Pra tocar na roda: “Partido em 5”, um disco que transformou o samba

Sob comando de Candeia, clássico lançado há 45 anos reuniu time estrelado de partideiros em busca de um samba “puro”, com todos ruídos, liberdades e imperfeições encantadoras de uma boa roda

 605 total views

Fotos: Agência O Globo

Nos anos 1970, o samba passava por uma movimentação que incomodava Antônio Candeia Filho. O exagerado processo de comercialização do gênero começava a atingir as escolas de samba do Rio de Janeiro e, na visão do cantor e compositor, alterar o modo de se fazer samba. Nos desfiles, o ritmo dos sambas-enredos ficava cada vez mais ligeiro, a figura do carnavalesco passava a ser ocupada por artistas com formação superior e famosos começavam a ganhar destaque no lugar dos passistas das escolas. É a chegada dessas “pessoas estranhas” que tira a paz do sambista portelense e o motiva a tomar frente de um projeto transformador para o gênero.

O lançamento do primeiro volume de Partido em 5 se dá em 1975, mesmo ano em que Alcione eternizava a canção-apelo “Não Deixe o Samba Morrer”, dos compositores Edson Conceição e Aloísio Silva. Candeia puxa o projeto na companhia de um timaço de sambistas e partideiros: Casquinha, Joãozinho da Pecadora, Wilson Moreira, Anézio do Cavaco e Velha da Portela.

Partido em 5 é um dos discos fundamentais do samba, uma obra transformadora para o ritmo. Ele é de um momento do samba bem peculiar e específico. Em um ambiente que a música começa a ficar tão comercial, que as rádios começam a ditar a duração das faixas e isso se torna um padrão, Candeia faz um disco que não tem separação, é uma faixa de cada lado, com todo mundo tocando junto. Isso é muito revolucionário!”, observa a cantora Teresa Cristina.

“Uma roda de samba, um samba negro, um samba que brota lá do fundo do coração”. Abre-se assim, em tom de conversa, o primeiro volume de Partido em 5, lançado pelo extinto Selo Tapecar, com 11 faixas – se é que podemos dividi-las assim. Como destaca Teresa, ouvir o disco é presenciar a atmosfera de uma roda de samba, com ruídos, conversas e cantos despojados, despreocupados. Como uma conversa, em que cada integrante passa a palavra para o outro – a pura definição do partido-alto.

“O partido-alto é um estilo marcado pelos versos improvisados. Quem leva o partido-alto para o disco é Martinho da Vila, mas quando vai para a gravação acaba se perdendo essa espontaneidade. O Partido em 5 traz essa autenticidade. A intenção era reproduzir o que era feito nos terreiros, nos fundos de quintal e nas rodas de samba. Não havia divisão de canal, limpeza de som, o que foi gravado entrou para o disco”, conta João Baptista Vargens, autor do livro Candeia – Luz da Inspiração. “O disco se tornou tão popular que as pessoas cantavam as músicas em sequência, como se fosse uma faixa só”.

Para o biógrafo, o sucesso do disco se confirma em uma história. No dia do enterro do jornalista Juarez Barroso, em 1976, Vargens e Casquinha saíram para comer um sanduíche perto do cemitério São João Baptista, no Rio de Janeiro, quando o sambista foi reconhecido por um grupo. Não deu outra e eles começaram a tocar o Partido em 5 de ponta a ponta.

“A intenção era reproduzir o que era feito nos terreiros, nos fundos de quintal e nas rodas de samba. Não havia divisão de canal, limpeza de som. O que foi gravado entrou para o disco, que se tornou tão popular que as pessoas cantavam as músicas em sequência, como se fosse uma faixa só”

A criação da G.R.A.N.E.S. Quilombo, um evento completo

Em dezembro de 1975, Candeia fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, mais um projeto de afirmação do Samba como ritmo legítimo de uma comunidade e afirmação das raízes afro-brasileiras.

Para Candeia, a Quilombo nasceria como um “um teto para todos os sambistas”. Sem filiação com nenhuma liga carnavalesca, a escola não participaria de nenhum desfile competitivo, como mais uma forma de protesto ao Carnaval comercial que tanto o incomodava. É clara a ideia do portelense de que a escola de samba é um lugar de criação de identidade, de manutenção do cotidiano das pessoas da comunidade.

Para Candeia, a Quilombo nasceria como um “um teto para todos os sambistas”

De acordo com o músico e pesquisador Igor de Bruyn Ferraz, o lançamento de Partido em 5 e a fundação da G.R.A.N.E.S. QUILOMBO constituem um evento completo, que traduz de maneira enérgica o imaginário artístico e político do sambista na época.

Partido em 5 é tema da dissertação de mestrado de Ferraz, “’Um Samba Sem Poluição’: o partido-alto de Candeia em Partido em 5 Volumes I e II”, pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Seu objeto é compreender como essas obras apontam para um sentido de contestação político-cultural sobre interpretações modernistas e nacionalistas do gênero, em detrimento das raízes negras e populares.

“O formato do Partido em 5 acaba valorizando a forma de tocar o samba no Rio de Janeiro, um aspecto mais comunitário de se fazer. É o samba que não existe apenas na boca de um autor. O samba tem poder de unir e trazer força e identidade para as pessoas. Não é só um disco, uma sequência de canções, trata-se de um projeto antirracista de Candeia”, completa Ferraz.

A história do Partido em 5 não acaba por aí. Nos anos seguintes, saíram novos volumes, com Candeia ainda à frente da segunda edição. Após a morte do sambista, em 1978, houve o lançamento do Partido em 6.

 606 total views

ARTISTA: Candeia
MARCADORES: Partido em 5, Samba