Pedro Sá, enfim, só

Com colaborações estelares no currículo e uma longa estrada percorrida, o músico carioca lançou hoje (04/11) “Um”, seu primeiro trabalho solo – um novo momento para explorar, como ele diz, “essa coisa de música brasileira & uma guitarra distorcida” que sempre o acompanhou

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Fotos: Geraldine Pasztor

Ao longo de sua carreira como guitarrista e produtor, Pedro Sá ajudou a moldar grande parte do repertório lançado por Caetano Veloso nos últimos 15 anos, na tríade de álbuns lançados pelo cantor junto da banda Cê, da qual Pedro era guitarrista. Trabalhou ainda com nomes como Jorge Ben Jor, Adriana Calcanhotto, Jorge Mautner, além de ser peça-chave da Orquestra Imperial, big band fundada no começo dos anos 2000 – que apresentou o samba de gafieira a uma nova geração. Pedro também fez parte do Mulheres Q Dizem Sim, projeto de apenas um álbum, lançado em 1994, que ganhou status cult e é redescoberto de tempos em tempos. Agora, a euforia e o coração pulsante de um Rio de Janeiro festivo abrem espaço para um universo particular, solitário e franco nas 12 faixas de Um (2021), álbum lançado hoje pela Balaclava Records.

Assim como Burle Marx, Pedro Sá buscou formas mais orgânicas e singelas para compor o trabalho – o célebre paisagista construía canteiros com pouca variedade de plantas; o guitarrista preza pela economia de instrumentos, escorando-se apenas em guitarra e voz. O pulo do gato – o truque ou a feitiçaria – é fazer com que olhos e ouvidos sejam ludibriados e imaginem um jardim lotado de espécies diferentes ou um disco cheio de instrumentos. Gravado praticamente todo ao vivo, Um é uma montanha-russa de sentimentos dos mais humanos e naturais, e soa como uma história contada em pequenos capítulos.

O amor infinito – e melancólico – na faixa “Maior”, que pode ser partilhado por um casal em paz ou em crise, chega a remeter à atmosfera de Cenas de Um Casamento, seja a atual sensação da HBO ou o clássico de Bergman. Já “Há Um” funciona como uma anti-Maior. Não sei mais o que sinto” é o tipo de frase que parece sacramentar que em “um” talvez, enfim, sempre existam “dois”. Já “Joá”, “Gaivota” e “Dia” pintam o cenário de uma beleza que só pode ser brasileira (carioca). “Eu realmente estou lançando agora porque senti que tinha algo de relevante a dizer”, diz Pedro em entrevista ao Monkeybuzz. Aqui, ele nos ajuda a entender como os ventos sopraram rumo ao trabalho solo.

 

Por que um álbum solo agora? Já era um plano antes do fatídico março de 2020? E como essas composições nasceram?

Comecei em 2016 a fazer músicas, lentamente. Na verdade, em 2016, tive de fazer, não exatamente um disco, mas algo que fosse dar em um disco ou em um show, porque, até então, eu colaborava com meus amigos, adorava colaborar, tocar com eles. Mas aí essas produções se expandiram para além do meu grupo de amigos. Tipo, produzi o Caetano, toquei com muita gente e sempre fui muito satisfeito com a minha colaboração, artisticamente falando, mas, em 2016, comecei a tocar e fazer umas músicas que acho que foram formando uma identidade. Eu tava tocando de um jeito que era realmente interessante fazer alguma coisa, sabe? Um trabalho. E por acaso esse jeito é tocando sozinho, só guitarra e voz. Comecei a fazer essas músicas nesse período, mas o disco acaba tendo uma vida própria.

Ao longo de 2018, fiz uns cinco shows na Audio Rebel, aqui no Rio, um lugar alternativo pra poucas pessoas. Com isso, fui mudando minha maneira de tocar. Mudei a afinação da minha guitarra porque a minha voz é muito grave, aí afinei ela de maneira mais grave. Foram várias coisas desse tipo e calhou de terminar o disco em maio desse ano. Durante o isolamento, eu mixei, gravei uma coisa ou outra, mas pouca coisa. Acho que na verdade esse disco tem uma vida própria mesmo e tá sendo bom ele vir agora na pandemia. Claro que a pandemia é um horror, mas tá todo mundo vivendo muito essa solidão. Ela gerou solidão, incerteza e, ao mesmo tempo, uma necessidade de natureza, muita gente foi viver perto da natureza, e acho que o disco aborda tudo isso. É um disco que eu gravei sozinho, é solitário, tem tudo a ver com o momento que tá saindo.

