Primavera Fauna em Sete Atos

Festival chileno antecede alguns nomes que estarão por aqui nesta semana

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Há algumas semanas, viemos comentando como é possível viajar na América do Sul em busca de bons festivais a preços acessíveis e com experiências distintas, dando ênfase ao Primavera Fauna, evento chileno com um line up que agradaria qualquer leitor do Monkeybuzz. Estive em Santiago do Chile no último fim-de-semana para conferir se toda a promessa ao seu redor se confirmava e posso afirmar que presenciei um dos melhores momentos da música em 2014. Se você está ansioso pelos futuros concertos de Tame Impala, The Lumineers e Pond nesta semana no Brasil, ou simplesmente porque está doido para sair do país e conhecer esta terra cheia de montanhas, desertos e aridez, a nossa cobertura em sete atos é feita para você.

Um Festival Na Natureza

Para se chegar ao Espacio Broadway, local do evento, se deve pegar um ônibus dentro da cidade ou dirigir seu carro literalmente ao meio de um deserto tomado por cordilheiras ao seu redor. Enquanto tal paisagem pode ser comum ao povo local, a sua aridez combinada com espaços de convívio no clube em que se realiza o festival colocam o espectador em contato direto e contemplativo com a natureza o tempo todo. Seja nas tendas, redes e cabanas espalhadas pelo festival ou na sua piscina ao lado da tenda eletrônica, a intenção de seus realizadores é que o público possa curti-lo à sua maneira, como se estivesse em uma colônia de férias. Palcos próximos montados em um campo de futebol trocam o concreto de estacionamentos por grama, enquanto nas extremidades podíamos ver pessoas em quiosques jogando Ping Pong ou Pebolim.

O nome Primavera Fauna não foi escolhido a toa. Apesar da evidente inspiração no famoso festival de Barcelona (que nós também cobrimos), existe um lado muito chileno em sua escolha. A fauna e a flora caminham lado a lado em um país com uma clara consciência da natureza e de seus animais – dificilmente quando se anda pela capital Santiago, por exemplo, não se vê uma montanha ou um animal desconhecido no horizonte. Tal inserção combinada a uma cultura andina fazem do Chile um país em que inevitavelmente não se consegue fugir de sua própria natureza.

A Onda Psicodélica

Que lugar melhor para se curtir shows de música psicodélica que um deserto seco com a possibilidade de se olhar para montanhas atrás de seu artista favorito? Com Tame Impala como headliner e um começo liderado pelos brasileiros Boogarins, tivemos o grande exemplo de um estilo musical que está em evidência em todos os cantos da música independente atualmente. Os goianos abriram o festival mandando o seu sempre certeiro concerto e, apesar dos problemas técnicos por parte da organização de seu show (o baixo ficou mudo em alguns momentos e ficou embolado em outros pela bateria), foi muito elogiado por um público que mostrava conhecer ou pelo menos entender o seu som roqueiro viajante. Em um ano bastante internacional, a impressão que fica é que o show de As Plantas que Curam já está consolidado e consciente de seus limites de improvisação, somente à espera de seu segundo discom a ser lançado no ano que vem.

Pond, entretanto, mostrou um show muito mais enérgico e funkeado que o que vimos no Primavera Sound o que nos leva a pensar que se Tame Impala caminha a passos ao lado do Eletrônico, seus amigos “dissidentes” companheiros de banda serão a resposta roqueira dentro do movimento psicodélico. Passando por músicas de seus cinco discos com um Nick Allbrook bastante à vontade como frontman, tomando muitas vezes a interpretação de cada ato para si, temos certeza que os australianos chamarão muita atenção nos próximos dias pelo Brasil com seu concerto que mistura groove com peso na mesma medida, todos bem dosados em componentes lisérgicos.

Lado Eletrônico

A tenda eletrônica, meio escondida no meio de árvores típicas da região, parecia ser um lugar meio a parte dentro de um festival que privilegiava um line up bem pensado e sequencial. No entanto, mostrou um dos melhores atos que tivemos chance de ver. O músico sírio Omar Souleyman colocou todos para dançar ao seu som tipicamente árabe com toques frenéticos que agradariam os fãs de Melt Yourself Down enquanto o produtor britânico Floating Points escolheu o Soul e a música negra para conduzir o seu set. Sempre enchendo à medida que ia escurecendo, o espaço ainda recebeu o esperado set de Four Tet. Entretanto, ao disputar o mesmo horário do explosivo e expansivo concerto de 2manyDJs, acabou por ser prejudicado não só por um público menor, mas também pelo vazamento de som do outro palco. Antagônicos, ambos os shows foram bons à sua maneira – o primeiro muito mais íntimo, mínimo e autoral, perfeito para o descanço após uma maratona de 13 horas, enquanto o segundo era perfeito para o pessoal pular e se empolgar pela última vez ao som de mashups que passavam da House ao Trance e da Música Latina ao Pop em um set para manter todos acordados e em movimento.

Erlend Oye a parte de Kings of Convience

Em certo momento no meio do show ao lado de sua banda The Rainbows, Erlend Øye ouviu um pedido do público: “toca Kings of Convience”. Calmo e educado, o músico disse que muitas vezes, as pessoas o confudem como o cara da famosa banda, enquanto o papel de letrista e grande estrela é de Eirik Glambek Bøe e que a apresentação que todos apreciavam naquele momento era simplesmente ele fazendo as suas “próprias coisas”. Com um concerto que se baseou bastante em seu ótimo último lançamento, Legao, tivemos um dos melhores momentos de todo o festival com uma grande interação de todos com o grupo. Serviu para deixar claro que, apesar de seu conhecido timbre de voz, Erlend tem uma luz própria e outras inspirações, assim como outros projetos sensacionais, como The Whitest Boy Alive, que teve dois covers sendo tocados – 1517 e uma versão que valeu de Golden Cage – que valeram o festival inteiro. Começou com uma bossa nova feita na flauta, bem calma, para depois explodir em uma festa de mais de sete minutos. Certamente, é o tipo de show que agradaria muito os brasileiros.

