Panorama da atual música africana em 11 discos

Um convite para mergulhar em parte da infinitude sonora do continente, em toda sua multiplicidade

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Fotos: DeLovie Kwagala (The Wire 438)

Desde que participou da mixtape More Life (2017), do canadense Drake, o rapper nigeriano Burna Boy vem conquistando o universo da música Pop. Ele é destaque nos maiores jornais do mundo, sua faixa “Anybody” foi parar na famosa lista de melhores do ano do ex-presidente Barack Obama e até fez feat com Beyoncé no álbum The Lion King: The Gift. Burna Boy não é o único. Seu conterrâneo WizKid e o produtor sul-africano DJ Lag são outros dois exemplos de artistas que estão adentrando as produções do mainstream global.

Essa, no entanto, não é a totalidade da música da África. O sucesso (merecido) de alguns artistas no Ocidente e sua vinculação à ideia de “música africana” enquanto gênero musical fixo pode nos levar a um falso entendimento de que a África é culturalmente homogênea — o que o filósofo beninense Houtondji classifica como unanismo. Isso porque o continente possui uma enorme diversidade cultural e os músicos promovem uma contínua reinvenção de suas tradições musicais. Assim, muitas cenas inovadoras — e até populares — ainda ficam restritas à circulação interna de seus países e são postas de lado na representação midiática da África.

Não existe uma música africana, mas sim uma pluralidade de fazeres musicais na África. O Afrobeat de Fela Kuti e o Rap de Burna Boy são músicas africanas, mas a música africana não está limitada a esses artistas nigerianos — nem mesmo ao Kuduro, Afrohouse ou Gqom. A lista a seguir é uma introdução a alguns dos movimentos musicais contemporâneos do continente. São 11 discos, divididos por cada região da África. Tem música Pop, Rap, eletrônica, canções tradicionais e mais. É um convite a mergulhar e descobrir uma parte da infinitude sonora do continente, em toda sua multiplicidade.

África Setentrional (Norte)

EEK feat Islam Chipsy – Kahraba (2015, Egito)

O Electro-chaabi (ou Maharagadan, como é conhecido dentro do Egito) é um movimento de música eletrônica que nasceu no contexto da Primavera Árabe nas periferias do Cairo. Sem boates ou casas de shows, os bairros pobres transformaram os casamentos locais em palco principal de uma fusão caótica e revigorante de música árabe com eletrônica e freestyles de Rap. EEK e Islam Chipsy é um trio formado por dois bateristas e um tecladista que estão conectados a essa cena, mas levam sua música para um outro campo: um som comprimido, ácido e agressivo — e ainda assim permeado por um groove irresistível, com viradas que lembram as bacurinhas do pagodão baiano.

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Bab L’Bluz – Nayda (2020, Marrocos)

Bab L’Bluz é um quarteto franco-marroquino que tem como base sonora o Gnawa, prática musical centenária de países islâmicos do Oriente Médio e da África Subsaariana. Mas os instrumentos tradicionais do gênero — o awicha e o guembri — são tocados com afinações alternativas e acompanhados da eletricidade da guitarra, evocando climas musicais que vão da psicodelia dos anos 1960 ao Blues árido dos tuaregs.

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África Oriental (Leste)

Vários artistas — Sounds of Sisso (2017, Tanzânia)

A coletânea é uma excelente introdução ao Singeli, cena que há cerca de 15 anos movimenta as periferias da megalópole Dar Es Salaam e vem tomando os circuitos da música eletrônica experimental. Batidas hiperaceleradas e loops frenéticos que podem chegar aos 300 BPM misturam influências distintas, que vão do House ao Taarab (sincretismo musical da cultura muçulmana muito popular nas ilhas do Zanzibar, litoral do país). Ainda que a torrente de beats desenfreados provoque um êxtase semelhante ao de outros gêneros acelerados (como o Gabber, o Footwork ou mesmo o Funk Carioca), o Singeli causa um arrebatamento especial. É uma sobrecarga sensorial furiosa. Um curto-circuito sonoro que revira a eletrônica, a pista de dança e o corpo.

