Prefab Sprout e sua Magia Secreta

Em atividade há 35 anos, banda britânica é um pequeno segredo da música Pop; Venha redescobri-lo

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Quem conhece Prefab Sprout gosta de Prefab Sprout. São nove discos lançados entre 1984 e 2013, demonstrando o quanto de economia e precisão existe na concepção de um novo trabalho por parte de Paddy McAloon e seus amigos. Sua música começou como integrante da leva de bandas do Pós-Punk inglês dos anos 80, em sua variação mais leve e melódica. Era similar em termos de suavidade ao que novas formações como Aztec Camera, Go Betweens ou Everything But The Girl faziam, mas é possível detectar uma preocupação estética com a melodia, arranjos e letras que remonta a perfeccionistas como Steely Dan ou mesmo Paul McCartney.

O responsável por essa distinção do Prefab em relação às bandas contemporâneas é Patrick Joseph McAloon, nascido em Durham, nordeste da Inglaterra, em 07 de junho de 1957. Como praticamente todo inglês, Paddy cresceu fascinado pelo imaginário dos Estados Unidos, absorvendo aquela vida ideal de Rock’n’Roll, carros, praia e mulheres bronzeadas como algo pelo qual valeria à pena tentar. Até os onze anos de idade, ele frequentou um colégio católico perto de sua cidade, no qual aprendeu a tocar violão, ensinado pelos padres. A partir daí, junto com seu irmão Martin, ele imaginou como seria sua vida à frente de uma banda de Rock.

Começou a compor e imaginar suas canções executadas por um grupo que tivesse um nome desconexo. Dessas pequenas viagens para dar nome ao conjunto que ainda não existia, Paddy cogitou Prefab Sprout, mas nunca imaginou que isso aconteceria. Com o tempo, veio a primeira banda do rapaz, Avalon, especializada em covers, mas que também tocava uma canção autoral da qual ele gostava muito, Walk On. O tal grupo não sobreviveu à mudança de cidade, tendo Paddy ido cursar ciências humanas na Universidade de Newcastle. Sua família mudou-se para uma cidade próxima e comprou um posto de gasolina, no qual os irmãos trabalharam. Em meio ao estouro do movimento Punk em pleno 1977, Paddy passava os dias alternando-se entre a faculdade e o posto e as noites no quarto, compondo suas letras e melodias. Pouco tempo depois, nascia, finalmente, Prefab Sprout. Inicialmente, a banda era um trio, com Paddy na guitarra e vocais, Martin no baixo e Michael Salmon na bateria. Nos cinco anos seguintes, pouco mudou na rotina do Prefab Sprout, ainda uma bandeca meio Punk, meio qualquer nota, fazendo shows em buracos locais.

Até que a dor do amor interrompido levou Paddy a compor Lion On My Own Garden, uma brincadeira com Limoges, uma cidade francesa, para a qual uma namorada especialmente querida foi estudar. Este foi o primeiro single da banda, gravado e prensado em mil cópias com economias dos integrantes, num processo amadorístico. Em meio a essa felicidade por conta do lançamento, uma frequentadora dos shows, Wendy Smith, entrou para a formação fixa do Prefab, fazendo backing vocals. Pouco depois, vieram outros dois singles, a velhusca Walk On e a novíssima The Devil Has All The Best Tunes, que entrou na programação das estações de rádio da região de Newcastle e na seleção de singles da cadeia de lojas HMV. A filial da cidade foi devidamente inundada pelos pequenos compactos e isso aproximou os rapazes do gerente, Keith Armstrong, que também possuía um clube, Soul Kitchen, no qual se apresentavam bandas como New Order e Aztec Camera. Ele também fundaria o Kitchenware, selo no qual o Prefab gravaria seu primeiro disco, Swoon, no ano seguinte. A primeira baixa na banda fez com que a gravação demorasse: Michael Salmon deixou a bateria vaga e os McAloons demoraram para encontrar um substituto. Enquanto isso, usaram um músico de estúdio, Graham Lantam, para dar conta das sessões. No fim do ano, o compacto de Walk On/Devil Has The Best Tunes foi relançado pela Kitchenware e as fitas chegaram até os ouvidos da poderosa Columbia Records, que assinou com a banda. Logo, Prefab Sprout estava excursionando com Elvis Costello, enquanto finalizava Swoon.

Em 1984, o disco foi lançado direto para o top 20, com o problema do baterista resolvido pela chegada de Neil Conti, tudo ao mesmo tempo. Enquanto divulgavam as canções do disco, sobretudo Don’t Sing, a banda mantinha-se criativa e gravando novas músicas. Desta época é o grande clássico da banda, When Love Breaks Down, cuja gravação foi enviada para Thomas Dolby, que se impressionou com o talento e a beleza da melodia. Dolby já havia comentado num programa de rádio sobre Don’t Sing. Ele entrou em contato com a banda e disse o quanto gostaria de trabalhar com eles. Dessa parceria nasceu o segundo disco da banda, Steve McQueen, mais uma homenagem de Paddy à América, dessa vez na figura do grande ator, protagonista de filmes como Bullit e Fugindo do Inferno. Na capa, os integrantes do grupo em cima de uma moto, davam prova de sua admiração. Outras canções absolutamente perfeitas vieram na esteira, como Apetitte, Bonny, Goodbye Lucille, Faron Young, entre outras, todas devidamente sintonizadas naquela visão de América ideal, aplicada às letras e situações narradas por Paddy, que já se sobressaía em meio a seus colegas contemporâneos. Num páreo entre ele, Morrissey e Lloyd Cole, Paddy era o mais original e menos depressivo.