Atrações Bem Pensadas

Começando às 13hs em uma época do ano em que se está totalmente escuro somente as 21hs, o festival teve o seu line up pensado cuidadosamente na experiência do público. Sequências de shows deixaram o Primavera Fauna incansável e coeso: Boogarins, Pond, Beach Fossils, Kakkmaddafakka, Real Estate, Erlend Øye, Yann Tiersen, Mogwai, The Lumineers e Tame Impala, além do encerramento Eletrônico, fizeram um festival que privelegiou todos os presentes que estavam em sua maioria para ver o headliner da noite. Com janelas de horário que não fizeram ninguém perder nem um minuto sequer de cada concerto e com palcos lado a lado, acabaram deixando todo mundo satisfeito e sem nenhuma pressa para correr para outras atrações. Vale lembrar que o espaço comportava cerca de 30 mil pessoas mas foi realizado para somente 8 mil pessoas por vontade de seus produtores deixarem tudo equilibrado – banheiros limpos e acessíveis, possibilidade de se chegar perto do palco sempre e nenhum empurra-empurra no deslocamento.

Melhores Momentos

Inegavelmente, Tame Impala fez um dos melhores shows do festival, mas, antes da sua grande apresentação, tivemos o Funk Psicodélico de Pond, além de um show sempre bonito e cativante de Real Estate – claramente um dos concertos mais esperados pelo público, que via pela primeira vez o grupo de New Jersey com suas letras na ponta da língua, algo que emocionou o seus músicos e que os mesmos justificaram ao vivo o porquê de Atlas ser um dos melhores discos do ano. Tivemos também os suecos Kakkamaddafakka mostrando o que é uma big band na música indepedente em uma efervescente apresentação que poderá ser vista no país nessa semana (backing vocals dançarinos, músicas leves e empolgantes e a melhor presença de palco marcaram o seu concerto). Mogwai voltou às suas origens, tocou bastante de seu último disco e trocou um palco cheio de efeitos visuais para se concentrar em uma performance na qual todos ficaram atônitos com a entrega, poder e virtuosismo dos dinossauros do Post-Rock. No entanto, o momento mais amoroso de todo o festival ficou com The Lumineers, que fez o que todos esperavam: Cantar as suas músicas junto ao público, enquanto cada membro transitava entre o mesmo tocando em palcos improvisados ali no meio dos espectadores, fazendo violão e voz, ou em cima da torre de luz tocando acordeão. Os norte-americanos pareciam haver aguardado por muito tempo para tocar Ho Hey aos chilenos, que não se cansaram em momento algum na sua apresentação. Vale ressaltar que a presença de diferentes instrumentos, como piano e violoncelo, todos colocados de forma horizontal e próximos ao espectadores, fizerem de sua performance a mais intimista de todo o evento como se tocassem seu Folk em um bar com um palco gigante.

Tame Impala Headliner

Se pelo Brasil os australianos estão voltando pela terceira vez consecutiva, os chilenos não os viam há cerca de dois anos. Por isso que foram colocados como headliners e foi nesse posicionamento que o público foi conquistado a cada imagem psicodélica no telão. Um show cheio como nenhum outro momento do Primavera Fauna, Tame Impala fez o melhor concerto de todo festival e justificou o seu nome frente ao evento. Posso dizer que já vi a banda ao vivo por três outras vezes e este pode ser considerado um momento de grande ruptura em toda as suas apresentações, pois, enquanto no começo de sua carreira o estilo era de “jam session” para tocar Innerspeaker e passou no ano passado a um espetáculo tocando quase inteiro para Lonerism, agora as coisas parecem mais bem consolidadas na cabeça de Kevin Parker: menos músicas tocadas, todas em um formato mais longo e descontruído, sempre com um interlúdio com elementos eletrônicos. Alguns momentos pareciam claramente inspirados em On The Run de Pink Floyd, enquanto Alter Ego teve uma introdução que parecia uma música inédita. Concentrado em seu primeiro disco, mas com espaço para o seu lado mais Pop, tivemos Solitude is Bliss, Why Won’t You Make Up Your Mind e Apocalypse Dreams dentre os seus melhores momentos, que deixaram todos paralisados e confusos com um telão interativo que oscilava de acordo com os acordes de Parker (semelhante como foi no Brasil) com muito mais poder com as montanhas ao redor e novos elementos que fizeram uma apresentação à parte na noite. Não deixe de perder os australianos nesta semana no que possivelmente será mais uma vez um dos melhores shows do ano, certamente em um momento de transição que possivelmente ficará no passado muito em breve.

Certamente a experiência do Primavera Fauna foi compensatória – um festival em que se privilegia a natureza na escolha de seu espaço de realização, além de promover uma experiência distinta e bem menos caótica. Mostrou que seu realizadores conseguem fazer tudo isso a um preço acessível (cerca de R$200) enquanto ainda conseguem oferecer transporte de graça em certos horários ao seu local de realização e bastante infraestrutura para seus espectadores. Unindo tudo isso a um line up verdadeiramente bem pensado e uma série de bandas que mantiveram o espirito de boas vibrações, instrumental conscistente, psicodelia e entretenimento, o evento mostrou-se uma ótima opção para quem quer sair do país para ouvir música e ainda ser bem tratado. Vale como aprendizado que não valem só as bandas se o resto da experiência não compensar, e que, em um país com natureza vasta igual ao Brasil, festivais com tal mentalidade são muito bem-vindos.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.