Playlist da Vida – Millos Kaiser

Claudinho & Buchecha, Talking Heads, Ed Motta, Green Day, Dodô da Bahia

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Fotos: Luara Calvi Anic

Playlist da Vida é um quadro em que convidamos artistas para escolherem as 10 músicas mais marcantes de sua vida.

Na última década, o DJ, colecionador e coproprietário do bar Caracol se destacou pela minuciosa e única seleção de músicas em seus sets. Após dar início a sua carreira musical, Millos Kaiser saiu de Niterói, onde nasceu e cresceu, e se mudou para a cidade de São Paulo, dando vida a então dupla (e festa) Selvagem, ao lado de Augusto Olivani (Trepanado) — além do selo Selva Discos. No entanto, a partir de janeiro de 2019, ele optou por seguir carreira solo, desligando-se da marca. Ainda que sua história até seja um pouco “recente”, o artista lembra como a música o fascinava desde muito pequeno. “Minha relação começou desde que eu tenho consciência de estar vivo. O que eu mais gostava nos desenhos animados, por exemplo, era a música, sempre, e o que ela causava em mim”.

Millos Kaiser acredita que música é acessibilidade. É uma arte que lota estádios, democrática não só com quem produz, mas com quem reproduz e vive dela – mesmo com as dificuldades. “Além de matéria-prima para o meu trabalho e ganha-pão (seja discotecando, seja vendendo discos, seja cuidando da programação do bar Caracol), ela é uma fonte inesgotável de prazer para mim. Escutar música é o jeito mais rápido, prático e efetivo que conheço de me sentir bem”.

Em meio a muita (muita) pesquisa, variadas influências e uma viagem intensa entre gêneros – que vai de Ambient a Reggae, passa por Boogie e Disco, até House e Techno –, queremos saber: quais são as músicas marcantes da vida de Millos Kaiser? Para essa edição do Playlist da Vida, o DJ traçou um mapa musical de suas referências, da infância até agora. “Foi bem emocionante fazer essa lista, tive vários flashbacks mentais, daqueles que arrepiam a pele”, conta sobre a seleção criada. “Interessante notar que quase todas músicas são super óbvias, hits mundiais – quem conhece meu trabalho, sabe que o foco é justamente em músicas desconhecidas e perdidas no tempo. Deve ter anos que não escuto algumas dessas faixas. Estão longe de ser minhas preferidas. Mas… foram as que mais me marcaram”.

Roxy Music – “Avalon”

Eu amo Bryan Ferry e a cafonalha chique dele. Minha mãe me embalava com essa música quando eu era bebê, ela diz. Acho que isso diz muito sobre mim e meus gostos.

Ed Motta & Conexão Japeri– “Manuel”

Esse disco do Ed Motta foi o que mais tocou no toca-discos do nosso apartamento quando eu estava crescendo. Essa era música que eu mais gostava, apesar de não ser a minha preferida hoje (“Lady” e “Vamos Dançar” competem). Talvez por causa da letra, totalmente imagética. Eu ficava lá, imaginando o Manuel que “foi pro céu”.

The B-52’s – “Private Idaho”

Fiquei uns dois anos da minha vida só escutando The B-52’s. Meus pais gostavam muito (chamavam de Bife com Tutu), herdei deles. Engraçado que em Niterói, onde nasci e cresci, rolava sempre um momento New Wave nas matinês. O DJ tocava essa, “Footloose”, “Dancing With Myself” e “Middle of The Road”, do Pretenders. Nessa hora se formava uma roda e duplas de meninos dançavam no meio. A dança era meio um pré-passinho, não sei de onde veio, mas era meu momento preferido nas festinhas. A sonoridade dos anos 1980 sempre foi a minha preferida. Apesar de ser tímido demais na época para dançar, ficava em casa no espelho depois tentando aprender.

Claudinho & Buchecha – “Nosso Sonho”

Ganhei um concurso de dança em uma festinha com essa música na quarta série. Imitava aquela dancinha que finge estar se afogando etc. Sei lá, me marcou.

Talking Heads – “Crosseyed and Painless”

Eu menti. Nos dois anos que disse só escutei The B-52’s eu também escutei muito Talking Heads. Apenas essas duas bandas, por dois anos. Não precisava de mais. Talking Heads é dançante, inclassificável e global. É o que busco nas músicas que toco também.

Legião Urbana – “Angra Dos Reis”

Legião é uma banda que escutei muito pouco. Mas essa música é muito bonita. Lembro muito bem do meu pai dirigindo a Marajó dele vermelha cantando a letra inteira. É como se eu ainda estivesse no banco de trás.

Caetano Veloso – “You Don’t Know Me”

Minha porta de entrada na MPB não convencional, digamos. Até a faculdade, meu iPod era composto majoritariamente por música internacional, com algumas exceções mais convencionais. O Transa (1972) me mostrou que havia todo um universo a ser explorado. Esse disco também me lembra muito meus tempos de faculdade de jornalismo na Urca, quando fui, ainda bem, praticamente obrigado a tropicalizar-me.

Green Day – “She”

Eu seria hipócrita se não escolhesse nenhuma música de Punk, Emo ou Hardcore aqui. Afinal, mergulhei nesses estilos por alguns anos da minha vida – um pouco como vocalista, mais como guitarrista. Depois dos 18 anos, eu não encostei mais em nada disso. Mas, se tivesse que escolher uma faixa desta fase seria essa, pelo número de plays na época. Dookie deve ter sido um dos discos que mais escutei na vida.

Emílio Santiago – “Revelação”

Primeira música da minha fase DJ que coloco aqui. Acho essa letra melhor que qualquer autoajuda e Emílio é um dos muitos gênios menosprezados da nossa música. Essa deve ser a faixa que mais toquei em sets até hoje. E ao que tudo indica, continuará no páreo por um bom tempo.

Dodô da Bahia – “Africamérica”

Mais uma da fase DJ. Ter descoberto esse disco em um sebo no Rio há quatro anos me fez querer fazer a coletânea Onda de Amor. Quando escutei essa música pela primeira vez, não conseguia entender por que ela não havia sido um sucesso. Letra, produção, para mim, tudo nela é perfeito. Achados como esse me fazem continuar na busca por outros tesouros.

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ARTISTA: Millos Kaiser