Prince – A Morte Súbita de Um Gênio

Gênio da música popular sofreu falecimento prematuro

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Como se já não bastasse o momento político complicado que vivemos, surge no 21 de abril a notícia de que Prince faleceu aos 57 anos. As primeiras informações vieram pelo site TMZ, especializado em empreender uma cobertura alternativa das celebridades mundiais, mas logo se espalharam para as redações de revistas especializadas e jornais confiáveis ao redor do mundo, confirmando o que eu, perplexo, ainda me recusava a acreditar. Prince, a quem eu gostava de me referir como “Anão Púrpura de Minneapolis” um dos maiores inventores da música negra americana, provavelmente, o último gênio da música Pop daquele país, disse adeus a esta nossa existência de tamanho questionável, vítima de alguma doença parecida com gripe. As informações ainda estão chegando enquanto batuco as teclas do computador.

Você já deve ter notado que este texto aqui será bem pessoal. Não estou muito preocupado em convenções jornalísticas que, nestas horas, só empacam o andamento da coisa. É preciso que você saiba que Prince Rogers Nelson era uma criatura importantíssima para a música popular planetária e ponto final. Vou te mostrar argumentos pra isso, falar de feitos importantes e álbuns inesquecíveis, mas não perca de vista o fato do diminuto cantor, compositor, produtor e multiinstrumentista ter sido um gênio. E por que? Simples: Prince foi o cara que conseguiu captar melhor a mutação da música negra em direção a uma expansão urbana e tecnológica que teria como principal reflexo o surgimento de formas Eletrônicas, como o Rap, dentro da cultura Hip Hop e o Technofunk de artistas como Rick James e dele próprio, derivado de formatos experimentais dos anos 1970, empreendidos especialmente por seu maior muso inspirador: George Clinton, responsável pelos combos Parliament e Funkadelic. O resto é, literalmente, história.

Prince surgiu para o mundo em dois tempos, no início dos anos 1980. O primeiro grande sintoma de que estávamos diante de um novo cara, veio com seu sucesso 1999, faixa-título de seu quinto álbum, lançado em 1982 e que acenava para uma mudança decisiva em seu som. Ele deixava de lado o rescaldo Funk’n’Disco que iniciara e levara adiante em sua produção pregressa em nome de uma abordagem que abraçava a música Eletrônica mais tecladeira, mas sem abrir mão de uma negritude à toda prova. Essa fórmula foi ampliada exponencialmente no lançamento seguinte, a trilha sonora do filme Purple Rain, estrelado e produzido por ele. A canção que puxou este lançamento foi When Doves Cry, cujo clipe foi exibido no Fantástico e mostrava outra tendência interessante no combo estético que Prince oferecia: erotismo safado e assumido. O cara vinha sensualizando com mulheres insinuantes sem qualquer receio de soar inadequado, apesar de uma postura sexualmente ambígua desde sempre, algo que, se pensarmos bem, com o proverbial afago do tempo, soa até mais adequado à sua proposta. Em termos musicais, uma boa dose de guitarras inspiradas em Jimi Hendrix e Eddie Hazel (este último, um dos maiores empunhadores das seis cordas que você não conhece), homem de confiança do Funkadelic da virada dos anos 1960/70, vinha somar ao som do homem.

A partir daí, Prince tornou-se uma máquina de fazer hits. Vieram canções como Let’s Go Crazy, Purple Rain, Raspberry Beret, I Would Die 4 U e seu maior hit oitentista: Kiss. Faixa do simpático álbum Parade, lançado em 1986, a canção foi uma espécie de terceiro – e mais enfático – cartão de visitas principesco para os que ainda não o conheciam. O riff de guitarra sinuoso, a voz em falsete, o clipe sexybrega, tudo contribuía para o surgimento de uma espécie de anti-Michael Jackson, uma versão subversiva de música negra legítima, com parentesco firme em relação aos grandes mestres, a medida que o próprio MJ, envolto em megaproduções de gosto duvidoso como seu álbum Bad, parece afastar-se de sua origem em busca de uma sonoridade mais flácida.

Contrariando as previsões, o ser púrpura enveredou por um caminho que deixava a preocupação com o sucesso de lado. Gravou álbum duplo em 1987, Sign’O’Times, no qual se metia a fazer um tratado sobre os rumos da música negra àquela altura do campeonato. Apesar de discretamente pretensioso, o disco cumpre seu papel ao escrutinar os meandros de gêneros e estilos nos quais Prince nunca mergulhou por completo, mas em cujas águas molhou os cambitos. Por exemplo, o próprio Rap. Sua faixa-título envereda pelo caminho, mas não abre mão da melodia mínima, registrada no canto e em floreios guitarrísticos. A música Eletrônica da época fornece timbres inequívocos para as canções do sujeito neste momento. The Ballad Of Dorothy Parker, U Got The Look (a única que arranhou as paradas de sucesso) e a intencionalmente ambígua If I Was Your Girlfriend, tudo esquisito e genial em doses exatas. Essa maneira peculiar de Prince enxergar o Rap ainda daria as caras ao longo de sua carreira muitas vezes.

