Primavera feminina

Depois do “The New Normal” do Primavera Sound, festivais no mundo todo começam a equilibrar os seus line-ups entre atrações femininas e masculinas

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Fotos: @sergioalbert_(Primavera Sound)/@carolinelima.co

Cuidado, se não há mulheres no palco do seu festival preferido, algo está errado. Com muito atraso, o circuito de eventos musicais finalmente começou uma busca por line-ups que levem em consideração a igualdade de gêneros. E, aparentemente, a ideia que começou no hemisfério norte, tem tudo para se espalhar pelo mundo todo uma vez que existe, sim, público interessado em escutar vozes femininas.

Quando olhamos para a venda de ingressos de quem já tomou essa iniciativa, nota-se que estratégia teve sucesso. O tradicional Primavera Sound, de Barcelona, atinge lotação na maioria de suas edições. Na de 2019 – depois de eles terem anunciado que passariam a trabalhar com um line-up 50/50 entre homens e mulheres –, a organização até decidiu realocar o evento para o Parc del Fòrum, de modo a aumentar a capacidade diária do festival. Conforme divulgado em release, o último dia de shows (1.6) teve o maior público da história do Primavera. Tudo isso para assistir as atrações que, em números oficiais, se dividiam em 50,77% mulheres, 41,92% homens, 6,53% grupos mistos e 0,76% que definem-se como não-binários.

Os bons resultados não param por aí. Para comemorar suas duas décadas de existência, o evento já anunciou a data das duas próximas edições europeias e mais: o Primavera desembarca em Los Angeles, nos Estados Unidos, em setembro de 2020. “Acho que diz muito sobre uma empresa [se ela se importa em buscar esse equilíbrio]. Isso significa que, provavelmente, eles têm valores fortes e uma visão que reforça positividade não apenas para as mulheres, mas para todo mundo”, explicou Marta Pallerès, responsável pela comunicação internacional do festival, em entrevista à Vogue britânica.

O melhor dessa história é que, ao que tudo indica, o plano do Primavera em transformar essa abordagem em norma para outros festivais (“The New Normal”, como diz o slogan da campanha deles) está funcionando. Mais de 150 outros eventos de música aderiram à Keychange, uma petição global de festivais que se comprometem em dividir suas atrações igualmente entre homens e mulheres até 2022.

Nos Estados Unidos, um dos primeiros representantes dessa nova onda é o Summer Stage – tradicional agito nova-iorquino com mais de 100 performances programadas (já organizadas nesse novo cenário mais igualitário e quase todas gratuitas) que acontece em 18 parques ao redor da cidade. Ou seja, a partir de junho, nomes como Alvvays, Japanese Breakfast, Ana Tijoux e Corinne Bailey Rae subirão nesses palcos. Ainda em Nova York, o Brasil Summer Fest também abraçou a causa. Entre os dias 21 de julho e 3 de agosto, a nova safra nacional aparece por lá – Duda Beat e Luedji Luna são algumas das confirmadas.

Se mudanças importantes como essas estão acontecendo é porque a cobrança vem de longa data. Basta lembrar da apresentação do trio Camp Cope no festival australiano Falls Festival. Para criticar a falta de mulheres no line-up (foram apenas 9), a vocalista Georgia Maq improvisou uma mudança de letra em uma de suas canções para dizer “É mais um homem dizendo que a gente não consegue lotar um show/ É mais uma merda de festival contratando só nove mulheres”.

 

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it’s another festival saying we can’t play a main stage… 🤷🏼‍♀️ video by @embelty

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A revolta, obviamente, não é exagero. Um estudo conduzido pela Pitchfork, no ano passado, debruçou-se sobre o line-up de 20 dos maiores festivais norte-americanos e o resultado foi, de fato, pavoroso, em termos de igualdade de gênero. 70% eram homens, 11% de grupos mistos e apenas 19% de artistas mulheres. O que, para além de uma injustiça, não representa o interesse do público pagante que frequenta esses eventos. Até as marcas de guitarra já estão percebendo essa guinada. Um outro estudo, capitaneado pela Fender, mostrou que 50% das pessoas que compram guitarras nos Estados Unidos e no Reino Unido são mulheres.

