O que vem depois da cura e da liberdade? Isso foi o que Jonathan Ferr se questionou em algum momento de 2023, e a resposta não tardou a chegar: materializou-se em LAR, disco lançado no mês passado, que dá continuidade à miscelânea de jazz, hip-hop, neo soul e MPB apresentada por ele até aqui. “A pergunta veio quando eu estava em Madureira, no Rio de Janeiro. Ia fazer um show lá, onde nasci e cresci, depois de muito tempo. Então fiz uma série de vídeos chamada ‘De Volta Pra Casa’”, conta. “Saí de Madureira, mas Madureira seguiu comigo”.
A noção de lar atingiu ainda camadas mais profundas, para além do espaço físico. 2023 também ficou marcado como o ano do falecimento do pai de Ferr, quando o luto revirou algumas certezas. “Foi como se o meu teto tivesse sumido”, recorda. “Então coloquei essa casa imagética dentro de mim e trouxe isso para a música. Amor, fragilidade, finitude, saudade e todas as coisas que atravessam esses sentimentos: meu lar é composto disso tudo”.
É o que as 11 faixas de LAR mostram, um Jonathan mais confortável na sua própria pele – e também com a sua própria voz. Da sua estreia para cá, essa relação se transformou. Em Trilogia do Amor (2019), os vocais do artista não aparecem, ele se comunica apenas pelo piano. Mas, com o passar dos álbuns, outros contornos foram surgindo, até o pontilhado virar uma linha completa.
No disco de 2025, ouvimos Ferr cantando em oito músicas sobre temas como a franqueza nas relações amorosas, memória e pertencimento. E assim como Liberdade (2023) trouxe alguns experimentos com o autotune, LAR amplia o uso dessa tecnologia, que conversa com a proposta afrofuturista dele.
“Sou fã de T-Pain, sou fã do [MC] Cabelinho, dessa galera toda”, divide. “O autotune é muito questionado, dizem que é coisa de quem não sabe cantar. E pode ser um recurso para resolver a questão da voz, mesmo, mas não é o meu caso. O que me interessa é o lance de usar o processo como uma linguagem”.
Ao misturar o autotune com o jazz, Ferr sabe que algumas sobrancelhas se levantam em confusão, o que não o incomoda. “Toda vez que pinta uma coisa nova aparecem questionamentos de quem está na base”, diz. “Por exemplo, no final dos anos 1960, teve a marcha da guitarra elétrica. Imagina isso em 2025… A Avenida Paulista lotada com pessoas contra a guitarra elétrica. Cara, não faria sentido nenhum”.
“O jazz me emancipou artisticamente, enquanto linguagem e conseguir pensar na música fora da caixa. Não precisar estar nas quatro linhas, poder extravasar. Já o rap me trouxe a identidade política, me entender como homem preto na sociedade e enquanto artista negro. Aprendi a discursar sobre isso na minha vida e a me expressar”
De Coltrane a Brown
Se hoje Jonathan navega com facilidade pelos encontros da música, seja com outros artistas ou com as ferramentas que integra ao seu trabalho, é porque aprendeu a fazer isso lá atrás. Na adolescência, estudou na Escola de Música Villa-Lobos, onde teve uma experiência que o impactou para sempre: ouviu o disco A Love Supreme (1965), de John Coltrane. “Quando entrei na sala de aula, já estava tocando aquele saxofone totalmente metafísico e transcendental. Lembro que fiquei assim: ‘meu irmão, o que é isso?”.
Esse foi o pontapé que o levou a buscar referências nos livros e nos discos, que o apresentaram a nomes fundamentais da história do jazz, daqui e de lá, como Hermeto Pascoal e Miles Davis. Nesses mesmos anos formativos, Jonathan se aproximou de outro gênero que o acompanha até hoje, o rap. “Um dia, um amigo me provocou: ‘pô, você não conhece Racionais MCs e MV Bill, o que é isso, cara?’”, lembra. “Então ele me deu um CD com várias coisas que ouvia. Fui impactado pelo MV Bill, porque tinha uma vivência muito do Rio de Janeiro. E Racionais é universal. Quando ouvi ‘Negro Drama’ pela primeira vez, pensei: ‘caraca, meu irmão, eu acho que sou preto’”, ri.