Ao fim dos anos 1980, Prince lançava outro álbum experimental, mas um pouco mais afeito às paradas, Lovesexy, em cuja capa aparecia nu em meio a flores e arbustos, preparando o terreno para outra aparição triunfal na mídia mundial. Prince foi encarregado de compor a trilha sonora da primeira adaptação cinematográfica de Batman, com direção de Tim Burton e Michael Keaton no papel do Morcegão, a música de Prince, especialmente a sensacional Batdance varreu novamente o mundo como algo extremamente moderno, sintonizando com heranças, mas felizmente marcado por uma genialidade própria.

Prince adentraria a década de 1990 como uma grande força criativa da música mundial. Em 1991 esteve na segunda edição do Rock In Rio, fazendo show memorável no velho Maracanã, na esteira de seus trabalhos da década anterior e dois novos e ótimos álbuns, Grafitti Bridge (1990) e Diamonds And Pearls (1991), obras que conteriam seus últimos sucessos neste período, a saber, New Power Generation (nome da banda que o acompanharia por muito tempo, substituindo a Revolution, que o escudara na década anterior), Cream e a lasciva Get Off, cujo clipe causou furor na época do lançamento por, digamos, encenar um bacanal no qual Prince aparece como uma espécie de anfitrião/mestre de cerimônias. E logo depois, por uma escolha pessoal, abdicou desta cena de protagonismo em nome da manutenção de uma liberdade criativa absoluta, algo que a Warner, sua gravadora, não estava muito a fim de lhe conceder. A resposta é simples: Prince sempre foi uma criatura compulsiva e de mente extremamente fértil. Seu ambiente era o estúdio Paisley Park, dentro de sua casa, lugar onde podia fazer tudo, tocar todos os instrumentos, cantar e lançar seus álbuns. A velocidade de composição e gravação foi demais para a Warner, que reivindicou o direito de poder trabalhar melhor as canções, usar os meios tradicionais de divulgação em TV, rádio, na mídia da época.

Prince recusou e passou a não assinar mais com seu nome. Usou um símbolo, que mesclava os indicativos da sexualidade masculina e feminina e passou a ser chamado de THE ARTIST (O Artista) ou, pior, THE ARTIST FORMERLY KNOWN AS PRINCE (O artista antes conhecido como Prince), sendo que alguns o chamavam de Símbolo. Nesta onda, o sujeito começaria a lançar discos compulsivamente, às vezes mais de um por ano, vinculado a um selo próprio, chamado Paisley Park. Esta escolha, ainda que legítima e virtuosa, privou um público potencialmente imenso de travar contato com a música de Prince. Enquanto ele submergia em seu mundo, realizando suas obras, o planeta foi sacudido por três ondas, a saber, Grunge, Britpop e Música Eletrônica, sem que o diminuto gênio tivesse condições de competir com as grandes empresas multinacionais de divulgação num tempo em que Internet era só um projeto militar americano.

Tal movimento de introspecção criativa fez com que pouca gente tomasse conhecimento de bons discos, como o próprio The Love Symbol (1992), Gold Experience (1995), Chaos And Disorder (1996), com Prince avançando pela década de 1990 a passos largos para uma estranha posição de celebridade esquecida pela maioria do público. Ainda que tenha se mantido ativo, realizando shows e turnês, ele teria condições de ampliar muito mais sua base de admiradores. Sua voracidade criativa e seu desejo por controle absoluto se mantiveram firmes, mesmo quando ele passou a ter álbuns distribuídos pela Columbia Records a partir de 2004, quando o bom Musicology foi lançado, dando início a uma boa sequência de discos, ampliada por 3121 (2006) e Planet Earth (2007).

Controlar os destinos criativos de seus discos não era instância suficiente para Prince. Com o avanço das mídias digitais e das redes sociais, sua música, mesmo a mais obscura dos anos 1990, ficou vulnerável diante de programas de compartilhamento como Soulseek e aos então nascentes serviços de streaming. Seus clipes estavam no Youtube, tudo literalmente fora de seu controle. Sua ação? Proibir a veiculação de sua obra em forma digital, dificultando novamente a existência de um público crescente. Para termos uma ideia, desde 2007, Prince gravou e lançou sete outros discos, sendo que Plectrum Electrum (2014), Art Official Age (2014) e HITnRUN: Phase One (2015) saíram em terras brasileiras, fruto de novo acordo de distribuição com a velha parceira Warner. Prince estava a meio caminho de concluir e lançar HITnRUN: Phase Two.

Prince era recluso. Sua fama de Popstar ambíguo, lascivo e genial ficou na esfera do folclore, ainda que ninguém em sã consciência ouse desmentir qualquer potencial excentricidade que o sujeito tenha. Há boatos de uma quantidade enorme de material produzido por ele ao longo das décadas, devidamente arquivado em incontáveis prateleiras de sua casa-estúdio de Paisley Park. Ele foi influente, audacioso, desrespeitoso. Gravou sucessos e cedeu canções que tornaram-se hits mundiais na voz de outros artistas, entre eles Sinéad O’Connor, cuja carreira decolou ao gravar Nothing Compares 2 U, em 1990, a diva disco Chaka Khan, que teve seu maior sucesso planetário com I Feel For You, em 1984 ou o grupo americano Bangles, cuja belezura Manic Monday, gravada em 1986, também leva assinatura do homem.

Após a precoce morte de Prince, aos 57 anos, esperamos que seu valor seja reconhecido e sua obra seja incessantemente divulgada, para que chegue ao mais improvável ouvinte. É o mínimo que esperamos.

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ARTISTA: Prince
MARCADORES: Conheça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.