Terra brasilis

Não são apenas as nossas vizinhas internacionais que estão se movimentando. O festival recifense Coquetel Molotov chega a sua 16ª edição no dia 16 de novembro deste ano e seu compromisso com o equilíbrio de gênero segue cada vez mais arraigado. O evento assinou o Keychange e foi além: 80% das pessoas que trabalham para levantar o evento são mulheres. Isso é resultado de um esforço que vem sendo feito há anos por Ana Garcia – realizadora experiente da cena musical e principal cabeça do Coquetel. Em conferências, ela explica o momento cultural em que se insere a sua programação.

“Vivemos isso [maioria masculina nos palcos e na produção] por muitos anos, até demais. Precisamos da conscientização dos organizadores para entender que mulheres também fazem música boa, ainda que os homens dominem o mercado por hora. Acho que está rolando uma mudança significativa, mas ainda existem festivais com disparidades enormes. Ainda ouço produtores dizendo que ‘a nossa preocupação é exclusivamente com música boa’, como justificativa para falta de igualdade. Fora isso, essas questões também tem que transcender o palco, ir para o backstage. Isso sem falar na representatividade das mulheres negras e nas oportunidades de trabalho para pessoas trans.”

Em Goiânia, o tradicional Bananada completa 21 edições com uma semana densa de programação. Entre 12 e 18 de agosto, o público – majoritariamente feminino – aproveitará 90 bandas dos mais diferentes gêneros musicais, como Pitty, Tulipa Ruiz e João Donato, Teto Preto, entre muitos outros. A busca por representatividade e identificação do público marca presença o evento ano após ano. Não à toa, a produção do evento também conta com equipe 70% feminina. Já em São Paulo, a próxima edição do Popload Fest, no dia 15 de novembro, terá a presença de ninguém menos do que a lendária Patti Smith. Pelo o que pudemos sentir pela revelação parcial da escalação, o evento deve seguir com sua tradição de manter seu line-up equilibrado – Luedji Luna, Little Simz e Khruangbin estão confirmadas. Lembrando que, no ano passado, Lorde e Blondie estavam entre as atrações.

“Se a cada dez entrevistas, nove te perguntam sobre ‘como é ser mulher na música’, vocês não parecem estar, de verdade, querendo saber a nossa resposta, mas sim, colocando a gente no ‘nosso lugar’”, desabafou Luiza Lian em um tweet no começo deste ano. Destaque da cena nacional, ela é a vencedora do prêmio APCA na categoria Melhor Álbum de 2018 com seu Azul Moderno. A esperança é de que essa mudança de mentalidade por parte dos curadores dos eventos respingue por toda a cena musical. Ser mulher na música é estar o tempo todo tendo que se afirmar enquanto mulher na música. St Vincent, por exemplo, se recusa a responder essa pergunta em suas entrevistas com jornalistas. Que tal pensarmos em igualdade de gênero em todos os âmbitos do mercado musical? No fim das contas, essa disparidade nos line-ups só acontece porque existe uma crença velada de que a música feita por mulheres não é tão valiosa quanto a feita por homens. E é aí que está a raiz do problema.

A cada ano, surgem novos festivais e iniciativas que buscam representatividade e lutam por um novo momento da música alternativa. Que esse novo momento seja mais plural, mais diverso, com outros sotaques. Existem, sim, mulheres na música, mas, assim como em todas as indústrias, quem tem poder de decisão são homens. E eles, infelizmente, muitas vezes, estão mais preocupados em criar oportunidades para outros rapazes do que em agradar o seu público que, na verdade, quer se ver representado naquelas pessoas. O lembrete é: “It is not a man’s world anymore”, fiquem atentos.

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