Pink Floyd Além Do Tempo

Banda inglesa permanece respeitada, atual e interessante

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Estamos no fim de outubro e ainda não há muitos indícios sobre o novo álbum do grupo inglês Pink Floyd, The Endless River. Com data de lançamento marcada para 10 de novembro e alguns poucos segundos vazados na Internet, a expectativa só faz aumentar. O que se sabe até agora: são gravações feitas há 20 anos, por conta do último álbum lançado pela banda, Division Bell. O conceito, explicou o guitarrista e vocalista David Gilmour, é cantar “o contínuo de melodias, de música”, algo insinuado no próprio disco de 1994, ao final da faixa High Hopes. Sendo assim, ainda será possível ouvir o trabalho do tecladista Rick Wright, que morreu em setembro de 2008, vítima de câncer nessas gravações de vinte anos.

Mesmo que seja interessante um novo lançamento de uma banda veterana e clássica, é possível notar que há algo mais quando se fala em Pink Floyd. O grupo é um dos raros casos de unanimidade entre críticos e público, soube se manter relevante ao longo do tempo, manteve-se elegantemente longe da exposição da mídia e registrando obras-primas no meio do caminho. Muita gente ligará o nome da banda a álbuns como Dark Side Of The Moon (1973), Wish You Were Here (1975) ou The Wall (1979). Outros argumentarão que a banda só existiu até o segundo disco, A Saucerful Of Secrets (1968), o último que contou com a participação do guitarrista fundador Syd Barrett, que não conseguiu continuar no grupo, tamanho o dano causado pelo consumo de drogas, sobretudo o LSD. Para ambas as facções, Pink Floyd ainda é levado a sério com o quarteto remanescente, pós-1968, com David Gilmour (guitarra e vocais), Rick Wright (teclados), Nick Mason (bateria) e o baixista e vocalista Roger Waters, que também assumiu a função de líder do grupo após a saída de Barrett. Esta formação resistiu até 1983, quando foi lançado The Final Cut, um “disco menor” em meio à obra floydiana. Waters se separou do trio restante, dando prosseguimento a uma carreira solo que se iniciara no fim dos anos 1970.

Gilmour, Wright e Mason se reuniram em 1987, gravaram e lançaram A Momentary Lapse Of Reason e entraram numa turnê mundial, da qual resultou o álbum duplo ao vivo Delicate Sound Of Thunder, no ano seguinte. A versão trio do grupo nunca foi levada totalmente a sério pelos fãs mais antigos e dedicados. Talvez pelo fato que é um outro grupo, praticamente distinto do que a banda fora até então. Na verdade, a guinada musical na trajetória de Pink Floyd não é novidade. Seus músicos foram psicodélicos alucinados entre 1967 e 1969. Se filiaram a uma vertente mais experimental do Rock Progressivo a partir do quinto disco, Atom Heart Mother (1970), conhecido como “o disco da vaca” permaneceram assim até 1972, quando lançaram Obscured By Clouds. Logo depois, a guinada rumo a uma variante temática, distópica, misteriosa e grandiloquente de Rock, muito progressiva, mas muito pessoal e intransferível. Era o lançamento de Dark Side Of The Moon, em 1973, um clássico inegável do estilo em todos os tempos. Esta é a face mais conhecida da banda, sem dúvida. Com ela, criticando o progresso em detrimento do isolacionismo do ser humano e embarcando numa jornada sem destino, o próprio homem moderno se tornou objeto de escrutínio por parte da pena afiada de Roger Waters. Com uma autoproclamada liderança na banda, Waters imprimiu suas temáticas e foi o responsável direto por esta identidade renovada. Bom vocalista e baixista, sua interação com o trio restante sempre foi problemática e acabaria por vitimar os relacionamentos em dez anos. Neste espaço de tempo, ao lado de Led Zeppelin e Rolling Stones, Pink Floyd foi integrante do primeiro time do Rock.