Fazendo um gancho sobre a natureza, logo a primeira vez que eu ouvi o Um me veio muito do Rio de Janeiro, mas um Rio muito específico. Me veio a sensação de quando eu visitei o Instituto Moreira Salles, que tem o paisagismo do Burle Marx, piso frio, vento gelado nas árvores. Me veio a beleza que o Burle Marx propunha, acompanhada da arquitetura brutalista ou não. Acredito que o Rio de Janeiro seja um cenário na sua cabeça para esse trabalho, mas queria saber se você tinha alguns lugares ou imagens mais específicas em mente…

Essa sua sensibilidade foi perfeita porque é o Modernismo, né? Aquela coisa modernista da arquitetura e ao mesmo tempo essa natureza. Até o jardim da casa dos meus pais é do Burle Marx. Eu tirei as fotos de divulgação do disco nesse jardim que é do Burle Marx. Mas tem muito a natureza do Rio de uma maneira muito pessoal, nada cartão postal, nada contra cartão postal, mas, assim, não é um olhar de fora pra dentro é um olhar de dentro pra fora. Por exemplo, “Dia” é a faixa que originou tudo, a primeira que eu fiz e foi feita numa caminhada na praia sozinho, numa praia de inverno, ninguém na praia e tinha esse vento frio que você falou e me veio a melodia e a letra ao mesmo tempo, eu não me esforcei, sabe? Ela veio, cheguei em casa e comecei a tocar e aí realmente comecei a tocar de um jeito na guitarra que vi que tinha uma onda e foi em cima dessa onda que tudo veio.

E me fala da capa que traz essa imagem que me parece um recorte bem pessoal do Rio. De quem é a foto e você tem alguma relação direta com ela?

A foto da capa é minha, é muito pessoal mesmo esse álbum. Eu escrevi meu nome e o nome do disco à mão mesmo na foto, como se fosse quando você anota em uma foto de viagem, Roma – 1975, coloquei ali Pedro Sá – Um, identificando o trabalho. Ela mostra o Morro dois Irmãos que é o morro que tenho uma relação mais íntima. A minha teoria é que todo mundo tem uma pedra favorita, que se identifica mais com alguma, não só quem é do Rio. Pra mim acho que essa identificação não é só porque é a mais bonita, mas é porque alguma coisa na sua pedra favorita te atrai e o Morro dois Irmãos é a minha pedra, não só porque eu sou geminiano, mas porque é lindo você falar esse nome, é um morro só, mas são dois e o nome do disco é Um e quando eu tirei a foto tinha uma nuvem que parecia uma repetição do morro. Eu nem ia fazer isso com a capa do disco, vi a foto e pensei “caramba, tá pronta a capa”.

Quando saiu “Maior”, eu pensei “É uma música diferente do que eu esperaria do trabalho do Pedro Sá”. Ela é mais introspectiva, com uma letra direta e poderosa. Por que você escolheu ela como a primeira amostra do seu primeiro trabalho solo?

É exatamente isso. Esse disco tem muita coisa de guitarrista, muita coisa instrumental que tem a ver com o que eu já fiz em colaborações. Mas tem outras coisas, como meu lado letrista, meu lado compositor, que são menos conhecidos. Sabia que isso poderia causar esse impacto de ser inesperado, mas, cara, como diz o Wilson Batista “Eu sou assim” (risos). Mas, falando sério, acho que essa música fala de um sentimento universal, do amor total, do amor infinito. Assim como “Há Um” fala da solidão profunda, todo mundo passa por isso, falo desses assuntos nessas músicas de uma maneira muito vertical, sem enrolação, muito direto, e achei que isso poderia ter uma consonância com as pessoas, foi um feeling e não saberia te explicar racionalmente. Ao mesmo tempo, “Maior” tem uma janela instrumental enorme, umas guitarras que simbolizam o sentimento infinito, desse sentimento sem palavras, que é mais forte do que as palavras. Tem também essa coisa da música brasileira e uma guitarra distorcida que sempre me acompanha, acho que essas duas coisas de ter esses dois lados de eu estar muito dentro da música brasileira, mas ao mesmo tempo fazer uma música totalmente universal, de ser música eletrônica, ter guitarra, então fazia sentido ser a primeira música lançada.

