Pequim–Rio de Janeiro, Shanghai–São Paulo

Como o projeto “China Tropical” de Ale Amazonia está criando elos musicais entre Brasil e China com colaborações de artistas dos dois países

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O produtor cultural brasileiro Ale Amazonia vive na China e, em parceria com a embaixada do Brasil em Pequim (representada pelo adido cultural Marcelo Azevedo), armou um projeto para pontear os universos musicais dos dois países. Junto da gravadora DaFu Records, ele criou o “China Tropical” – que leva o mesmo nome do livro de 1959 do historiador Gilberto Freyre – e pretende lançar um disco no ano que vem com participações de artistas de lá e daqui. Trata-se de uma iniciativa que envolve os brasileiros Ava Rocha, Negro Leo, Gustavo e Tulipa Ruiz e os chineses Gooooose (também conhecido como Han Han), 33EMYBW (Wu Shanmin) e YEHAIYAHAN (ChaCha).

A intenção de reuni-los em estúdio é a de promover um encontro estético-sonoro-espiritual-temporal e fazê-los conhecerem aspectos culturais uns dos outros durante seus processos criativos. Segundo Ale, o importante era convidar artistas abertos à experimentação e ao improviso. Ava, Leo e a filha Uma, por exemplo, mergulharam de cabeça na experiência. Passaram um mês na China onde, para além da gravação, realizaram shows em Pequim e Shanghai. Os irmãos Tulipa e Gustavo, por sua vez, aterrissam no país em janeiro de 2020. Por lá, vão colaborar com ChaCha, representante do Pop underground chinês e pertecente a uma tribo minoritária: Yi People. Seu mais recente clipe “Under the moonlight” fala exatamente sobre sua origem.

Han Han e Wu Shanmin, no entanto, estão mais interessados em música eletrônica, neste momento. A segunda mostrou à Ava algumas de suas melodias que, em alguma dimensão, por estarem ligadas ao espiritual e ritualístico, conectam-se com o que a brasileira faz ao lado de Bella em Rito de Explosão, um projeto que tocam juntas. “Essa turma faz uma música tecnológica, coisa que a sensibilidade humana não consegue executar”, comenta Negro Leo. “Ele passou por vários formatos de banda e agora está nesse momento em que diz ‘tocar computador’”, comenta a respeito de Han Han que acabou de lançar um software que ele mesmo desenvolveu com inteligência artificial. Gooooose e 33EMYBW, por sua vez, também são desmembramentos de uma banda, a Duck Fight Goose. Em seus projetos solo, contudo, os dois buscam se afastar do que fazem em grupo. Conviver com minorias étnicas na China e homenagear os seus sons, por exemplo, é uma das estratégias adotadas por ambos.

Transações internacionais

“Mostramos para eles o que está sendo feito de mais avançado no Brasil em termos de música eletrônica. Mostramos o 150 BPM e os DJs Rennan da Penha, Polyvox e Turbininha, aí ele pirou”, brinca Leo ao revelar que apresentou o Funk carioca para os chineses. Nessa brincadeira, Ava acabou criando um funk em português com alguns versos em chinês. “DJ Gancinho vai ser meu próximo funk”, afirma sobre uma das possíveis faixas do disco. Durante a interação, a cantora também montou uma espécie de acervo de cantos, um inventário de vozes gravadas para usarem junto à abordagem eletrônica. Segundo Ava, o que aconteceu foi um encontro da brasilidade orgânica com a tecnologia chinesa. “O neolítico e o 5G”, disse Leo. “Existe uma sensibilidade oriental. Não é um eletrônico com cortes brutais e agressivos. O som não é sharp, entende? Não são sons do gueto de um país colônia das américas. Tem uma delicadeza que vem da tradição oriental.”

Uma vez que o abismo entre a cultura chinesa e a brasileira era a coisa mais evidente desde o primeiro encontro, Ava se desafiou a entender as similaridades. “Nossas referências, em alguns momentos, se pareciam. Por exemplo, nos cantos arcaicos. Tanto nós quanto eles trabalhamos muito em cima disso. Fomos criando um entendimento e ligando uma música arcaica a uma música do futuro. Nas relações que se estabelecem no presente, não existe futuro sem passado e vice-versa. O devir inventivo, o devir de romper fronteiras, romper certezas absolutas – a gente se entregou de corpo e alma à nossa sensibilidade artística.” A música foi a maneira que a brasileira encontrou de transpor a barreira da língua. “Ela também tem uma relação com as tranças, também pendurou as cabeças em um show. A gente pira em coisas semelhantes de uma forma diferente. (…) Me senti em um filme, me senti em um poema, me senti em um sonho”, relembra.

