Papisa enfrenta o oco

“Fenda” está sendo lançado hoje, em noite de Lua Nova. O primeiro LP de Rita Oliva (a Papisa) fala sobre os contornos da morte. Aqui, um faixa a faixa exclusivo com a artista

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Fotos: Déborah Moreno

Desenvolvido entre turnês e períodos de imersão em seu home studio, Fenda (2019) – primeiro disco da multi-instrumentista Rita Oliva – também nasce de suas investigações ritualísticas. Ao longo das nove faixas produzidas pela compositora, somos apresentados ao seu interior que parece ser cercado por uma aura mágica. “Organizei as músicas por elementos: quem é fogo, ar, terra e água? Tem uma música que já fui separando os pedaços de cada carta [de tarô], cada arquétipo… Consigo pegar as energias de cada carta dentro das músicas”, me contou sobre suas reflexões logo que o trabalho estava finalizado. Usa como exemplo a faixa “Nigredo”, que é inspirada na carta da Morte, mas que, hoje em dia, tem um mood mais parecido com a da Estrela.

Para chegar ao som que desejava, Rita teve que se ater também ao mundo físico do som. Seu disco foi todo gravado em casa: sua sala, durante o processo, estava totalmente revestida com colchões nas paredes. Ali, a jovem testava possibilidades para captar o melhor som possível para seu debut em LP como Papisa – antes disso, ela já havia lançado trabalhos com as bandas Cabana Café e Parati.

Gravou a bateria, as vozes, synth, baixo, guitarra, violão, percussão, piano e programação. Contou apenas com algumas ajudas pontuais, a bateria de “Semente” é de Theo Charbel, os synths de “Terra” e “Retrato Infinito” são de Luna França e coro dos dois mais Stéphanie Fernandes em “Espelho”. Algumas das convidadas, aliás, vêm de outros carnavais: já se apresentaram ao lado da Papisa em seu show ao vivo, quase sempre em formação de trio ou em quarteto. “Senti que algumas músicas estavam prontas só depois de tocar com as meninas no show. Ao mesmo tempo, tiveram outras que eu compus enquanto fazia o disco, independente”, relembra. Durante as gravações, como boa ariana, também tentou algo novo: fez um detox musical e deixou de escutar música por alguns meses. Ao retornar, passou a escutar muitas bandas de texturas, Ambient Music e trilhas sonoras, para investigações de timbre, climas e referências de mixagem e masterização. “Adoro o som da inglesa Marika Hackman, um Indie Folk obscuro”, conta sobre uma de suas inspirações musicais recentes.  

O exercício resultou em experimentos artesanais: “Algumas músicas são híbridas, têm bateria eletrônica e acústica juntas. Apenas uma (Nigredo) que é inteira eletrônica, não gravei quase nada para ela, tem um instrumento de outra música que dei uma mexida. Nunca começo pela estética, mas pela sensação, um jeito intuitivo”.

Quis falar da morte, o maior mistério que existe, e minhas investigações a respeito disso. Então, a fenda, para mim, é o período de suspensão. Quando uma coisa acabou e a outra ainda não começou. – Papisa

Sobre o nome que amarra o trabalho, “Fenda”, ela diz que pode ter diferentes significados e simbologias. Um deles está ligado à vulnerabilidade, ao buraco no peito, a falta e a saudade. “À princípio, o disco circunda em torno da morte, esse é o tema. Foi uma jornada emocional – tanto de pessoas, quanto de projeto, relacionamento – foi intenso. O que brotou dessa experiência era um retrato de como eu lidei com ela. Quis falar da morte, o maior mistério que existe, e minhas investigações a respeito disso. Então, a fenda, para mim, é o período de suspensão. Quando uma coisa acabou e a outra ainda não começou. (…) Por isso que é mágico. Quando você ritualiza, não está nem na próxima etapa e nem na anterior, é o momento suspenso no tempo”. Convidamos Papisa para escrever um pouquinho sobre as músicas no faixa a faixa a seguir:

“Moiras”

Sonhei com essa melodia uma noite. Não quis colocar letra para trazer a crueza desse lugar inconsciente de sonho. Por isso, trabalhei mais com texturas, criando um clima. Coloquei fragmentos da música seguinte para dar a sensação de continuidade e memória, da mesma forma com que o ronronar do Abu – meu gatinho que morreu enquanto eu gravava esse trabalho – aparece bem no comecinho e em outros momentos pontuais do disco. 

