Portishead: Viagem Sinestésica Sem Chance de Volta

“Dummy”, disco de estreia do trio, completa 20 anos de idade e ainda se mantém como uma da obras mais bonitas e eternas na música

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Antes da metade da década de 1990, alguns sinais de cenas musicais sendo formadas e uma renovação artística eram percebidos por quem consumia ou trabalhava no meio. O Grunge havia mostrado sua força, o Hip Hop já não era mais um foco pontual na Costa Leste norte-americana e o Rock Alternativo era puxado por todos aqueles que queriam fugir das arenas lotadas e buscavam um meio independente. No meio deste ecossistema global, uma cidade britânica conhecida na época colonial por ser um dos maiores portos de escravos e mercadorias, criaria uma cena musical peculiar que viria a ser o que hoje chamamos de Trip Hop.

Bristol era tal qual Seattle foi para o Grunge, uma cidade que o determinismo levou a criar uma cena particular. Seu histórico multirracial levou-a primeiramente a popularizar o Reggae na ilha da Rainha enquanto o fim dos anos 1980 colocaria um caldeirão efervescente para cozinhar ali – Hip Hop e EDM eram contextualizados através de um clima nebuloso e uma população acostumada à diversidade. Logo, não é dificil perceber porque o Trip Hop vem a ter esse nome, que em uma linguagem popular poderia ser simplesmente traduzido como “viagem em batidas”. Tampouco é complicado entender o fato de os maiores expoentes da região, Massive Attack e Portishead serem tão semelhantes e diferentes ao mesmo tempo. O primeiro seguia uma linha mais Eletrônica, enquanto o segundo tentava fazer tudo parecer mais orgânico e orquestrado, no entanto, ambos sempre sugeriam a lisergia em câmera lenta feita a partir de uma sensualidade única.

Dummy, o primeiro LP de Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley – conhecidos como Portishead -, completa 20 anos nessa sexta-feira, mas poderia muito bem ter sido lançado na semana passada. Sua contemporaneidade parte desde o seu clima jazzístico que conduz uma trilha-sonora de filme de mistério (sua capa parte de uma cena de To Kill A Dead Man, curta feito pela banda que rendeu o contrato desse disco) até a voz sofrida, frágil de sua cantora. Os ecos sonoros criados pelos seus multi-instrumentistas e sound designers são auxiliados por batidas que são compreendidas e ouvidas em qualquer faixa de Hip Hop moderna. Logo, ouvir o trabalho é como viajar no tempo sem sair do lugar, colocação ainda mais precisa quando se trata de Trip Hop. No entanto, é a beleza sonora e como esta se insere dentro de cada uma das suas onze faixas que coloca o ouvinte em contato sinestésico com a obra – cada particularidade é compartilhada entre os mais variados sentidos – uma experiência sensorial única.

Escute a abertura Mysterons com seu teremim e sua sugestiva arquitetura misteriosa, que tenta não levar o ouvinte a se envolver de alguma maneira, algo claramente impossível. A voz frágil de Beth Gibbons questiona “Did you really want?” enquanto afirma sobre crimes que foram deixados de lado – de alguma forma, a faixa consegue emanar um sentimento ambíguo de preocupação e desprezo: não sabemos se queremos continuar com a história, mas, ao mesmo tempo, é inevitável não abraçar a música. Aliás, se sempre a inspiração do grupo foi criar trilhas-sonoras, o single Sour Times é uma construção moderna dos filmes de faroeste construídos por Ennio Morricone. No entanto, o suspense que sempre sugere um climáx para cada canção – o tiro do cowboy, policial ou bandido – é sensual, pois a cantora se coloca sempre como uma anti-heroina, sua fragilidade atrai o ouvinte para um lugar em que ele pode se arrepender. Em Strangers, ela excita “Ohh … /Just set aside your fears of life /With the sole desire”, enquanto em Wandering Star a mesma voz envenena desejando a tragédia: “Wandering stars/For whom it is reserved /The blackness the darkness, forever”.

Se a sua feminilidade é atriz principal de todo o trabalho, são os coadjuvantes que fazem de Dummy – e, posteriormente, o grupo – figurar no inconsciente coletivo de uma geração – dificilmente uma lista dos melhores discos da década não coloca este álbum em uma posição respeitada. Geoff Barrow e Adrian Utley produziram o disco de forma moderna, utilizando de baterias eletrônicas, samples e tudo que estava ao seu alcance para criar um disco de música Eletrônica conceitual. O primeiro conduzia não só a bateria com seus timbres tipicamente de Hip Hop – 808, 909, modelos comumente usados naquela época para construção de batidas -, mas também fez a produção, algo que Geoff seguiu fazendo até hoje em outros projetos como BEAK>, por exemplo. A escolha de samples é ampla ,como Ike’s Rap II de Isaac Hayes no clássico single Glory Box. A maravilhosa faixa é fruto de uma melodia marcante feita por Beth, mostrando uma voz rasgada de cabaré que surge somente neste momento mas também pela sua introdução psicodélica e sonhadora que persegue a faixa por completo. Como não viajar quando ambas construções coincidem no marcante refrão: “Just give me a reason to love you /Give me a reason to be a woman /I just want to be a woman”, uma canção que sintetiza perfeitamente o disco. Biscuit é outra música que não seria nada sem os cortes feitos no sample de I’ll Never Fall In Love Again de Johnnie Ray – sua aura misteriosa, no entanto, também depende do processamento eletrônico feito pela dupla e principalmente pelo piano de Adrian, fundamental aqui.

Mudanças do timbre de voz com scratches no CDJ de Biscuit colocavam o som em qualquer pista de Hip Hop. Aliás, o processamento de voz é um dos grandes trunfos na produção musical em qualquer estilo atual. No entanto, o grande momento de Dummy parte de uma faixa que não se tornou single, mas fica marcada em qualquer pessoa – seja a sua primeira ou centésima audição. Roads foge dos samples e procura ser construída com o feeling do trio – a batida simples na bateria eletrônica e os arranjos de piano e cordas fazem desta a grande orquestração de toda obra, daquelas músicas que servem para qualquer momento emocionante de um filme ou da sua vida. Beth tem provavelmente a sua interpretação mais sentimental: “Ohh, can’t anybody see /We’ve got a war to fight /Never found our way /Regardless of what they say”, diz a cantora sempre de forma frágil. Como ninguém enxerga o que ela está presenciando? Chora enquanto sente a nauséa que muitas vezes conduz o álbum – “How can it feel, this wrong” – para criar provavelmente um dos hinos dos anos 1990 que faz sentido até hoje.

Dificilmente o primeiro contato com Portishead será em vão, principalmente quando feito através de Dummy, pois, enquanto as obras seguintes do trio -Portishead de 1997 e Third de 2008 – são mais experimentais, principalmente o seu terceiro disco, a estreia é plena, simbiótica quando mistura sons orgânicos e sintéticos, mas, acima de tudo, assimilável em cada acorde, construção ou emoção na voz de Beth. Se um aniversário é muitas vezes o motivo para retomar um contato ou criar um vínculo novo, nada mais justo que celebrar a viagem de sim, um dos melhores discos de todos tempos – daqueles que merecem figurar na cabeceira da sua vitrola e te acompanhar pelo resto da vida.

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ARTISTA: Portishead
MARCADORES: Aniversário

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.