines mais pungentes do rap nacional: “Jardim Rosana, Três Estrelas e Imbé, Santa Tereza, Valo Velho e Dom José, Parque Chácara, Lídia, Vaz / Fundão, muita treta pra Vinicius de Moraes”. O poeta dos Racionais lista os bairros do Capão Redondo, distrito em que o grupo foi formado, e depois coloca Vinicius de Moraes, o poeta da bossa nova, em xeque – caso o compositor de “Garota de Ipanema” tivesse que escrever poemas sobre lugares “da ponte para lá” da praia carioca. Uma linha engenhosa e arrebatadora, capaz de criar contrastes sociais e literários de uma só vez, demonstrando a correspondência entre o que se vive e o que se escreve.

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