O primeiro verso da artista em solo chinês foi exatamente sobre essa sensação. “A travessia é muito louca, longa, parece que você está indo para o fim do mundo. Eu dormia no avião, despertava e só tinha se passado cinco minutos. No voo, o tempo já tinha dilatado. (…) Pequim é diferente de tudo o que eu já vi na minha vida.” Negro Leo até ficou doente com a viagem. “Você realmente inverte o seu ciclo. Seu corpo vai te dizer que você tinha que acordar na hora que você está indo dormir. Fiquei mal e até fui parar em um hospital de medicina tradicional chinesa.” O médico de lá encostou no pulso do brasileiro e ficou lá por cinco minutos. “Você está com raiva, tem raiva no seu fígado”, disse ao soltar. “E acabou. Me deu um remédio composto de ervas, muito amargo. Bebi aquilo por dias e melhorei.”

Em uma casa para 120 pessoas, só voz e violão. Assim aconteceu o primeiro show em Pequim. Foi quando dividiram o palco com o Bayandalai, da Mongólia. Em Shanghai, se apresentaram na Modern Skylab junto das bandas mais hypadas da cidade. A noite ficou conhecida como uma das mais nonsense que já rolaram no lugar, onde vários protocolos foram quebrados. A galera subiu no palco, Negro Leo performou até, em um ato de censura, desligarem sua luz. Em “Língua Loka”, Ava convidou todas as bandas para se juntarem. Estava a maior festa no palco, e o público começou a subir, até que quando começou “Joana D’arc”, de repente viu tudo aceso. Desligaram o som. Maravilhada, Ava conseguiu fazer a plateia cantar “Maré Erê” e parte de “Manjar do Oriente”. No verso “o leite cura…”, o público seguiu cantando “cura, cura, cura…”. “Eles riram, eu fiz uma performance engraçada, tragicômica, pela própria situação que eu estava vivendo”, recorda.

Depois da muralha

Os irmãos Gustavo e Tulipa Ruiz cresceram vendo a mãe manusear o I-Ching – um oráculo chinês. As paisagens do país deixaram de ser estranhas aos dois pelos cartões que recebiam dela, feitos à mão, com cartolina, nanquim e guache. A viagem da dupla para o projeto acontece em janeiro de 2020. Vão passar por Pequim, Qingdao, Xi’an, Shanghai, e também pela região sul do país, onde está a tribo de ChaCha. O itinerário também inclui Mongólia, país vizinho.

A fusão entre os brasileiros e YEHAIYAHAN apresenta, de antemão, um ponto em comum: cada um, à sua maneira, investiga a música Pop. Ao ouvir as músicas de ChaCha, Tulipa e Gustavo encontraram traços de ocidentalização, ao mesmo tempo em que também perceberam uma investigação eletrônica que pode originar uma interessante soma de ruídos e texturas. “Estamos indo buscar sonoridades que não conhecemos. Ainda que ela transite pelo universo Pop, uma vez na China, vamos encontrar sons que não costumamos ouvir aqui”, acredita Tulipa. As gravações devem acontecer dentro de estúdio, mas também em campo, com gravadores captando paisagens sonoras das cidades. “Certamente, ela tem conhecimento de um monte de instrumentos que a gente não tem acesso. O interessante vai ser misturar tudo isso e sintetizar”, antecipa Gustavo.

“É uma pessoa que em termos audiovisuais e plásticos apresenta uma pesquisa em busca de sua própria raiz”, explica Tulipa a respeito de YEHAIYAHAN. Para isso, levam Filipe Franco, cineasta que montou o clipe da música “Tu”. “A decupagem de todas estas imagens e novas geometrias vai nos levar a outros desdobramentos. Eu imagino que a gente produza material lá, mas o que a gente trouxer para cá, vai nos inspirar de outras maneiras”. Sobre as sonoridades, Tulipa tem pensado na melodia inerente ao idioma chinês e em como dançar em volta disso com sua poesia e sintaxe em português. Após a turnê de Tu (2017), um disco mais cru, com percussão, violão e voz, eles têm buscado se apoiar mais na guitarra. Foi assim que se apresentaram recentemente em Nova York e irão para a Espanha em setembro. “A guitarra me deixa mais solta, parece que eu não tenho tanto compromisso em ser uma voz junto com o violão. Ela me dá mais pano pra manga para textura, berro. O violão é mais solene, ele me leva para um outro caminho de emissão vocal. Na guitarra dá para dar umas fritadas, e, nesse momento político, e com o apocalipse todo, eu tenho ido mais para esse lugar do que o do violão”, conta a cantora.

“Será possível ver a China sob o ponto de vista de lá, no momento em que a gente assiste a queda do capitalismo, e talvez uma queda da supremacia ocidental norte-americana. A China está vindo com tudo e é a maior potência do mundo”, acredita Gustavo. “Os governos precisam entender que os artistas são embaixadores de suas culturas e, muitas vezes, são eles os que mais saem de seus países. Considero absolutamente interessante para o governo apoiar os artistas, porque é a gente que vai falar o que está acontecendo em nosso país para o resto do mundo. Este encontro, ‘China Tropical’, é também um lugar de denúncia para nossas opressões e para o que eles passam por lá”, finaliza Tulipa, que curiosamente quase chamou seu Dancê (2015) de Pei Pa Koa, um xarope chinês bom para cordas vocais. “Ele funciona como um vocalise e vende na Liberdade”. Esperamos ansiosamente o resultado dessa troca.

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