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MC Yallah – Kubali (2019, Quênia/Uganda)

MC Yallah é uma rapper queniana residente em Uganda. Depois de soltar singles e um EP, ela se uniu ao produtor alemão Debmaster neste álbum de estreia em que exibe seu flow feroz e meticuloso entre beats esparsos e industriais de tonalidades Dancehall.

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África Ocidental (Oeste)

Fra Fra – Funeral Songs (2020, Gana)

Há décadas, o trio Fra Fra canta em cerimônias funerárias na zona rural de Tamale, no norte de Gana. Acompanhado por um kolologo de duas cordas e percussões feitas com cabaças, o vocalista Small lança sua voz em incursões passionais e expansivas sobre a finitude da vida. O disco foi gravado ao vivo pelo produtor musical Ian Brennan no quintal do vocalista, com o mínimo de interferências. As letras em língua frafra são incompreensíveis para nós (ainda que os títulos em inglês forneçam pistas), mas o canto retumbante é poderoso e ressoa profundamente na alma.

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Supreme Talent Show – Danbe (2015, Mali)

O coletivo Supreme Talent Show é um ponto de convergência de culturas afro-diaspóricas. Os DJs e MCs absorvem influências do Dancehall, Rap, Kuduro e Trap — além dos batuques dos talking drums e do balafon malinêse apresentam uma assinatura musical própria.

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África Central

Tshegue – Survivor (2017, Congo)

O EP Survivor é, até o momento, o único disco do duo formado pela vocalista Faty Sy Savanet (natural de Kinshasa) e o percussionista e produtor musical Nicolas “Dakou” Dacunha, mas pavimenta um caminho promissor. É uma vibrante combinação de polirritmia com texturas mais pop da Bass Music.

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Nazar – Guerilla (2020, Angola)

O Kuduro é um movimento cultural intimamente ligado ao pós-guerra civil de Angola e às cicatrizes de quase 30 anos do conflito armado no país — “uma bomba não deflagrada”, nas palavras do escritor e músico Kalaf Epalanga. Nazar expõe os nervos desse pano de fundo político em seu álbum de estreia, que apresenta uma espécie de Kuduro bélico, com beats distorcidos entre ruídos cacofônicos e sons de tiros. Filho de pais guerrilheiros, o DJ e produtor desenvolveu uma obra híbrida e mutante que parte das memórias pessoais e familiares e transforma-se em diário de guerra, ensaio geopolítico e libelo decolonial revolucionário.

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Pérola – Mais de Mim (2015, Angola)

Pérola venceu o prêmio Kora Awards de Melhor Artista Feminina da África Austral em 2005. Desde então, vem se firmando como uma verdadeira popstar em Angola. Seu lirismo romântico é inspirado pela Kizomba, mas não se limita a ele e bebe também do Semba, do R&B e do Pop. Seu álbum mais recente conta com participações de cantores icônicos do romantismo angolano (como Nelson Freitas, C4 Pedro e Anselmo Ralph) e até um dueto com Ivete Sangalo.

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África Meridional (Sul)

Griffit Vigo – DJ / Gqom 6 (África do Sul)

Gerado a partir das fusões entre o Kwaito e o Techno, o Gqom é a música mais popular a sair da África do Sul recentemente, conquistando as pistas do circuito Global Bass, os festivais de música eletrônica e até o Pop — sobretudo pelo trabalho de DJ Lag, que colaborou com Beyoncé. Griffit Vigo imprime ao gênero climas mais sombrios, em beats que lentamente acumulam uma tensão hipnótica. Em 2020, saiu um feat do sulafricano com a DJ e produtora gaúcha Saskia, firmando a ponte entre África do Sul e Brasil.

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Verb Wayz – You Have Been Warned (Namíbia)

A repressão política e racial sofrida pelo apartheid na Namíbia, sob controle da África do Sul, sufocou o desenvolvimento musical do país, mas não a criatividade dos seus povos. O país ficou conhecido pelos artistas do Kwaito, mas também possui uma cena crescente de Hip Hop. Bom exemplo é Verb Wayz, membro do coletivo Cave Men Music, que apresenta um Rap experimental de sonoridades esfumaçadas em seu álbum de estreia.

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