Pra iluminar os rolês, os ouvidos e o coração: Zé Manoel

O pernambucano fala sobre Jazz, Beatriz Nascimento, ancestralidade e identidade, estar em estúdio com Maria Bethânia e, claro, o arrebatador “Do Meu Coração Nu”, um dos melhores discos do ano

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Fotos: Máquina 3

Talvez seja melhor começar pelo final. É difícil resumir o que faz de Do Meu Coração Nu (2020), quarto trabalho autoral de Zé Manoel, um dos melhores lançamentos de 2020. As propostas musical, conceitual e narrativa sólidas, amarradas em uma sensibilidade, que nunca deixa de ser contundente – poderíamos começar por aí. Mas o piano percussivo e inquieto em meio a versos cantados com vigor e doçura, trazendo a saudade de pisar em um terreiro tornaram “Adupé Obaluaê” minha música predileta. Última do disco, a faixa apresenta uma atmosfera de triunfo, orgulho e resiliência sempre presente (e apagada) em narrativas negras do Brasil, tema sobre o qual a obra se debruça como um todo. E como Zé Manoel se mostra um artista tão singular nesse trabalho, talvez para apresentá-lo seja melhor começar pelo final, por “Adupé Obaluaê”.

Em conversa com o Monkeybuzz, o pianista, cantor e compositor de 39 anos conta que a composição de agradecimento e reverência a Obaluaê, orixá das doenças, começou timidamente no ano passado e se concretizou no caótico 2020. “O disco finaliza com ela porque é uma evocação de cura para as feridas em que a gente mexe durante o álbum, a ideia é ter no final um azeite de dendê para passar nessa ferida, amenizar um pouquinho a dor”, arremata Zé. “Eu sabia que esse disco ia mexer em pessoas que se parecem com a gente, por mais que ele também dialogue com pessoas brancas, é um disco feito para os nossos irmãos negros e indígenas. Então, eu sabia que iria impactar a gente de forma diferente e eu não queria que o disco fizesse isso de uma forma dolorosa e irresponsável, de mexer em uma ferida tão profunda e só acabar, entende?”.

Zé Manoel é de Petrolina, cidade pernambucana situada na divisa com a Bahia, onde cresceu ouvindo Olodum e Timbalada. Recentemente, seus fones de ouvido andam monotemáticos, sob comando da música preta estadunidense da década de 1970, mas Zé ama um bom pagode baiano, Harmonia do Samba e Edson Gomes, além do Brega Funk de Recife, onde morou por alguns anos. Seu novo disco transita entre Pop e Jazz, com um piano que consegue ser quebradeira e sutil, clássico e moderno – a serviço da mensagem de cada faixa. Para ele, o Jazz é mais um tempero do que uma linguagem primária e funciona como um complemento. Ernesto Nazareth, Nina Simone e Amaro Freitas são artistas nos quais ele identifica esse mesmo movimento que faz em sua sonoridade: se apropriar do Jazz dentro de outros códigos musicais. Um exercício de tornar os sons menos engessados.

E, no entanto, é na solidez clássica que Zé Manoel começou a edificar seu modo de criar.

Há alguns anos, existia um programa na Globo de música clássica, com orquestras e apresentações de balé. Uma composição fisgou Zé: “Marcha Turca”, de Mozart. O fascínio foi tão intenso que ele deixou de espiar as aulas de violão de suas irmãs e pediu aos pais para estudar piano. Zé tinha 10 anos de idade. “Aliás, foi muito bom eu ter tido vontade de aprender essa música específica, porque quando eu cheguei na escola, a professora queria me colocar para tocar teclado, mas por conta dessa música eu quis aprender piano”, conta. “Passei o ano inteiro estudando para pegar essa música com as partituras facilitadas e aprendi”.

Aos 18, Zé passou a substituir sua professora no piano bar em que ela tocava aos finais de semana. Rapidamente começou a interagir com outras bandas e participar da cena local e, assim, a sua percepção de mundo começou a trincar. “Na quinta, eu tocava sanfona com um trio de Forró; na sexta, com uma banda Pop na boate; sábado, de novo com banda Pop em outro lugar; e domingo, fazia piano bar”, relembra a agenda agitada. ”Era uma transição de estilos muito rápida, mas quando você é mais jovem e está descobrindo as coisas — não estava só descobrindo como tocar em bandas, mas também a noite em si —, tudo é uma grande festa. Para mim, que sempre fui preterido a vida inteira, tocar nas boates e perceber que as mulheres queriam ficar comigo era incrível. Foi muito importante como período de descobertas musicalmente falando, porque tive acesso a muito repertório de variados estilos, mas também enquanto uma fase de descobertas pessoais minhas, quase uma adolescência tardia”.

