Paulete Lindacelva: Guabiraba, Chicago

Em seu primeiro EP, a DJ e multiartista reúne um time afiado de produtores e celebra 10 anos de devoção à house music; “Acho que a house music salvou minha vida”

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Fotos: Caia Marvento Ramalho

Guabiraba, bairro localizado na Zona Norte de Recife, é de onde vem Paulete Lindacelva, multiartista que, em 2024, comemora 10 anos de carreira como DJ. A celebração vem na forma de seu primeiro EP, cujo título consagra a conexão entre os berços da pernambucana e da house music: Guabiraba, Chicago, lançado no último dia 20, pelo selo Perfecto Estado. 

Além de mergulhar no bairro onde nasceu, Paulete mira o presente e o futuro, nos mostrando, em seis faixas inéditas, quais as colorações da sua house music no momento. “Guabiraba é o bairro onde nasci, lá eu tive o primeiro contato com a música, os meus processos religiosos e culturais. Muito do que sou hoje foi esculpido através da minha vivência nessa periferia. Então, é impossível que no meu trabalho – ou em todas as áreas em que atuo – não haja sinais da minha vivência nesse local”, reflete Paulete. “Já Chicago ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas a música atravessa barreiras, inclusive geográficas. Sou completamente apaixonada pelos movimentos musicais geridos ou existentes lá, principalmente os de pessoas negras em diáspora”. 

“Ainda não tive a oportunidade de conhecer Chicago, mas a música atravessa barreiras, inclusive geográficas. Sou completamente apaixonada pelos movimentos musicais geridos ou existentes lá, principalmente os de pessoas negras em diáspora”

O primeiro contato de Paulete com a música foi por meio da percussão, quando, ainda adolescente, fez parte de alguns grupos percussivos. Mas foi com a arte do Maracatu, que conecta tão bem som e dança no ritmo dos tambores, que a artista se apaixonou de vez. “Amo muito a música percussiva e talvez tenha sido ela a responsável por ter me dado noção rítmica que eu tenho nos dias atuais” Inclusive, a faixa “Samba Mortal” é a sua preferida do EP – segundo ela, “por conta dos elementos percussivos e porque lança um pouco de maldição ao mundo”. 

BADSISTA, Gabto, L_cio e Paola Lappicy fazem parte do time de produtores convidados por Paulete para o projeto. Segundo a produtora, Guabiraba, Chicago é como uma reunião de pessoas que ela conheceu em São Paulo, onde vive atualmente, ou artistas cujos trabalhos já chegavam aos seus ouvidos antes mesmo de se mudar para a capital paulista. “Foi prazeroso viver isso e compartilhar e aprender com os outros artistas. A vivência no estúdio foi muito enriquecedora. Estar no estúdio. Ouvir e ver como cada pessoa produz, as coisas que permeiam as sonoridades. Foi a coisa mais divertida, sem dúvidas”.

“É meio caricato falar isso, mas acho que a house music salvou minha vida. Posso prospectar futuro através dela, me deu subsistência, e é um som que em suas mais variadas linguagens me faz sentir o amor e questões políticas vibrantes”

A própria convivência – seja pela noite ou em um nível pessoal – resultou na reunião promovida por Paulete, que conta não ter elaborado ou pensado muito no time de produtores que participariam do EP. A união surgiu de forma natural. “Em dado momento, iniciei as produções e, com tudo encaminhado, bati na porta dos convidados e disse ‘bora lá’! Quase num tom de ameaça [risos]. As coisas foram acontecendo a partir dos encontros, seja pelos trabalhos e espaços da noite ou pela convivência pessoal mesmo, como foi com a Paola, por exemplo. Moramos juntas e é como se isso tivesse que acontecer”.

Unido seu talento à particularidade e à assinatura forte de cada produtor, Paulete traz em Guabiraba, Chicago uma pesquisa orgânica cheia de sutilezas. E, mais do que isso, promove um encontro, uma celebração – atmosfera marcante no universo house e que sempre se faz presente nos sets de Paulete, há 10 anos contagiando pistas com sets enérgicos e versáteis. “É meio caricato falar isso, mas acho que a house music salvou minha vida. Posso prospectar futuro através dela, me deu subsistência, e é um som que em suas mais variadas linguagens me faz sentir o amor e questões políticas vibrantes”.

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