Primavera Sound 2016: Música em Foco em Barcelona

Um dos mais importantes festivais apresentou as transformações que aconteceram no Rock nas últimas décadas

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Quem acompanhou nossa cobertura do festival Coachella, na Califórnia, há alguns meses, deve se lembrar que citei o Primavera Sound como uma melhor opção de viagem caso sua prioridade seja a boa música. A julgar pela edição deste ano do festival catalão, tal recomendação não poderia ser mais certeira.

O festival ocorre como um todo ao longo de cinco dias, mas com foco em três deles, onde a maior parte dos shows acontecem no Parc del Fórum, uma belíssima área à beira-mar em Barcelona. Diversos eventos paralelos e shows menores ocorrem em outros dias e horários ao longo da semana, mas, durante quinta, sexta e sábado, por volta das 18h – vale ressaltar que a cidade não escurece antes das 21:30 – o que se conhece como festival de fato, ou seja, muitas bandas concentradas em um único lugar em diferentes palcos, acontece.

Tivemos diversas discussões no Monkeybuzz ao longo do ano sobre a inovação que o R&B, o Hip Hop e a Eletrônica estão trazendo ao Pop e questionávamos sempre se o Rock permitia uma evolução parecida. Não sei se tal reflexão chegou a passar pela cabeça dos organizadores do Primavera, mas o lineup deste ano foi um banquete de todas as possibilidades que o Rock apresenta como estilo ao longo de diferentes épocas, origens e influências.

Isso já fica muito claro ao analisarmos os headliners, com Radiohead, uma das bandas que mais inovou no Rock nas últimas décadas e que nos mostrou as mais diversas possibilidades do estilo ao longo de sua discografia, LCD Soundsystem, que nos fez questionar ainda mais os limites entre o Rock e a Eletrônica, e PJ Harvey, representando as mulheres dentro do gênero como uma das mais influentes compositoras dos últimos 20 anos. Inclua neste bolo também Brian Wilson tocando Beach Boys, Tame Impala, Beirut, Sigur Rós, Deerhunter, Air e Dinosaur Jr., entre outros, sem chegar nos nomes menores, e teremos praticamente um guia, uma enciclopédia do Rock nas últimas décadas – e claro, algumas destas bandas citadas não são consideradas Rock por alguns, o que apenas comprova o quanto estão puxando limites.

Percebe-se claramente também a ausência do hype puro na escalação dos artistas. Dificilmente encontra-se algum artista que tenha lançado um único disco recente muito comentado e que tenha ganhado um espaço de destaque no line up. Isso acaba também atraindo um público aparentemente mais focado na música. Diferentemente do Coachella, em que vi shows como Courtney Barnett, Sufjan Stevens e Grimes com pouquíssimas pessoas, em Barcelona, Destroyer, Floating Points e Vince Staples por exemplo conquistaram facilmente plateias maiores e mais ativas que as bandas do festival americano.

Dentre os grandes festivais de formato mais tradicional que fui até hoje, o Primavera Sound parece o mais convidativo a conhecer novas bandas. Por começar às 18h e terminar por volta das 4h da manhã, há um espaço bom para assistir muita coisa antes e depois dos 3 ou 4 “headliners” do dia, que ficam espaçados entre as 21h e 1h. Portanto uma das melhores estratégias é andar pelo espaço e se surpreender ao chegar e antes de ir embora, guardando o horário nobre da noite para os grandes nomes.

Meus destaques desta edição, pulando os irretocáveis e inesquecíveis headliners LCD Soundsystem, Radiohead e PJ Harvey, ficam para Floating Points, que me surpreendeu com uma apresentação dançante e viajada, que me contagiou como há muito tempo não acontecia, me fazendo levantar de onde estava sentado para ver tudo mais de perto e cogitar me atrasar para Tame Impala – decisão essa que provavelmente geraria um grande arrependimento, já que o show dos australianos me pareceu ainda mais épico que o do Lollapalooza Brasil deste ano, com as versões ao vivo do disco novo mais maduras e a banda mais empolgada. O duo Air, acompanhado de mais integrantes, fez um dos shows mais bonitos e delicados que já vi em um festival de grande porte e Parquet Courts incendiou como já é de costume, mas agora parecendo menos uma banda de jovens inconsequentes. Beirut, Beach House, Savages e Pusha T também fizeram shows impecáveis, só não ganham tanto meu destaque por não terem feito além do que esperava deles.

É impressionante também a estrutura da cidade catalã para receber esta grande quantidade de turistas. A cidade toda se movimenta bastante em torno do festival nesta semana, com transporte bem planejado (com exceção da greve de ônibus e metrô que neste ano atrapalhou bastante, mas que foi um problema pontual) e muitos eventos culturais paralelos acontecendo durante a semana.

Barcelona é uma cidade belíssima, muito agradável de se visitar e que tem a cultura como prioridade, portanto, o maior festival de música do local, não poderia ser nada menos do que impecável. Para um fã de música que ainda não frequenta muitos festivais, recomendo fortemente que sua primeira experiência seja no Primavera Sound, quem sabe até não engatando uma viagem à Porto na semana seguinte para o NOS Primavera Sound, como estamos fazendo e contaremos tudo por aqui.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.