Por que tantos duos de música eletrônica?

Criando marcas ou conceituando personagens, projetos musicais estão cada vez menos preocupados com a estrutura e mais com conteúdo

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Daft Punk, Justice, Felguk, Flight Facilities, Knife Party, GTA, Disclosure. A pergunta parece ser vaga demais e talvez até sem uma explicação racional. Se você tem um “porque sim” na cabeça, é compreensível. O primeiro reflexo é de não haver uma resposta tão prática e racional sobre isso, mas se existe um padrão é possível traçar alguns motivos que levam a ter maior preferência por essa estrutura.

Começando pelo início. Aqueles que não sabem, a festa que você vai no final de semana ou os maiores festivais do mundo são compostos por, no mínimo, duas CDJs e um mixer. A resposta mais superficial paira por aí. Temos a maioria de projetos formados por dupla para que haja uma mobilidade maior entre o equipamento, que, na maioria das vezes (quando profissional) é acompanhado por um notebook. É claro que isso não é regra. Carl Cox, nome consagrado do Deep House, faz suas apresentações com 4 CDJs. Steve Angello (integrante do, hoje já morto, Swedish House Mafia) consegue botar 7 CDJs sincronizadas usando dois mixers. Se eu falar que ele não usa headphones o faz parecer mais absurdo? Então.

Então partindo desse pressuposto, tudo se basearia no fator quantitativo, de necessidade. Em uma banda tradicional, precisa-se de quatro integrantes, então por isso bandas têm mais pessoas que projetos eletrônicos. Verdade? Depende. Hoje não mais tem essa necessidade. O tradicionalismo ficou para trás e o que mais vemos hoje são novas estruturas de projetos musicais. Bandas não seguem o padrão de vocal, guitarra, baixo e bateria, os projetos solos nem sempre dependem de um só instrumento, os produtores não pensam somente em carreira individual. As coisas vêm mudando com a possibilidade de se transformar o que conhecemos sobre música em si e suas limitações. Hoje um artista consegue botar sons sintéticos de bateria, piano, guitarra, sintetizadores, e ficar praticamente por conta da voz (dê um alô para Robert Delong ou James Blake). The xx, She & Him, Black Keys – só para citar alguns, vieram com estruturas bastante peculiares, fazendo um som que geralmente se esperava mais integrantes para criação.

Mas não é segredo que quanto mais mentes pensantes, mais conflitos (ou menor probabilidade de uma só linha de produção, se você prefere o eufemismo). Em projetos eletrônicos nao há necessidade, igual uma banda, de encaixar pessoas nos instrumentos. A maioria não é som orgânico, é possível otimizar isso em sintetizadores e só ter mais alguém com uma mesma linha de influência. Mas por que “ter mais alguém” é discutido? Vivemos em uma época em que um personagem tem mais visibilidade que a realidade – Slipknot e Sleep Party People estão aí para provar isso (olha que eu nem mencionei personagens dos anos 70 para cá). Esse personagem, quando vendido, vira uma marca e marca tem mais credibilidade por não ser movido por impulsos irracionais. Uma marca segue a proposta, uma marca é fiel, uma marca tem mais força que um humano, é símbolo, é indestrutível. Uma marca representa, uma marca chama atenção. Tem marcas feitas por uma só pessoa? Lady Gaga, Nicki Minaj e SKRTRKT são alguns, mas é um pouco mais difícil convencer de forma solo do que em grupo, além do fato de que mais pessoas carregam consigo mais credibilidade. E, claro, ter alguém do lado traz força para começar uma carreira e ajuda na construção de networking.

Continuando, saindo um pouco do live e indo para a produção, é sempre complicado depender de mais cabeças para produzir em um só computador um material em consenso. Imagina cinco produtores querendo trabalhar em cima de suas influências de bumbo, de prato, de sintetizadores em uma só faixa? Não dá para segmentar instrumentos no eletrônico como em bandas, não por produtores. Ou seja, quanto mais pessoas para haver troca de experiências e influências nas produções, mais complicado. E quando há divergências? Em bandas, há necessidade fisica dos integrantes, apesar de conflitos, precisa deixar de lado para poder prosseguir. No mundo eletrônico não. Se as linhas estão em choque, os objetivos não são os mesmos, as referências mudaram, o duo se separa e abre mais dois projetos diferentes com sons diferentes e mais oportunidades de crescimento. Não que isso seja regra, inclusive é bem difícil separar e conseguir a mesma visibilidade (fica o recado para alguns duos brasileiros que não preciso citar), mas não é tão traumático como se houvesse maior dependência. O próprio SHM não se sustentou e agora Angello, Axwell e Ingrosso estão seguindo seus caminhos de antes. Aliás, essa tem sido a escolha de muitos novos produtores por aí que confiam bastante nas suas próprias influências e não querem dividir mérito: Madeon, Zedd, Dillon Francis, Hardwell, Porter Robinson, Breakbot são só alguns.

A logística importa, com certeza. É bem mais fácil uma equipe que cuida de uma dupla do que de uma banda. Financeiramente falando também, obviamente, compensa mais. Mas não quero focar na discussão somente dos duos eletrônicos e sim dos projetos musicais atuais. O que tiramos disso? Cada vez mais o óbvio está saindo de linha e dando espaço para gente criativa que tem sede em trazer algo novo sem se limitar. A regra é inovar, sem preocupar com quantos exatamente estão por trás do nome. Tendo ideias, objetivos e influências similares é possível ir longe e ousar na base, mesmo porque ela não é o mais relevante aqui e sim seu conteúdo. Definitivamente hoje não há fronteira. Até as duplas sertanejas nem são mais somente… duplas.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King