Paul Simon: Ainda Jovem Após Todos Esses Anos

Cantor e compositor americano lança 13º álbum mantendo inovação no Pop

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Você, leitor, deve saber que a linha editorial do Monkeybuzz tem na novidade a sua meta. Seria fácil escolher apenas o “novo cronológico”, certo? Aquela gente novinha por ser novinha e nada mais. A gente busca identificar o novo/inédito e se aventura a fazer isso independente do tempo e do espaço, digamos assim. Vou destrinchar: mapear a trajetória de artistas que estão em atividade há décadas e constatar que eles permanecem pioneiros, portadores da novidade e, por conseguinte, do novo, é um dos ofícios mais bacanas, tanto do historiador, quanto do jornalista que este humilde articulista procura ser. Paul Simon é uma dessas pessoas que teimam em desafiar a lógica e permanecem novidadeiras. Provavelmente ele o foi desde que se arriscou a empunhar um violão e escrever suas letras, em fins dos anos 1950.

A agulha imaginária do computador varre o vinil inexistente de Stranger To Stranger, o mais novo trabalho do cantor e compositor americano. É impressionante como o álbum é absolutamente atemporal, bem como inegavelmente feito por Simon. Sua assinatura rítmica está por toda parte, seu vocal não parece afetado por cinco décadas de estrada e sua poesia permanece singular. Explico: Paul Simon foi o sujeito que trouxe a música latina e africana para o Pop mundial. Fez isso instintivamente, seguindo uma lógica que iniciou-se em seu próprio lugar de origem, a periferia de Nova York, mais precisamente, Newark, no estado limítrofe de New Jersey, onde nasceu em 13 de outubro de 1941. Ali, em meio ao fluxo e contrafluxo de imigrantes italianos, espanhóis, porto-riquenhos e negros, Simon cresceu fascinado pelo nascente Rock, pelas histórias do Folk e pelo ritmo dos cantores de Doo Wop, que se agrupavam na esquina em volta de uma fogueira. Estes elementos fizeram a cabeça do jovem e nunca o abandonaram. World Music, portanto, deve sua existência e conceito a gente como Simon.

Demorou, no entanto para que este traço surgisse em sua trajetória. Ao lado do amigo e parceiro Arthur “Art” Garfunkel, Simon participou da dupla Tom And Jerry ainda na virada dos anos 1950/60. Alguns anos mais tarde, já como Simon & Garfunkel, iniciaram uma trajetória importante na música Pop dos anos 1960, ousando misturar o Folk moderno, que gente como Bob Dylan moldava a olhos vistos, com o apelo irresistível do Rock, especialmente sua facilidade melódica, pegando emprestado alguma coisa de The Beatles ou de bandas mais americanas, como The Byrds. Aliás, deles veio a inspiração para o primeiro sucesso da dupla, The Sound Of Silence, que fora lançado no primeiro álbum, Wednesday Morning, 3AM, em 1964, mas que decolou em 1966 com uma produção de Rock, usando guitarras, baixo, bateria e uma leve pitada de Psicodelia. Daí em diante, Simon & Garfunkel foram protagonistas na década de 1960, gravando seis álbuns ao todo, entre eles, dois clássicos absolutos da música popular, Bookends (1968) e Bridge Over Troubled Water (1970), nos quais fundiram técnicas de produção/gravação arrojadas, canções inteligentíssimas de protesto e harmonias vocais lindíssimas.

Uma vez em carreira solo, a partir de 1971, Simon pode colocar suas influências distintas em suas canções é álbuns. Em seu primeiro trabalho, homônimo e lançado no ano seguinte, ele marcaria presença nas paradas de sucesso mundiais com Mother And Child Reunion e Me And Julio Down By The Schoolyard, com referências de Reggae e ritmos latinos respectivamente, mostrando que o sujeito tinha muito para mostrar e que as restrições impostas pelo trabalho em dupla, provavelmente, haviam escondido um tesouro de influências. Fechando a trinca de ouro do disco, Duncan, uma canção de pescador, de lenda, com instrumental lindíssimo, que tornou-se uma favorita dos fãs. Este padrão estabelecido na estreia definiu os álbuns vindouros de Simon entre 1973 e 1986, compreendendo quatro lançamentos de estúdio e um ao vivo, todos interessantes, com destaque para Hearts And Bones, de 1983, um disco que merecia muito mais reconhecimento do que teve. Com texturas eletrônicas sutis e melancolia, Simon, com colaborações distintas como Nile Rodgers e Philip Glass, passa por temas como a morte de John Lennon, a solidão das cidades e a ressaca da fracassada volta com Garfunkel anos antes, que se resumiu a um histórico show do Central Park, transformado em LP duplo, que devia estar nas discotecas de todas as casas do mundo naquele início de década. Nada, no entanto, que Simon tivesse feito até então, seria comparável ao que estava por vir.