Sua posição de destaque seria cristalizada em 1975/77, quando lançou dois discos: o melancólico Wish You Were Here, cuja faixa título era uma homenagem a Syd Barrett e Animals, uma crítica ferina à própria raça humana, comparando-a a porcos. Estes dois álbuns, ainda que inferiores a Dark Side, que tinha uma fluidez maior e um conceito que permitia o encadeamento de canções como se fossem uma só. Era algo usual na época, recurso usado por muitas bandas progressivas. Animals se fale disso, além de trazer canções longas, como Dogs, que chega a mais de dezessete minutos de duração.

A popularidade do grupo voltaria com força total dois anos depois, com o lançamento do mitológico The Wall. Puxado pela alquimia Pop/Rock de Another Brick In The Wall part.2, o disco duplo chegou ao topo das paradas mundiais, mesmo contando uma história dolorida de perdas e tristezas vividas pelo próprio Waters. O tema mais abordado no disco é, sem dúvida, a educação e a rigidez da sociedade britânica. O tema foi roteirizado para o cinema e filmado por Alan Parker, ampliando mais a capacidade de penetração do disco na cultura pop da época. Mesmo confuso e com alguns problemas, o filme teve alta rotação nos cinemas do mundo. O disco ainda emplacou outros sucessos, como Run Like Hell, Comfortably Numb e Mother, todas complicadas e raivosas, contextualmente interligadas mas magistralmente executadas, fator que sempre foi marca registrada da banda. Desentendimentos internos fizeram com que Waters e Wright brigassem a ponto da demissão do segundo, que voltaria para o álbum seguinte, Final Cut, como músico convidado. Roger Waters continuava desferindo golpes nos valores ingleses, atacando a opressão vivida pelas famílias durante a Segunda Guerra Mundial, usando a morte de seu próprio pai como exemplo. O álbum encerra o período dourado da banda, com um conjunto de canções que não faz jus ao conceito proposto, dando ao disco um sabor amargo, que seria a despedida do quarteto.

Pink Floyd em forma de trio é, portanto, a banda que gravou os últimos álbuns de composições originais. Depois de A Momentary Lapse Of Reason, de 1987, viria Division Bell, sete anos depois. E das sobras e conceitos deste último, o novo trabalho, The Endless River. Não dá pra acusar os integrantes remanescentes de oportunismo. Gilmour é dono de carreira solo bastante solidificada, com álbuns interessantes lançados desde o fim da década de 1970, além de colaborar com outros músicos, como Paul McCartney e Crosby, Stills And Nash, só para citar dois. O baterista Nick Mason, que nunca foi um mestre do instrumento mas foi capaz de fornecer a sonoridade adequada aos arranjos do grupo desde 1967, é multimilionário e coleciona Ferraris. É pouco provável que estes dois senhores estejam com problemas financeiros de qualquer ordem. Além disso, a dupla descartou a possibilidade de qualquer apresentação para divulgar o novo material.

Mesmo nos momentos em que enfrentou descrédito – sobretudo nos últimos anos de existência – Pink Floyd continuava sinônimo de música relevante. A aura séria e solene dos músicos, a parafernália eletrônica dos shows, a linguagem visual dos raros clipes e a dobradinha entre a voz e a guitarra de Gilmour sempre foram capazes de chamar atenção. Imersos numa trajetória tão peculiar, o grupo foi capaz de forjar sua assinatura sonora, a ponto de ser identificado facilmente em meio aos primeiros acordes de uma melodia. Quando falou sobre o novo álbum, David Gilmour o definiu como “55 minutos de música, divididos em quatro movimentos”. Viria então um trabalho diferente dos dois últimos, com formato mais voltado para o Pop Rock Progressivo. Em se tratando de Pink Floyd é arriscado demais fazer qualquer previsão. Mas é possível afirmar que Gilmour e Mason não cairiam em uma cilada que colocasse em xeque sua credibilidade. Virá música relevante, bem feita e que entrará para a história da banda sem muita cerimônia. Enquanto aguardamos, recomendamos que você vá conhecendo os discos mais importantes e que esteja totalmente preparado para a hora de ouvir algo novo destes senhores em 20 anos.

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ARTISTA: Pink Floyd
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.