No release de “Há Um” você diz que a faixa saiu como um samba na linha de Nelson Cavaquinho ou de Paulinho da Viola. Houve algum artista ou obra específica que te inspirou para criar o álbum? Talvez algo que ficou na sua cabeça durante o processo e impactou no resultado final.

No fim das contas, é um disco que sempre esteve na minha cabeça, não foi intencional, sabe? “Quero fazer algo assim”. Mas foi uma inspiração profunda. É o disco do João Gilberto, o homônimo de 1973, é o primeiro disco dele gravado só voz e violão e foi durante muito tempo o único disco dele só voz e violão. Só no final da carreira, ele lançou discos voz e violão em estúdio, esse que estou falando é ao vivo e tem uma coisa nele, porque quem gravou esse álbum era o Walter Carlos, que é a Wendy Carlos, uma compositora trans, ela estava bem nessa transição quando gravou o disco do João Gilberto. E a Wendy Carlos é um nome muito importante da música eletrônica, ela fez a trilha do filme Laranja Mecânica, tem um álbum famoso que ela fez tocando músicas do Bach em sintetizador. E eu sempre achei que esse disco do João tem um grave no violão, grave mesmo, tem alguma coisa no stereo, alguma coisa da captação que não é comum e ele leva pra uma coisa, aquela coisa que falam que o João Gilberto sintetizou a bateria da escola de samba na levada dele, sabe? E nesse disco você escuta mesmo o grave, o agudo, tá tudo ali assim escancarado e a voz dele você escuta tudo dela, é uma coisa da captação da música eletrônica que eu sempre fiquei atento, então acho que esse disco é uma extrapolação desse disco do João Gilberto.

O álbum traz uma composição com o Domenico Lancellotti, uma com o Moreno Veloso e uma com o Kassin. É confortável escrever com amigos ou existe algo de desafiador em criar com pessoas que você conhece tão bem? Pensei que talvez, por se conhecerem tão bem, às vezes possa existir algo que, ao invés de facilitar, dificulta.

Entendo o que você quer dizer, de talvez dar um certo encabulamento, né? Mas não, acho que realmente esse disco tem o caminho dele e saiu fácil. Eu mandei uma música pro Domenico, tinha uma coisa polirrítmica, muito africana, muito rítmica e eu pensei nele, porque pra mim ele é um cara rítmico e poético. Tem um livro de um autor mexicano, o Octavio Paz, chamado O Arco e Lira, que fala da poesia, não só poesia do cara que escreve poesia, mas a poesia que tá em tudo, na música, nas outras artes. E ele fala que o ritmo não é só uma métrica da poesia, ele fala que o ritmo é a primeira coisa que sai da poesia, ele é significado também, ele vem do significado, tem uma função poética e eu acho que o Domenico tem isso. No caso do Kassin, era uma música que eu já tinha há um tempo e fui falar com ele e contei que eu tava com um zumbido no ouvido e ele me explicou que era Tinnitus e o que era, dizendo que provavelmente eu estava nervoso com alguma coisa e realmente eu estava vivendo uma situação ruim, estava me separando. A nossa conversa foi antes de eu mostrar a música e em cima do papo que a gente teve ele falou “rota de fuga”, que acabou virando o nome da música, e ele fala de ruído na letra e isso tudo veio da nossa conversa, então as letras foram meio que feitas pra mim, as parcerias foram meio feitas pra mim. “Pare de Correr” o Domenico fez pro meu filho e pra minha mãe, ela adora natureza e meu filho tava com 4 anos e não parava de correr e a letra seria minha mãe falando pro meu filho “pare de correr pra você ver a natureza”. E a música do Moreno, “Madrugada Acordada”, é que realmente me veio o refrão e eu pensei “É o moreno” porque quando a gente era adolescente varávamos a madrugada ouvindo música, lendo, foi tipo uma faculdade que fiz na casa do Moreno, e o pai dele também aparecia nas conversas. Foi tipo uma universidade mesmo, aí pensei nele e fizemos a letra juntos.