Furando um boicote cultural que estava em vigência há bastante tempo, Paul Simon rumou para a África do Sul em 1986, em busca de inspiração e intercâmbio com músicos locais. Como dissemos, o flerte dele com a música de África e Caribe já vinha desde sempre e as influências desta viagem geraram, além de polêmica vazia, um dos mais importantes álbuns daquela década, Graceland. Quando foi lançado, praticamente tudo o que foi feito naquele ano ficou sem graça ou atrasado. A liga sonora que Simon propunha ali ia muito além do safari cultural, servindo como uma luva a canções que, como todas as de sua carreira, faziam crônicas ao americano comum, ao homem pobre do sul do país, ao menos privilegiado. Canções como You Can Call Me Al, The Boy In The Bubble, Graceland e a soberba Diamonds On The Soles Of Her Shoes, com participação do grupo vocal Ladysmith Black Mambazo, invadiram as paradas de sucesso e apresentaram aquela música Pop nova e cheia de vida. Daquele ano em diante, a carreira de Simon assumiu nova forma, toda uma geração surgiria orientada por esta faceta rítmica e expansiva, de pensamento sobre a música de forma ampla.

Esta maneira de pensar a música levou Paul Simon à música baiana. O disco seguinte, The Rhythm Of The Saints, lançado em 1990, teve boa parte de suas sessões de gravação no Brasil, com destaque para participação de músicos do grupo Olodum. E foi com estes que Simon surgiu no Fantástico com o clipe de The Obvious Child, cantando para uma audiência ainda maior. A imagem do músico no Pelourinho, tocando com os integrantes do Olodum é emblemática de sua obra. No ano seguinte, Paul Simon lançava mais um álbum duplo gravado no Central Park, desta vez apenas com sua multirracial banda de apoio e um repertório matador.

A partir daí, Simon entrou num ritmo mais lento para lançar novos álbuns e fazer shows. Nos últimos 20 anos, de 1996 para cá, ele soltou seis discos, incluindo o novíssimo, Stranger To Stranger, a trilha sonora para o espetáculo da Broadway Songs From The Capeman (1997) e o álbum ao vivo Live In New York City (2012), além de uma emocionante reunião com Garfunkel na virada do milênio, que resultou em Old Friends, lançado em 2004, como duplo ao vivo e DVD, gerando uma extensa turnê mundial. A julgar pelos lançamentos mais recentes, Simon segue inquieto e cheio de vontade para experimentar. Recrutou Brian Eno para produzir um belo trabalho, Surprise, lançado em 2006 e o veterano Phil Ramone para polir e pensar as possibilidades de So Beautiful Or So What, de 2010. Em ambos está presente a chama questionadora do homem.

Stranger to Stranger foi lançado há poucos dias e veio precedido pela declaração de que seria o último álbum a ser lançado por Paul Simon. Ele pretende excursionar pelos Estados Unidos e Canadá para divulgar as novas canções e rever as mais antigas, bem como seu público. Aos quase 75 anos de idade, Simon parece um garoto, cantando forte e incansável em seu desejo de fazer sua versão personalíssima do termo “Pop perfeito”. Sua carreira tem uma invejável média de acertos e ele pode ser considerado um gigante, tão importante quanto The Beatles, The Beach Boys e The Rolling Stones, com a vantagem de que, ao contrário destas coletividades, ele é apenas um. Vida longa e próspera.

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ARTISTA: Paul Simon
MARCADORES: Descubra, Novo álbum

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.