Assim nasceu a base de Jonathan Ferr, que desde cedo entendeu que era possível conciliar os sons que cruzavam o seu caminho. “O jazz me emancipou artisticamente, enquanto linguagem e conseguir pensar na música fora da caixa. Não precisar estar nas quatro linhas, poder extravasar”, explica. “Já o rap me trouxe a identidade política, me entender como homem preto na sociedade e enquanto artista negro. Aprendi a discursar sobre isso na minha vida e a me expressar”.

“Quando a galera coloca o jazz nesse lugar elitista, fico com o pé atrás e tomo para mim a função de quebrar essa história, de ser o anti-herói do jazz. Para gostar do gênero, não precisa ter 10 mil discos de vinil em casa. É o que busco na minha música, criar esse estado de conexão. Enquanto você estiver conectado com ela, você vai se conectar consigo mesmo”
Portas abertas
Entendendo como Ferr cria conexões a partir da música, as colaborações nos seus discos ganham novas camadas. O artista, que em outros momentos já trabalhou com nomes como Luedji Luna, Tuyo, Jaques Morelenbaum, Kaê Guajajara, Melly e Tássia Reis, traz novos rostos e vozes para o seu LAR, que conta com produção de Douglas Modas, Julio Raposo e do próprio Jonathan. O disco começa com a participação de Ana Karina Sebastião, baixista da Fresno e da Liniker, que dita o groove de “Casa”. Algumas faixas à frente, em “Infinito”, Dino d’Santiago entra em cena. O cantor português estava com Jonathan quando o pai dele faleceu, então a letra, escrita para relembrar os bons momentos com alguém que já não está mais por perto, ganha um significado especial ao ser interpretada com d’Santiago.
Nova Orquestra aparece tanto em “Infinito” quanto em “Saudade”, outra faixa endereçada ao pai de Jonathan, mas toda instrumental. Da gaveta, resgatou uma parceria antiga: a música “Tudo o Que Eu Sou”, feita há mais de 10 anos com Luccas Carlos, mas que só viu a luz do dia agora. Enquanto na produção musical, LAR tem dois convidados: Duda Raupp em “Eixo Novo”, e JOK3R, em “Raro” e “Visceral”.
A ficha técnica das participações conta ainda com outros dois nomes: Pedro Bial e Marcos Valle. Em 2023, Jonathan foi ao Programa do Bial, momento em que conheceu um dos maiores ícones da MPB nos bastidores da TV Globo. “Permanência do Som” traz a apresentação que Bial fez de Jonathan quando ele foi ao programa, e “Almar” foi composta e é interpretada ao lado de Valle.
Anti-herói
Quando a mãe de Jonathan Ferr tirou uma foto do filho descolorindo o cabelo do seu neto, não imaginava que a imagem pararia na capa de LAR, e nem ele. A princípio, o cantor pensou em usar uma foto só sua para estampar o trabalho, mas o resultado da sessão de fotos parecia muito engessado e não combinava com a proposta do disco, faltava intimidade. “São duas pessoas pretas, se relacionando ali de uma maneira muito informal, mas tem carinho, amor, afeto, cuidado, tem confiança”, expressa. “Além disso, tem o elemento da estética urbana mesmo, que hoje pegou o Brasil, mas por muito tempo nevar o cabelo era uma estética urbana periférica.”
Ao aproximar signos como esse do jazz, gênero historicamente negro que foi embranquecido e elitizado com o passar das décadas, o pianista abre caminhos para que mais gente se aproxime não só da sua música, mas das ramificações do jazz como um todo.
“Sempre transitei entre diversos espaços. De dia, estava assistindo à 9ª Sinfonia de Beethoven no Theatro Municipal; à noite, estava no baile funk com os meus amigos; e, no dia seguinte, estava na quebrada, em roda de rima”, fala. “Quando a galera coloca o jazz nesse lugar elitista, fico com o pé atrás e tomo para mim a função de quebrar essa história, de ser o anti-herói do jazz. Para gostar do gênero, não precisa ter 10 mil discos de vinil em casa. É o que busco na minha música, criar esse estado de conexão. Enquanto você estiver conectado com ela, você vai se conectar consigo mesmo”.
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