É muito louco esse momento quando tem vinte e poucos anos e, do nada, você percebe que é muito bonito, né?

Nessa época, não era nem que eu estava descobrindo que era bonito. Eu estava descobrindo que poderia ficar com alguém, não era sobre me ver como uma pessoa interessante ainda. Esse processo para mim foi bem aos pouquinhos. Porque, por exemplo, quando vim para Recife, usava um black power muito grande; em Petrolina, eu já era muito atacado por conta do meu cabelo, mas de uma forma meio jocosa, quando eu cheguei em Recife se tornou uma coisa bem mais direcionada. Comecei a ter que lidar com gritos nas ruas, como “vai cortar seu cabelo” ou “ninho do pombo”. Foi difícil construir uma autoestima com esses ataques violentos acontecendo semanalmente. Por incrível que pareça, eu só comecei a ficar mais em paz com isso quando eu me mudei para São Paulo — e poderia ter sido, sei lá, Salvador, por exemplo — porque é um lugar onde as pessoas estão mais acostumadas a ver pessoas negras usando seus cabelos naturais e acho que elas estão menos preocupadas com a vida dos outros. Ainda que também seja uma cidade extremamente racista e preconceituosa, só que o racismo se manifesta de formas diferentes. Bom, a gente vai se adaptando de cidade em cidade a como o racismo se manifesta. Em São Paulo, vejo o racismo de uma forma mais cordial, nesse lugar de exotismo, então é cordial, mas ao mesmo tempo é como quem diz: eu não quero muito você aqui.

Me fala uma coisa que fazer esse disco te ensinou.

Eu aprendi a confiar mais em mim. Confiar nas ideias que eu que tenho, confiar que eu posso transpor aquelas viagens que estão na minha cabeça para o que eu tô fazendo. Acho que essa insegurança vem desde sempre, então o conselho que eu daria para o Zé Manoel mais novo seria confie mais. Tem coisas legais acontecendo na sua cabeça, não desmereça seus planos porque as pessoas em algum momento não acreditaram no seu potencial ou disseram que você não é legal e que tudo que vem de você deve ser objeto de dúvida. O grande ensinamento desse processo de disco foi que eu banquei todas as ideias que eu tive. Até mesmo a ordem das músicas, sabe? Eu queria que fosse nessa ordem porque ela conta uma história, mas em vários momentos eu quase desisti porque musicalmente ela poderia não funcionar. Banquei que em primeiro lugar eu queria contar a história e funcionou.

Apesar dos ataques racistas incessantes nas ruas de Recife, Zé não cortou seu cabelo. Inclusive, na capa do seu primeiro disco, o autointitulado de 2012, há um retrato do artista usando black power. Sutilmente, essa lição concretizada em Do Meu Coração Nu já rondava o compositor. Sua visão atual, cheia de nitidez, oito anos depois do disco de estreia, parece ser resultado de um processo profundo de reflexão sobre o que é a identidade negra no Brasil, a extensão do racismo e suas consequências, práticas e emocionais.

“É muito doida essa coisa de se descobrir negro: não tem idade e está acontecendo toda hora com alguém”, diz depois de pontuar quão nociva é a representação do negro brasileiro na mídia televisiva. “Porque foi feita uma lavagem cerebral mesmo, que vem dessa construção infelizmente bem-sucedida, dessa engenharia que é o racismo, o qual opera em várias áreas, de formas diferentes, para chegar ao resultado em comum: pessoas negras fugindo da ideia de ser preto”.

