Paz, União, Amor e Diversão: a língua nativa que mudou o Hip Hop para sempre

No fim dos anos 1980, jovens cheios de curiosidade e energia fincaram a bandeira do orgulho em ser diferente: Native Tongues, mais do que movimento ou coletivo, o momento em que a semente do Rap Alternativo foi germinada

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Não somente nos tenebrosos dias recentes – como se observa nos protestos antirracismo por todo o mundo –, mas, durante toda a história da humanidade, acontecimentos tristes precedem momentos de mudança significativa. De João Pedro e George Floyd a Marielle Franco, passando por Martin Luther King, Tupac e tantos outros, essas situações – apesar do infeliz luto e da abominável recorrência – são faíscas ou sementes de mundos novos que urgem em nascer. No Hip-Hop não é diferente.

Em 1988, KRS-One iniciou o movimento Stop The Violence, como consequência direta ao assassinato de Scott La Rock, seu parceiro e DJ no álbum de estreia da Boogie Down Productions, Criminal Minded (1987). Apenas o single “Self Destruction” foi lançado sob as diretrizes do Stop The Violence, mas seu objetivo à época era muito mais uma influência comportamental do que uma sucessão de lançamentos. Resgatando os preceitos da Zulu Nation, o movimento impulsionou os estudos de muitos MCs de Nova York nesse período, propondo uma mudança nas letras, incentivando o afrocentrismo e fomentando um lema base do Hip Hop: “Peace, Unity, Love  & Having Fun”.

A morte de Scott La Rock e o Stop The Violence acenderam a faísca que abriu caminho para que diversos jovens MCs, dotados dessa mentalidade afrocêntrica, marcassem terreno e mudassem as possibilidades do Hip Hop para sempre. Não chegaram a ser um movimento, mas, sim, um momento. Composto inicialmente pelos garotos dos grupos Jungle Brothers, De La Soul e A Tribe Called Quest, o coletivo logo adicionou Queen Latifah, Monie Love e a dupla Black Sheep ao escopo. Com a presença da Zulu Nation e resgatando a África, o Native Tongues trouxe fundamentais inovações para a cultura Hip Hop a partir de uma mentalidade aberta e positiva, defendida por bons meninos e sem bom-mocismo. A abordagem descontraída, mas poderosa, de temas como racismo, sexo e espiritualidade os fizeram pioneiros do que hoje é conhecido como Rap Alternativo. Qualquer insurgência dentro do Hip Hop ou desejo de nadar contra a maré traz algum eco do Native Tongues.

Os quatro ou cinco anos em que o Native Tongues realmente foi algo como um coletivo coeso, em pensamento e sonoridade, foram suficientes para mudar o Hip Hop para sempre. A introdução dos skits, a celebração em ser diferente e, principalmente, o uso predando e prolífico de samples de Jazz, são aspectos cravados nas raízes da cultura. Eles influenciaram diretamente nomes como Pharrell Williams, Common, J Dilla (e Slum Village) e o lendário Soulquarians, coletivo que reuniu Erykah Badu, D’Angelo, Questlove e outros. Se hoje há uma enorme variedade de artistas abordando diversos temas e tensionando o status quo do Hip Hop, isso vem da contribuição do Native Tongues, que, com talento e energia, apresentou a face mais excêntrica do Hip Hop ao mundo.

Aqui, apresentamos os discos essenciais do Native Tongues:

Jungle Brothers – Straight Out The Jungle (1987)

Um mês antes de Straight Outta Compton (1987), três garotos de Nova York faziam seu debut com Straight Out The Jungle. O disco é o primeiro trabalho de artistas associados ao coletivo Native Tongues. Ainda era um produto muito relacionado ao boom bap clássico dos anos anteriores, mas antecipou a característica sonora mais marcante dessa galera: o uso magistral do sample com base em sons de Jazz. Primeiro grupo fora de Chicago a colaborar com um produtor de House, o Jungle Brothers convocou Todd Terry para as batidas do hit “I’ll House You”. Busta Rhymes, na série Hip Hop Evolution (Netflix), defende que se trata do primeiro grupo pró-black que não soa como pastor em pregação.

De La Soul – 3 Feet High and Rising (1989)

Em muitos aspectos, este é trabalho que mais se aproxima de um álbum do Native Tongues, caso fosse um grupo (além de somente um coletivo e uma mentalidade). A capa amarela florida, que partiu do conceito da arte para a música “D.A.I.S.Y. Age”, e distante da figura de “machão”, é obra do coletivo de arte britânico Grey Organisation. É o que melhor explica o estereótipo visual do Native Tongues. Nesse disco, a produção expande os samples em um ecletismo singular, de Funkadelic ao Folk Rock do The Turtles – tudo era material para os jovens amigos que se conheceram no Ensino Médio. De La Soul estabeleceu o sample como parte essencial da história. Eles também introduziram o uso de skits para propósito narrativo, uma característica de discos de Rap até os dias de hoje. 3 Feet High and Rising também conta com o single “Buddy”, faixa que reúne os três grupos pilares do Native Tongues e celebra o companheirismo e a identificação entre si. E, claro, a célebre e inesquecível “Me, Myself & I”. O que a princípio era para ser apenas uma música para a rádio e virou o maior sucesso do grupo até hoje. E o disco é um clássico indiscutível do Hip Hop.

