Paul Weller: A Volta do Modfather

Sempre moderno e relevante, músico está prestes a lançar novo álbum de inéditas

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Paul Weller está prestes a lançar seu décimo-segundo álbum solo, que terá o nome de Saturn Pattern. Quem conhece seu trabalho, seja com The Jam, The Style Council ou em sua carreira a partir dos anos 1990, sabe que o sujeito é mestre na arte de se reinventar. Se no passado ele desnorteou os fãs deixando de lado o Punk politizado de sua primeira banda (Weller tinha 17 anos quando assinou contrato para o primeiro álbum de The Jam) e abraçando o Pop-Soul lapidado com The Style Council, foi, aos poucos, adquirindo identidade como artista solo em belos álbuns que se equilibraram sobre todas as suas (muitas) influências. Nada, entretanto, foi tão traumático quanto o surgimento de The Style Council pouco mais de um ano após o fim de The Jam. Saíam de cena as guitarras para que pianos e instrumentos de sopro desfilassem felizes. Foi nesta época, em matéria da finada revista Bizz, que li algum crítico se referindo a ele como “o yuppie mais escroto do Sistema Solar”, numa clara e constrangedora demonstração de falta de visão. Mesmo assim, gosto musical à parte, a nova banda duraria pouco, encerrando suas atividades em 1989, depois de ter um álbum vetado pela gravadora. Enquanto existiu, no entanto, cravou sucessos dos dois lados do Atlântico, inclusive no Brasil e chegou a ser objeto de culto no Japão.

O início da nova década não foi fácil para Weller. Sem gravadora pela primeira vez desde a pós-adolescência, Paul precisou parar e pensar no que fazer. Dono de um catálogo cheio de hits, mas sem um conceito para colocar no palco, ele decidiu subir sozinho e encarar a multidão que o admirava, mas não sabia o que poderia vir depois de uma mudança (de estilo?) tão grande. O que o público recebeu a seguir foi o próprio homem, Weller em pessoa, passando a assinar seus álbuns como artista solitário, mas cheio de novidades constantes. Se os primeiros e excelentes trabalhos desta leva, Paul Weller (1991), Wild Wood (1993) e Stanley Road (1995) serviram para que ele equilibrasse as influências de seu passado enquando recebia elogios e admiração de bandas como Oasis, que o apontavam como influência decisiva, foi a partir de Heavy Soul (1997), que ele recebeu uma apelido que o acompanharia dali em diante. Modfather.

Meio Poderoso Chefão, meio garoto com lambreta na Inglaterra do fim dos anos 1960, a persona de Weller realmente aglutina respeito e juventude permanentes. Herdeiro de uma tradição de modernidade como estilo de vida, ele consegue aliar relevância sonora, através de uma noção latu sensu do que significa Rock, mas também é capaz de se apropriar de influências igualmente definitivas, como Soul e Funk, suas paixões musicais, como elementos importantes de sua música. A partir deste momento, do quarto disco solo em 1997, suas composições adquirem uma pegada, digamos, mais crua e direta, sem abdicar totalmente de um certo rebuscamento instrumental. Paul começa a excursionar compulsivamente, novamente apaixonado pela experiência de tocar ao vivo e compartilhar visão e sentimento com o público. O álbum seguinte, Heliocentric (2000), foi apontado como o último de Weller no estúdio. Ledo engano.

Após um trabalho em que compilava canções de diversas fases de sua trajetória, devidamente rearranjadas (Days Of Speed, 2001), Paul inaugurou um momento de revisitação de suas origens com Illumination (2002), que teve excelente performance nas paradas britânicas e, em 2004, com um álbum de covers sensacional, chamado Studio 150, no qual revia clássicos e faixas obscuras de gente tão distinta quanto Bob Dylane Chic, passando por Neil Young e Jimi Hendrix. Essa abordagem igualitária de fontes tão distintas é o grande charme do Modfather. A partir de suas interpretações rascantes e personalíssimas, sem repetir arranjos ou conceitos, essas canções se tornaram suas e se integraram ao seu repertório naturalmente ao longo dos anos 2000. Se o disco seguinte, o sensacional As Is Now (2005), foi incompreendido pela crítica e pelo público, poucos meses após o lançamento, Weller receberia um prêmio especial no Brit Awards, pelo reconhecimento de sua obra. Tímido e com fama de não dar as caras em eventos como este, ele contrariou as expectativas negativas e recebeu o troféu em pessoa, com direito a interpretações ao vivo de clássicos de sua carreira, como a emblemática Town Called Malice, maior sucesso radiofônico de The Jam, lançada em 1982.

A premiação deu gás suficiente para Paul cair na estrada e registrar os melhores momentos desses shows num álbum duplo ao vivo, no qual ele revisita canções de todos os momentos de sua trajetória, com direito a uma edição especial quádrupla. Ao contrário da maioria das celebridades musicais, Paul recebeu o convite para receber a comenda de Cavaleiro do Império Britânico e tornar-se Sir, mas teve peito suficiente para honrar suas origens socialistas e revolucionárias, dizendo um sonoro “não”.

A partir de 2008, Weller retornou ao estúdio para um álbum de inéditas e inaugurou uma nova fase em sua carreira. Demanchou sua banda de acompanhamento, mantendo apenas o sensacional guitarrista Steve Craddock e, ao contrário dos álbuns gravados até aqui, ele se valeria de um abraço fraterno aos elementos eletrônicos em 22 Dreams (2008), no qual também se vale de um amplo espectro sonoro para dar asas à imaginação. Tal movimento rendeu a ele o prêmio de melhor artista masculino no Brit Awards do ano seguinte, suplantando o insosso James Morrison e o Godlike Genius Award do semanário inglês NME no início de 2010. Este também foi o ano de lançamento de mais um álbum, Wake Up The Nation, que marca sua primeira colaboração com Bruce Foxton, ex-companheiro de The Jam, em 28 anos. Em março de 2012 viria o excelente Sonik Kicks, o último álbum lançado por Paul Weller até agora.

É sempre louvável ouvir o que este sujeito lança. Declarações interessantes já foram dadas por ele, inclusive se referindo ao novo trabalho como sendo “progressivo” e cheio de canções longas. Uma olhada mais a fundo pode comprovar tais afirmações, uma vez que o disco só terá nove faixas e uma delas com mais de oito minutos de duração. O primeiro single, White Sky, no entanto, traz a tradicional alquimia de guitarras, vocais rasgados, emoção e sangue nas veias. Tipicamente Weller, ainda bem.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.