No disco, há a proposta de referenciar a história negra – em passado, presente e futuro. Ao passado, Zé lança os imperativos, como “Escuta Beatriz Nascimento”. Ao presente, além dele próprio na voz, nas linhas e no piano, Zé convoca, para falar de amor, Luedji Luna, um dos nomes mais potentes e talentosos da música brasileira contemporânea. Também se junta ao maestro Letieres Leite, que contribuiu na produção do disco e é destaque na faixa “Escuta Letieres Leite”, em que o músico soteropolitano lembra e sacramenta: “Toda música brasileira é afro-brasileira”. Ao futuro, ele convida Bell Puã, poetisa pernambucana vencedora do Slam das Minas, que recita em tom que passeia entre oração e áudio de WhatsApp, abrindo espaço para a encantadora faixa “Pra Iluminar o Rolê”.

A mãe de Zé ouve o álbum todos os dias. Sabe que “No Rio das Lembranças” é sobre ela sem que o filho tenha precisado confirmar, afinal, o caminho para que ele encontre sua ancestralidade passa pela ancestralidade dela. Um quê curioso sobre processos identitários é que eles são extremamente subjetivos e, consequentemente, é mais fácil sentir do que explicar.

“O grande ensinamento desse disco foi: eu banquei todas as ideias que tive. Até a ordem. Queria que fosse nessa ordem, porque conta uma história. Em primeiro lugar, queria contar a história e funcionou”

Conversei bastante sobre “Pra Iluminar o Rolê” com meu editor. A gente chapou muito porque é uma vivência comum a todo mundo que tem uma pessoa negra no círculo próximo de afeto — todo mundo já passou por esse momento desesperador de, no meio da madrugada, ficar preocupado que essa pessoa que você ama seja vítima de violência, de um crime de ódio…E eu acho lindo como você coloca isso de uma forma densa, mas que não é arrasadora, melancólica. Esse exercício de rezar, torcer e desapegar também porque esquecer de mandar mensagem faz parte.

É uma constante, né? Assim: ou você aprende a lidar com esse sentimento ou você enlouquece. Quando você vive em cidades racistas e violentas como as grandes cidades, como São Paulo, é um sentimento diário de quem tem um amor ou um familiar. Ter alguém aqui que está nesses rolês diários é um constante lidar com isso e entregar a deus. E aí a poesia de Bell [no “Prelúdio Pra Iluminar o Rolê”] é muito perfeita, porque ela capturou exatamente a essência disso e transformou em uma mensagem do WhatsApp absolutamente linda — entra no disco como uma mensagem para quem está ouvindo: que as deusas te guardem.

E os imperativos, Zé? Escuta Beatriz Nascimento!

A Beatriz é maravilhosa! Não sei se chegou a ver o documentário que ela roteirizou, Ori (1989) — eu vou mandar. Eu fiquei procurando e não achei em lugar nenhum, mas uma amiga minha, Hanayrá Negreiros fez uma matéria linda para a ELLE sobre Beatriz Nascimento com ilustrações de uma menina preta do Maranhão, Silvana Mendes. Eu mandei uma mensagem parabenizando porque adorei a matéria e comentei que estava louco para ver o documentário, posso te mandar essa matéria também! E aí, a Beatriz é sergipana como a minha mãe, então, além de ser uma pensadora negra fundamental, ela é uma costura. Onde eu estou costurando coisas diretas, como escuta Beatriz Nascimento, com coisas indiretas, como a raiz dela ser a mesma da minha mãe. Por conta da música, eu conheci a filha de Beatriz Nascimento, que é bailarina em Nova Iorque. A gente conversou muito para saber quais eram as cidades de cada família lá no Sergipe, para ver se em algum momento elas se encontravam — é muito doido como a música no geral evoca esses desdobramentos.

Como rolou esse contato com a filha da Beatriz?

Na verdade, eu tinha que ter uma autorização para usar a voz de Beatriz Nascimento, então eu consegui o contato dela por uma questão burocrática. Mandei um e-mail mostrando a faixa — ah, “espero que você goste, essa faixa é em homenagem a sua mãe porque ela foi muito importante e as pessoas precisam conhecê-la, mas eu preciso de uma autorização de alguém da família porque, se em algum momento por questões de direitos autorais quiserem impedir a gente, temos esse documento com a liberação de um famíliar’. Quando ela me respondeu, falou: “Zé, eu comecei a ouvir a música e meus pés já começaram a rodopiar, minhas mãos já começaram a se movimentar”. Eu dei a ideia dela fazer o videoclipe, vídeo dança, e ela disse que vai fazer! Desdobramentos muito loucos… Ela falou uma coisa que achei muito linda: “Zé, nossos ancestrais trabalham para que a gente se encontre”. E é verdade. A partir do momento em que eu comecei a fazer esse disco, a partir do momento que eu comecei a revirar tudo isso, eu fiz muitas conexões, as coisas foram se encaixando. Eu acredito que nossos ancestrais estão sim trabalhando para a gente se encontrar, porque a gente é parte dessa história — e podemos fazer algo que eles foram impedidos de fazer.