E no estúdio, foi um trabalho rápido? Sei que o trabalho foi produzido por você em parceria com o Léo ‘Shogun’ Moreira lá nos estúdios Maravilha 8.

Foi ao longo de uns dois meses. As gravações em si foram rápidas, mas tinha o tempo do estúdio por causa dos horários de lá. Infelizmente, o Maravilha 8 não existe mais. O dono me emprestou, passando algumas horas vagas e quando o Leo podia a gente se juntava e gravava rapidinho. Era quase “cada dia uma música” e foi praticamente gravado todo ao vivo, pouca coisa eu regravei. O Leo me ajudou nisso porque a minha ideia no começo era colocar a guitarra e depois colocar a voz, mas aí quando fiz isso ele falou que era muito melhor eu cantando e tocando junto, que quando eu fazia separado super cantando e colocando uma intenção na voz ficava meio forçado, meio caricato. E tocando com a guitarra ficava super natural, o que era realmente pra ser a música, então optamos por gravar tudo junto. Existem várias maneiras de se arquitetar esses sons, mas o ao vivo mesmo acho que é uma das forças desse trabalho. Essa coisa do João Gilberto do disco que eu sempre amei e sempre ficou no meu subconsciente. quase no meu consciente, mas sempre esteve ali como uma referência. E no fim é isso, um take tocando e cantando.

“Tá todo mundo vivendo muito essa solidão. A pandemia gerou solidão, incerteza e, ao mesmo tempo, uma necessidade de natureza, muita gente foi viver perto da natureza, e acho que o disco aborda tudo isso. É um disco que eu gravei sozinho, é solitário, tem a ver com o momento que tá saindo”

Eu devo muito ao seu trabalho com a banda Cê e Caetano por começar a ouvir música brasileira na minha adolescência. Acho muito legal seu trabalho de estreia solo sair pela Balaclava Records, um selo pauslitano que conversa bastante com um público jovem, que gosta de descobrir novidades musicais.

Eu acho muito legal, eu adorei o Dotta e o Farah (sócios da Balaclava Records), tive mais contato com o Dotta e achei que ele teve uma compreensão muito precisa e um jeito de trabalhar muito a ver comigo, talvez ficaria meio burocrático estar em uma gravadora grande sendo mais um e com o pessoal da Balaclava teve outro entendimento, acho que ele percebeu meu trabalho não só pelo meu nome do que eu já fiz. Eu não seria só o Pedro Sá, ele tava curtindo mesmo o lance que eu tava fazendo, isso contou muito. E fico muito feliz que o tenha aberto sua cabeça, dos três álbuns da banda Cê com o Caetano acho que esse é o que eu mais interferi.

Eu tava pensando que o Mulheres Q Dizem Sim é super inovador até hoje, quase 30 anos depois e vocês eram super jovens. Hoje em dia você tem acompanhado músicos que estão começando? E tem algum que curte bastante ou acha inspirador?

Fora o disco novo do Caetano (risos), tem a Jennifer Souza achei muito bonito o trabalho dela, a Josyara fui num show dela achei muito bom. Adoro o Zé Manoel ele faz uma coisa mais clássica, mas adoro. Negro Leo é incrível. E o Mulheres é muito louco foi uma banda que não teve sucesso comercial, mas em cada lugar que eu vou tocar pelo Brasil sempre tem alguém que vai falar sobre esse álbum, tipo “esse disco mudou minha vida”, o Romulo Fróes encontrei uma vez e disse que foi o começo de tudo pra ele, foi seminal. O Los Hermanos quando eles estavam no sucesso de “Anna Júlia”, eu encontrei eles no aeroporto e vieram, me abraçaram, e falaram que Mulheres Q Dizem Sim era super importante pra eles.

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ARTISTA: Pedro Sá