Primavera Sound do Brasil

Importantíssimo festival de música ganha participações de bandas brasileiras, realizando um pequena edição no país

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Se algo chama atenção no lineup deste ano do Primavera Sound de Barcelona, além da vastidão de artistas que passaram pelas páginas, resenhas e artigos do Monkeybuzz – algo que certamente ocuparia este texto inteiro -, é a presença muito bem-vinda de um corpo de bandas brasileiras extremamente representativas. Ao mesmo tempo em que novos nomes aparecerem, outros mais antigos e experientes também marcarão presença nesta que é uma das edições mais importantes para a nossa música. O Shoegaze de Single Parents, divide espaço com a instrospecção do trabalho solo de Rodrigo Amarente, enquanto a Psicodelia de Boogarins briga o carnaval dançante e peculiar que Móveis Colonias de Acaju faz. Se tantos grupos não fossem suficientes, ainda teremos o Rock & Roll por Black Drawing Chalks e uma apresentação histórica de Caetano Veloso.

Tal escolha acarretou em uma [mini-edição do festival] em São Paulo nesta sexta-feira 23 de Maio no Cine Joia e outra em Brasília, que aconteceu no dia 22. Na capital paulista, teremos uma versão diminuta da equipe brasileira, sem as presenças de Caetano e Rodrigo. Mas o que chama atenção na nova cena brazuca de música? Podemos considerar que o corpo escolhido não poderia ser mais diverso com atos que cantam em português ou inglês, grupos que ganharam o mundo há muito tempo e outros que começaram a música de forma inversa, assinando com um selo gringo antes mesmo de fazê-lo em nosso país.

Móveis Colonias de Acaju

Fico realmente feliz em ver o grupo ganhando o mundo. Lembro-me bem de ver alguns de seus shows em São Paulo nos menores lugares possíveis em 2005, ano de lançamento de sua incrível e precisa estreía, Idem, e ficar de boca aberta um concerto interativo com músicos descendo do palco em encontro de seu público para continuar tocando os seus instrumentos e dançando com a galera. Muito do sucesso, quase uma década depois de seu debut, vem de suas performances ao vivo que, através do boca a boca, foram trazendo cada vez mais gente às suas exibições. Muito também vem deste som peculiar, mistura típica de brasilidades com influências externas e letras sempre muito interessantes e comprensíveis. Seu último disco diz em seu título sobre o processo passado, De Lá Até Aqui, e mal podemos esperar para revê-los fazendo esta grande festa da MPB em nossa terra e no estrangeiro.

Rodrigo Amarante

Sempre o conhecemos muito bem como um artista emotivo através de seus projetos anteriores como, Los Hermanos e Little Joy, e a sua carreira solo não foge nem um pouco disso. Seu disco Cavalo é repleto de momentos instrospectivos e bonitos que, quando criados ao vivo, trazem ainda mais emoção aos seus ouvintes. Seu show é também exigente, faz com que o público fique atento a cada detalhe de sua voz e banda, sendo propício para uma apresentação mais íntima. Mas a verdade é que apesar de não ser talvez um concerto propício para um festivalm dado o grau de intimidade necessário, Amarante é um dos mais talentosos músicos do nosso país e já se tornara internacional com suas bandas anteriores. Logo, a sua escolha para o Primavera só evidencia duas coisas: o talento e o alcance de sua música.

Boogarins

A história do grupo goiano é bastante interessante, uma banda que bebe da psicodelia que infesta a música atual com atos como Tame Impala e MGMT ao mesmo tempo em que revisita aquele que é considerado por muitos um dos maiores nomes do gênero, Os Mutantes. As similaridades sonoras a faz criar uma música hibrida e moderna, interessante e verossímil como o ambiente árido de seu estado, algo que chamou a atenção da mídia interna e externa, levando os músicos a assinar com um selo norte-americano. Fizeram o caminho inverso, realizando turnês em outros países muito mais extensas que as realizadas em solo brasileiro, deixando-os quase com cara de gringos para nós. No entanto, não se assuste ao ouvir as divertidas letras de seu disco de estreía, As Plantas que Curam, todas elas são em português, algo que nos deixa ainda mais felizes ao perceber que a nossa língua materna é valorizada musicalmente fora do país. Logo, provavelmente é o nome mais certo em um festival como o Primavera Sound, dado o “passe-livre” da trupe em territórios internacionais. Não deixe de perder o show deles aqui, algo que vai demorar para acontecer novamente, com uma já anunciada turnê europeia e um segundo disco para ser gravado.

