“Plans”: Death Cab For Cutie E Seus Dez Anos De Maioridade

Disco que marca aumento de visibilidade da banda completa uma década de seu lançamento

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É um mito moderno, talvez nem tanto: uma banda muda quando assina contrato com uma grande gravadora? Talvez hoje isso nem seja tão importante, uma vez que os discos estão decadentes como meio convencional de divulgação e valoração da arte em forma de música popular. Há dez anos, no entanto, a autoestrada da informação ainda não avançara tanto em nossas vidas, estávamos num meio do caminho, no qual CD’s tinham, sim, bastante importância e realizá-los envolvia gastos, esforço e seu alcance dependia exclusivamente da capacidade de divulgação que uma banda/artista era capaz de empreender. No caso de gente que tem contrato com gravadoras independentes e menores, evidentemente seu raio de ação tende a ser menor, enquanto ele aumenta exponencialmente se seu compromisso é firmado com uma empresa multinacional, com departamentos mamúticos de divulgação, relações públicas e toda a influência possível nessa coisa de fazer com que as pessoas ouçam uma música, seja onde for. O fato é que, além disso, há outras questões que atormentavam as mentes dos artistas há até pouco tempo, mas que tendem a ser prisioneiras desta época de gravadoras grandes e pequenas. Death Cab For Cutie e seu álbum Plans são um bom caso de estudos.

Em 2003 a banda lançou aquele que pode ser seu melhor trabalho até hoje, Transatlanticism. Talvez Ben Gibbard, Chris Walla, Nick Harmer e o então novo baterista Jason McGerr não imaginassem que seria seu último trabalho a ser gravado pela Barsuk Records, que, até então, detinha o passe do grupo desde sua formação, em 1997. O fato é que o novo álbum teve resultados acima do esperado em termos de venda e visibilidade, tornando o quarteto mais conhecido por mais e mais pessoas. Um dos caminhos para este aumento de visibilidade se deu através da admiração que Josh Schwartz, criador da série televisiva The O.C, na qual o grupo adentrou firmemente como uma das bandas prediletas do personagem Seth Cohen, vivido pelo ator Adam Brody. Seth, uma espécie de nerd sociável (talvez um precursor dessa nerdice moderna, mas aí já é assunto para o outro artigo), é fã de quadrinhos, filmes de aventura, ficção científica, especialmente Guerra Nas Estrelas, e, voilá, bandas Indie, ostentando um poster de Death Cab For Cutie na parede do quarto, além da trilha sonora não hesitar em usar canções de Transatlanticism e The Photo Album (o disco anterior, de 2001) em alguns episódios.

Veja, algumas pessoas acham que uma banda realmente independente não poderia tocar numa série adolescente de projeção mundial, caso de The O.C no início dos anos 2000. Balela. O fato é que, apesar dos integrantes da banda mencionarem que sempre ouviram propostas de gravadoras maiores, coincidentemente, mudaram para a Atlantic Records em meio a esta ampliação de popularidade, resultado da beleza do novo álbum e da boa trama e repercussão da série. Na verdade, The O.C não foi a única a incluir canções do grupo em seus episódios. Six Feet Under, CSI e Californication se valeram das músicas para conferir modernidade e relevância a seus episódios. Com o lançamento do belo The John Byrd EP, Death Cab For Cutie abriu caminho para o novo disco, Plans, que viria sob a égide de uma nova fase na carreira do grupo.

A banda mudou-se para uma fazenda a milhares de quilômetros de distância da região de Seattle, indo parar no outro lado do país, perto de Boston, para gravar o novo trabalho. Isolados, no meio do nada, os quatro integrantes substituíram a melancolia da distância, que permeava o disco anterior e abraçaram uma espécie de postura reflexiva diante das pequenas tristezas do cotidiano, aquelas que somos levados a achar naturais e indolores, mas que se acumulam na alma e, um belo dia, sem que saibamos, saem por todos os lados. Esta condição emocional, apesar de não ter o referencial geográfico, a distância física, que norteou Transatlanticism, é o ponto de união entre ele e Plans. Quando foi lançado, puxado por três singles, a saber, Soul Meets Body, Crooked Teeth e I Will Follow You into the Dark, o disco recebeu uma boa quantidade de resenhas favoráveis, que exaltavam a boa forma literária de Gibbard e a louvável capacidade de fornecer invólucros melódicos por parte do resto da banda, especialmente Walla. Mesmo assim, muitos jornalistas ainda implicavam com a recente mudança de condição no contrato da banda, contratada de uma gravadora grande. Era como se as angústias e os assuntos que haviam fornecido matéria prima para as composições, de um minuto para o outros, sumissem diante da condição de ter um contrato que garanta mais dinheiro ou mais shows. Triste imprensa.

O fato é que Plans teve belo desempenho nas paradas, onde permaneceu por mais de 40 semanas ao longo de 2005/06. A boa qualidade do disco fez com que ele fosse indicado ao Grammy de Melhor Álbum Alternativo, mas posso afirmar que seu grande tesouro permanece parcialmente escondido, na majestade que é a décima faixa, Brothers On A Hotel Bed, uma mistura de pianos, bateria criativa, ritmo intrigante, teclados esparsos e letra milagrosa, cortesa de um Gibbard angustiado diante de uma solidão que senta ao nosso lado no ônibus e nos olha, sem que a percebamos. Seja como for, Plans tem lugar de destaque na elegante discografia de Death Cab For Cutie e seu décimo aniversário é uma prova cabal de que o tempo passa rápido, talvez demais.

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MARCADORES: Aniversário

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.