“É muito doida essa coisa de se descobrir negro: não tem idade e está acontecendo toda hora com alguém. Foi feita uma lavagem cerebral mesmo, que vem dessa construção infelizmente bem-sucedida, dessa engenharia que é o racismo, o qual opera em várias áreas, de formas diferentes, para chegar ao resultado em comum: pessoas negras fugindo da ideia de ser preto”

Dos 21 aos 26 anos, Zé também deu aulas de música. Passou por um colégio de freiras em que ensinava musicalização infantil, mas o contato individual com cada estudante — o que teve como professor particular de piano — foi o mais gratificante desses cinco anos. Quando lembra dessa fase, ele fala mais sobre características e processos emocionais de seus alunos do que da afinidade deles com o instrumento. Uma senhora bem idosa que esquecia as partituras toda aula e tinha medo de que ele ficasse ofendido ou – talvez a pessoa que mais tenha marcado o professor Zé Manoel – o senhor que estava perdendo a visão e queria aprender a tocar piano antes que isso acontecesse. “Ele já estava com a visão bem comprometida, mas conseguia ler a partitura olhando bem pertinho e ver as teclas olhando bem perto também. Assim, participar desse processo me dava muita alegria, porque era muito importante para ele aprender a tocar e, consequentemente, para mim também era importante estar junto com ele nesse processo”, relembra.

Fora os discos autorais, Zé colabora com outros artistas. Esse ano foi convidado para tocar no novo disco de Maria Bethânia, ainda não lançado. A gravação durou um mês no Rio de Janeiro e os dois artistas viam-se quase diariamente. Durante as sessões, o pianista “olhava para o lado, via ela cantando e custava acreditar que estava acontecendo”.

É estranho quando você traz coisas extraordinárias para o seu ordinário, né?

Exatamente! Eu tenho tentado falar sobre isso na terapia: aprendi com o tempo a não reagir a essas coisas incríveis que acontecem na minha vida, a tratar tudo com muita naturalidade. Depois que eu descobri que na verdade era um pouco de medo de me entregar para esses acontecimentos que para mim são muito grandes. Quem imaginaria que aquele cara que estava lá em Petrolina, por exemplo, e descobriu Virgínia Rodrigues tocando nas boates com banda de Forró iria gravar com Virgínia? Sabe? Enfim, tem alguns acontecimentos na minha linha de tempo que são muito grandes para mim e que eu sempre me retraio um pouco, como se estivesse acontecendo, mas ainda assim não fosse tão real. Foi muito bom eu ter tido consciência disso antes de gravar com Betânia porque eu tive esse sentimento inteiro, esse deslumbramento. Essas defesas vem um pouco da construção da gente, talvez até por essas violências que a gente vai passando, desde o bullying, que faz você começar a se fechar em um lugar protegido de tudo e de todos, o que bloqueia coisas boas e ruins, né? Às vezes você se protege até das coisas boas. Foi legal que eu consegui quebrar esse esse lugar e viver a gravação com a Bethânia — mas precisou da Bethânia.

Zé, qual é a coisa mais importante da vida?

Dentre outras coisas, acho que é você estar sempre conectado com pessoas, construir uma rede de cuidados que vai fazer você se sentir pronto para passar por qualquer coisa. Ter esse suporte e ao mesmo tempo dar suporte para as pessoas é muito importante — partindo da família e, se você não tiver isso com a sua família, construa com seus amigos. Essa é a coisa mais importante porque nessa jornada em que a gente está, na qual a gente precisa o tempo todo lidar com todo tipo de violência, de obstáculos. Se você tem um bom suporte, eu acho que a probabilidade de você conseguir ir mais à frente é maior. E, assim, ninguém faz nada sozinho.

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ARTISTA: Zé Manoel