Um pequeno contratempo atrapalhou o lançamento do disco nos Estados Unidos: a família de McQueen não concordou com o nome e a banda precisou rebatizar o álbum de Two Wheels Good, apenas na quantidade de cópias destinadas àquele país. Com isso resolvido, Prefab caiu na estrada e foi até o Japão, passando por Europa e EUA. Logo após o regresso para a Inglaterra, a banda ainda entrou em estúdio e gravou Protest Songs, um disco acústico que só seria lançado em 1989. Pouco depois, novamente em estúdio, o grupo gravaria um novo trabalho, com produção de Dolby, chamado From Langley Park To Memphis, aprofundando ainda mais o flerte com os USA. Tiveram a sorte de contar com a participação de ninguém menos que Stevie Wonder tocando harmônica em Nightingales, além do sucesso que faria Cars And Girls, lançada também como single. Com o lançamento em 1988, From Langley Park… fez bonito nas paradas de sucesso, mas não repetiu o desempenho de Steve McQueen, um indício forte de que Paddy evoluía para algo além de um compositor de Rock, preocupando-se com arranjos de cordas e melodias mais intrincadas. Após o lançamento de Prostest Songs, a banda gravaria novo disco, Jordan: The Comeback, um trabalho absolutamente diferente de tudo que existia na época. Era multifacetado, cheio de influências musicais inexperadas, indo da estranheza de Carnival 2000 e Machine Gun Ibiza, passando por faixas Pop perfeitas, como Looking For Atlantis, indo a baladas luxuriantes como We Let The Stars Go, chegando a acenos explícitos à tão querida América, como Jesse James Bolero, Doo Wop In Harlem e Jesse James Symphony. Por outro lado, as gravações do disco consumiram a banda e meio milhão de dólares.

Apesar de considerado clássico pelos fãs e pela crítica, chegando a ser indicado para o Brit Awars em 1990, Jordan não fez bonito nas paradas de sucesso, uma vez que nem era um disco concebido para esse tipo de apreciação. Com a reação estranha por parte da crítica especializada, Paddy iniciaria um período de reclusão, quebrado em 1992, quando a banda lançou A Life Of Surprises, uma coletânea de seus sucessos até então, com duas canções inéditas, The Sound Of Crying e If You Don’t Love Me, a coletânea abrandou os ânimos. Paddy tentara lançar um disco conceitual chamado Let’s Change The World With Music, totalmente anti-comercial, o que não foi adiante. Com a coletânea e as duas inéditas, Prefab disse “presente” naquele 1992, mas ficaria sem lançar material novo por cinco anos, quando lançaria Andromeda Heights.

Em pleno 1997, nada poderia ser mais diferente. Um disco com arranjos orquestrais, cheio de nuances, com zero proximidade com o Rock mais evidente nas paradas. Parecia que Paddy vivia num mundo à parte, suposição que não estava totalmente errada. Recluso e trabalhando continuamente como compositor, o líder do Prefab permanecia ativo, mas sua concepção musical estava em constante mutação. O desempenho de Prisoner Of The Past chegou ao top 30 inglês e não foi além, apesar da canção ser belíssima e emular uma grande quantidade de influências de Phil Spector. O melhor dessa época foi o casamento de Paddy com Victoria, com a qual teve duas filhas. A banda permanecia ativa, mesmo com Paddy vivenciando sérios problemas visuais na retina. Mesmo assim, Prefab excursionou em 2000 e lançou novo disco em 2001, Gunman And Other Stories, produzido por Tony Visconti. Àquela altura, Wendy Smith estava ausente da banda, por conta de gravidez, enquanto Martin McAloon também participava esporadicamente. Apenas Neil Conti permanecia.

Dois anos depois, em 2003, Paddy lançou seu primeiro disco solo: I Trawl The Megahertz. Basicamente instrumental, Paddy oferecia aos fãs uma oportunidade de vivenciar sua crescente deficiência visual, num álbum composto por paisagens musicais esparsas, entremeadas por trechos de telejornais, sugerindo uma associação de sons confusa e típica de quem está com sentidos aleijados. Mesmo com os problemas, o disco recolocou Paddy no ritmo habitual de trabalho, que incluía uma regravação de algumas canções de Steve McQueen em formato voz/violão, para a reedição de luxo do disco. Agora diagnosticado com problemas auditivos, Paddy McAloon teve dificuldades para finalizar as versões acústicas, mas o disco foi relançado em abril de 2007. Cerca de dois anos depois, em setembro de 2009, o projeto conceitual da banda, Let’s Change The World With Music, finalmente foi lançado, preenchendo uma lacuna entre os fãs. Neste ano, primeiramente em julho, houve rumores de um novo disco do Prefab Sprout.

Boatos davam conta que o álbum se chamaria The Devil Came A Calling, com dez canções trazendo apenas Paddy tocando vários instrumentos. De fato, em outubro, veio à luz Crimson/Red, com as mesmas músicas anunciadas anteriormente, da mesma forma, apenas com título e capa diferentes. É mais um milagre de McAloon, que não parece desistir da música, apesar de não enxergar bem ou ouvir satisfatoriamente. O resultado não deixa transparecer qualquer tipo de deficiência, fazendo com que canções do calibre de Billy ou The Best Jewel Thief In The World sejam comparações desleais com a combalida produção deste 2013.

Prefab Sprout é um pequeno segredo da música Pop. Descobrí-lo é algo que está ao seu alcance.

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ARTISTA: Prefab Sprout
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.