Conforme eu produzia a música, me veio a imagem das Moiras, uma tríade de deusas da mitologia grega que tece os ciclos de nascimento, crescimento e morte. Para mim, fez todo o sentido que fosse uma introdução para o disco, com a ideia cíclica abrindo e fechando o trabalho, com “Moiras” e “Espelho”, respectivamente.

“A Velha”

Essa letra foi escrita com a ideia de trazer a morte falando em primeira pessoa, dando seu recado para a gente. Por isso ela fala do tempo, dos elementos que simbolizam o fim, da nossa relação com eles. O disco todo aborda essa questão de impermanência, de transformação, mas essa é a única música em que a morte realmente vira uma personagem.

“Terra”

Essa música é um deserto. É a terra queimando, árida, engolindo tudo. Ao mesmo tempo que, por fora, tem essa aspereza, também tem os rios correndo por dentro. Então tem um pouco a ver com buscar a essência e se encontrar enquanto todo o resto se desintegra.

“Fenda”

Fenda foi feita durante as gravações, a última que compus. Sinto que ela sintetiza a ideia de viver o processo, um dos pontos mais importantes que o disco me trouxe. É sobre investigar o que há na rachadura, no vazio, no invisível, quando ocorre uma suspensão do tempo-espaço. Também fala sobre introspecção e desenvolvimento interior – uma busca que permeou muito a criação desse disco, assim como minhas atividades paralelas de estudo e prática com oráculos, astrologia, retiros. A letra veio como uma meditação pro eclipse, ou pra Lua Minguante, numa tentativa de acolher minha própria sombra, reconhecer partes inconscientes. E isso envolveu estar vulnerável, me permitir sentir as coisas.

“Retrato Infinito”

Essa música foi inspirada por um momento muito específico, quando presenciei a morte do meu avô, de mãos dadas com ele. Foi a experiência mais tocante da minha vida, e também muito transformadora de várias formas. Concebi a letra como se fosse ele falando, ou outros e outras que vieram antes, contando sobre a experiência de desencarnar e virar um ancestral. É uma homenagem e também uma forma que encontrei de senti-los por perto.

“Nigredo”

Essa aqui é continuação da situação anterior, mas na perspectiva de quem fica. Nigredo é o estágio de dissolução da matéria no processo alquímico. Acho interessante porque, na alquimia, isso é só uma das fases do processo, então ao mesmo tempo que ela marca o fim de algo, e por isso é comparada com a morte, ela também fala de uma empreitada que foi bem sucedida, que transformou a matéria inicial em outra coisa.

“Semente”

Sinto que Semente tem a ver com o fim de ilusões. Da importância de olhar para esse momento em perspectiva, como uma águia que observa o cenário das alturas, observando também o que nossos sentidos estão nos dizendo. Nesse momento de dissolução de crenças e expectativas, existe também a semente de uma outra coisa – frágil e sem saber se vai sobreviver – mas com toda a energia que precisa pra nascer.

“Roda”

Escrevi essa música observando situações em que ficamos presos, pensando que as coisas poderiam ter sido diferentes. Acho que, por isso, sinto um quê de nostalgia nela. No fim, é sobre aceitar as mudanças e seguir em frente, sem se lamentar pelo passado, sem parar do tempo.

“Espelho”

Aqui, falo da busca por uma reconexão com as forças da natureza dentro e fora de nós. Assim como os ciclos vividos na menstruação, na respiração, nas fases da lua, nas estações do ano, no dia e na noite. A faixa conta com a participação da Luna França, Stéphanie Fernandes e Theo Charbel, que tocam comigo. Elas gravaram o coro que fazemos nos shows, justamente para trazer pro disco a força que sinto quando cantamos juntas. A inspiração para a composição veio de um mantra que cantei em retiros, e finalizei a letra após ouvir a Anna Tréa [multi-instrumentista e compositora] recitando seu poema “Multidão”. A música fala da espiritualidade com que me identifico, mais livre e autônoma, ao mesmo tempo que reflete sobre como nossas percepções são baseadas em projeções de nós mesmos.

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ARTISTA: Papisa
MARCADORES: Artigo, Faixa a Faixa

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