Single Parents

Você sabe que um disco é bom quando, dois anos após o seu lançamento, ainda continua atual e interessante. É o caso de Unrest e, se não bastasse isso, a banda liderada pelo vocalista e guitarrista Fernando Dotta, vem tendo um 2014 espetacular. Seu selo, Balaclava Records, ajudou a trazer nomes fortes da cena Indie, como Mac Demarco e Sebadoh, dividindo o palco com grandes ídolos que ajudaram a moldar o som de seu grupo – no caso, a banda liderada por Lou Barlow, um dos membros do seminal Dinosaur Jr. No entanto, quando se fala de sonoridades, espere por um bom Shoegaze misturado ao Garage Rock, combinação fatal e extremamente contemporânea. Pensar que o primeiro estilo encontra-se em crescente revitalização com nomes como o clássico My Bloody Valentine e a nova fase de Yuck (que curiosamente partiu do Noise/Garage Rock para se encontrar atualmente no Shoegaze), é a prova de que o grupo tem um espaço fortíssimo não só no Brasil, como no exterior. Letras cantadas em inglês deixam o seu visto de entrada para o estrangeiro ainda mais fácil de ser tirado. Com um segundo álbum no processo de confecção, Single Parents promete não deixar os fãs da distorção em São Paulo e posteriormente em Barcelona.

Black Drawing Chalks

Um dos nomes mais antigos do “Primavera Sound do Brasil”, os goianos são mais um representante da efervescente cena que surge na região. Com três discos no currículo e um ao vivo, e uma turnê de apoio a Carl Barat, a banda pode ser considerada uma das com maior bagagem para se apresentar em outros lugares. Suas letras em inglês e a escolha recente por uma aproximação do Stoner Rock em seu último trabalho, No Dust Stuck On You (2012), os deixaram em um terreno pouco explorado mas muito apreciado na cena musical, gênero que tem Queens of the Stone Age como seu maior representante, mas que já teve excursões de Arctic Monkeys em seu terceiro disco, Hambug. Não espere nada menos que um concerto forte, roqueiro e que fará sua cabeça balançar constantemente, algo que eu sei que seu espírito vem pedindo há tempos. Letras também em inglês os deixam capazes de seguir os rumos de seu conterrâneos Boogarins.

Caetano Veloso

Seu nome dispensa comentários, adjetivos ou descrições muito elaboradas. Se existe um artista brasileiro que representa a MPB há algumas décadas, ele é Caetano Veloso. Membro da importante Tropicália, se equipara a músicos que já nos deixaram e outros que ainda estão em atividade e são citados como a música verdadeira brasileira como Gilberto Gil, Tom Jobim e Milton Nascimento. Com tantos anos em serviço à música, não poderíamos deixar de considerar a sua apresentação no Primavera Sound de Barcelona e no Porto como nada além de histórica. É verdade que seu corpo de músicos que o vem seguindo a tempos, a roqueira banda Cê, destoa um pouco dos climas brasileiros vistos em obras como Transa e Outras Palavras, mas – sinceramente – o músico baiano anda ensinando novas gerações a fazer música, sendo o seu último trabalho, Abraçaço uma lição de vida para aspirantes do Indie Rock e afins. Mais direta e seca, a turnê deste álbum é igualmente festiva quando precisa ser, experimental quando deve ser e divertida acima de tudo. Ver um dos maiores astros de nossa música realizando um show como headliner em um festival estrangeiro é um privilégio para poucos e que deve ser muito bem aproveitado.

Com uma mistura de nomes antigos e novos, podemos concluir que 2014 está valorizando a nossa música para além das fronteiras brasileiras. A escolha destes nomes parte pela efervescente música brasileira, sempre apreciada no estrangeiro e que se mostra com a Internet cada vez mais acessível para os demais. Também demonstra ao colocar dinossauros da MPB ao lado de novatos do Rock & Roll, que passamos cada vez mais a ser conhecidos como música vinda do Brasil e não simplesmente música popular brasileira, algo extremamente importante para o crescimento de novas cenas no país. Algo que certamente tem cada vez mais chances de se perpetuar, porque qual é o melhor exemplo para os jovens do que ver que a música está dando certo aqui e está nos abrindo cada vez mais portas no mundo? Não deixe de perder o Primavera Sound Gig em São Paulo, enquanto nós dos Monkeybuzz conferimos tudo in loco nos festivais de Barcelona e do Porto.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.