Queen Latifah – All Hail The Queen (1989)

Queen Latifah foi a primeira mina a lançar um trampo sob as asas do Native Tongues. Também de consciência afrocentrada, como os meninos haviam sido, teve produção de KRS-One e Prince Paul, que trouxeram muito House e Reggae para o disco. Trata principalmente de temas feministas por meio da perspectiva da vida urbana de uma mulher negra na transição do fim dos anos 1980. Apesar de algumas faixas menos marcantes pelo repertório, “Ladies First” foi destaque como hino feminino na época e introduziu a pupila britânica de Latifah, Monie Love, que logo lançou seu disco Down To Earth (1990).

A Tribe Called Quest – People’s Instinctive Travels And The Paths Of Rhythm (1990)

O álbum de estreia do A Tribe Called Quest apresentou com amplitude o Jazz Rap ao mundo, normalizando o sample de órgãos ou trompetes de Jazz como os bongos da Incredible Bongo Band. Além das rimas, Q-Tip é destaque na produção: aprendeu em estúdio ao acompanhar o processo dos discos do Jungle e De La e também foi guiado pela lenda Large Professor.  O disco traz um frescor quase inocente de juventude com destaque para os clássicos “Can I Kick It?” e “Bonita Applebum”. A segunda, uma canção imbuída do mais puro hormônio adolescente que transpira pensando na menina mais gatinha da turma. Um dos discos favoritos de Pharrell Williams, que tem Tip como ídolo. Precisa dizer mais?

Black Sheep – A Wolf in Sheep’s Clothing (1991)

Dres, a metade rimadora do Black Sheep, não estava rejeitando os estereótipos gangstas do Rap pelo mesmo motivo idealista do restante do Native Tongues. Na real, ele passava pelo processo de se desassociar dessa imagem para afastar o seu passado no crime (e na cadeia). Black Sheep é menos festivo e idealista do que De La Soul, ATCQ ou Jungle Brothers, mas, ainda assim, não deixa de ser divertido. O diferencial aqui é o humor. A produção de Mista Lawnge é afiadíssima e a faixa “U Mean I’m Not” já abre o disco debochando da postura de bandidão. Seguida pela consciente “The Choice is Yours”, “Flavor of The Month”, Q-Tip rimando sobre safadezas explícitas em “La Menage” e a posse cutz em “Pass the 40”. O tamanho do repertório pode dar uma empapuçada, mas é definitivamente um disco subestimado quando se fala de clássicos, e a prova definitiva de que Black Sheep era parte da família Native Tongues.

De La Soul – De La Soul is Dead (1991)

Como o nome anuncia, o segundo álbum do De La Soul deixava um pouco de lado a positividade e alegria da estreia em favor de uma visão mais desiludida com o estado da cultura Hip Hop. Também veio com a responsabilidade de mostrar que o trio não era só os pretinhos esquisitos da escola – e conseguiu. O longo disco mostra maturidade e comenta sobre assuntos sérios, como o vício em crack, em “My Brother’s A Basehead”, e abuso infantil em “Millie Pulled A Pistol On Santa”. Os skits, antes usados para fazer provocações divertidas, agora começavam a colocar os primeiros pontos finais na era de inocência jovial do Native Tongues. Ainda não era o fim, mas nenhum deles eram mais os garotos de outrora.

A Tribe Called Quest – The Low End Theory (1991)

Talvez o melhor disco da era Native Tongues, o segundo trabalho do ATCQ foi o responsável por distanciá-los definitivamente do estereótipo e da mentalidade do coletivo. Não que as influências de Jazz tenham sido abandonadas – notáveis, por exemplo, em “Jazz (We’ve Got)” – mas Q-Tip parecia mais obstinado em fazer as casas balançarem, como naquele meme do Lula Molusco tocando clarineta no aparelho de som. Com a ajuda do engenheiro de som Bob Power e estudando muito o N.W.A., ele conseguiu criar um disco com o apelo de bass perfeito. (Se fosse hoje em dia e Tip fosse considerado algo como “brega”, talvez as músicas seriam upadas nesses canais de YouTube que a thumbnail dos vídeos é uma BMW rebaixada e no título vem um “com grave” entre parênteses). O disco é coerente e consistente em conceito e sonoridade e carrega um dinamismo irretocável, e Phife havia aperfeiçoado suas habilidades, enquanto Q-Tip mantinha a excelência lírica. Como resultado: ambos com rimas inteligentes, daquelas que dão um estalo quando se ouve. “Scenario”, a posse cutz que finaliza o álbum, é uma das maiores gravações da história do Hip Hop e responsável por apresentar um jovem Busta Rhymes que não só finaliza, mas rouba a faixa. Mais um clássico para a conta do inigualável A Tribe.

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