Príncipe Discos em 10 álbuns

Um mergulho na cena afro-portuguesa – e no efervescente mundo musical do Batida – a partir de grandes lançamentos do selo

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Fotos: Marta Pina

Nos anos 1970, Portugal foi o principal destino dos africanos que buscavam fugir das guerras de independência e/ou conflitos civis em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Essa população negra africana foi empurrada para as periferias dos centros urbanos — como mostram os aclamados filmes Cavalo Dinheiro (2014) e Vitalina Varela (2019), do cineasta Pedro Costa — e sofreu com o racismo da sociedade portuguesa, que ainda hoje continua preconceituosa e fechada a imigrantes. Uma pesquisa da Casa do Brasil de Lisboa publicado em 2020, 86% dos imigrantes em Portugal dizem ter sofrido preconceito no país europeu.

Apesar dos estigmas e da violência, as comunidades africanas não só mantiveram seu legado musical na terra do fado como o atualizaram em sintonia com as novidades que surgiam no continente africano. O kuduro, por exemplo, só surgiu no fim dos anos 1980, mas os beats e os passos de dança desse novo movimento cultural da Angola logo se disseminaram pelas periferias de Lisboa. Todo esse caldeirão musical — que inclui ainda o romantismo da Kizomba, o tradicional Funaná, e os temperos caribenhos do Zouk, entre muitos outros — formou uma nova geração de DJs e produtores eletrônicos de origem africana que vem se destacando nos últimos 10 anos e transformando a identidade musical de Lisboa e de Portugul, de modo geral.

Embora não represente um gênero musical definido, esse grupo de artistas ganhou notoriedade com o nome Batida — termo usado em reportagens de Pitchfork, Resident Advisor e até em um documentário, chamado Batida de Lisboa (2019). E um dos principais canais de difusão dessa música para o mundo é a Príncipe Discos, selo fundado em 2011 que tinha como proposta lançar a música dos guetos da capital portuguesa. Desde então, mais de 10 anos se passaram e o Batida vem conquistando mais espaços em sua própria terra, para além do gueto — a Noite da Príncipe se tornou uma referência para apreciadores de música eletrônica e os DJs do selo passaram a tocar também nas rádios do país — como em todo circuito de eletrônica do mundo, especialmente os festivais mais inclinados ao experimentalismo.

Um dos pilares do selo, DJ Marfox tocou no Brasil em duas ocasiões: a primeira em 2014 e a segunda em 2018, para o festival Favela Sounds e para uma noite no Orfeu, em São Paulo. Agora é a vez de outro bastião do movimento: o angolano Nigga Fox, que integra o lineup do Gop Tun Festival, no dia 2 de abril, em São Paulo. Para você conhecer a Príncipe Discos e mergulhar nessa cena afro-portuguesa, preparamos uma lista com alguns dos melhores álbuns do catálogo do selo.

 

Marfox – Eu Sei Quem Sou EP (2011)

Marlon Silva é filho de um casal da ilha africana de São Tomé e Príncipe que mudou para Luanda em busca de melhores condições financeiras na capital angolana. Mas após a independência do país, em 1975, e a guerra civil em seguida, os pais do produtor se mudaram para Lisboa, onde Marfox nasceu.

Este foi o primeiro lançamento da Príncipe Discos, mas também o primeiro álbum de um jovem músico da diáspora que afirmava sua identidade musical e cultural.  “Naquela época e até hoje eu sei quem sou. Mas há muitos jovens que, como eu, nascem em Lisboa mas não se sentem portugueses (porque dizem: “Ele é preto, não é português”) nem caboverdeanos ou angolanos (porque as pessoas lá dizem que eles não são). Então a pessoa vive um pouco no limbo, desnorteado. E essa música veio trazer certa identidade a essas e outras pessoas que não se identificavam com nada. Passaram a se identificar com o estilo, com a música”, analisou Marfox numa entrevista de 2018. Imerso em sonoridades da África lusófona (como a tarraxinha, o funaná e, principalmente, o kuduro), Marfox mostrava beats de peso irresistíveis para qualquer pista de dança.

DJ Firmeza – Alma do Meu Pai (2015)

Português de ascendência angolana, DJ Firmeza compôs seu álbum de estreia após a morte de seu pai, homenageado no título. O contexto imprimiu uma aura de luto, melancolia e gratidão meditativa em meio ao transe espiralar de suas percussões — sempre certeiras, feitas com a sabedoria de quem pertenceu a crews de danças africanas na adolescência.

Com seis minutos de duração (quase o triplo da maioria), a faixa-título foi um marco do Batida ao estabelecer um beat de longa duração que não perdia a intensidade, mantendo o suingue com percussões polirrítmicas que surpreendem o ouvinte com cortes ou pequenos deslocamentos.

DJ Nervoso – Nervoso (2016)

Embora tenha levado alguns anos para lançar seu álbum, Nervoso é citado por vários artistas como um nome pivotal da cena de Lisboa. Foi ele que ensinou Marfox e Firmeza a usar o FL Studio, o programa de beats e produção usado pela maioria dos produtores. Desde o início dos anos 2000, seus sets baseados em mutações do kuduro angolano vinham incendiando festas na cidade.

Os DJs do Batida ganharam notoriedade pelo beats frenéticos, complexos e cheios de energia, mas Nervoso vai no caminho oposto. Dos títulos até as bases construídas com poucos elementos, seu som é mais minimalista e circula por BPMs mais baixos (puxados sobretudo pela tarraxinha), focando em um suingue mais malicioso e até erótico — como fica evidente em “Ah ah”.

Vários artistas – Mambos Levis de Outro Mundo (2016)

“Quanto à estratégia, aprendemos na luta; algumas pessoas pensam que adotamos um método estrangeiro, ou algo assim. Nosso princípio é que cada povo deve criar sua própria luta”. A frase do líder revolucionário Amílcar Cabral, de Guiné-Bissau, na apresentação da primeira coletânea do selo explicita como esses músicos da diáspora africana estavam buscando a sua própria expressão, descobrindo sua voz para fazê-la ecoar.

Com 23 faixas de diferentes artistas, mostrou para o mundo como essa cena era vasta e sólida (em seu tamanho) e como era diversificada (em suas características). As faixas de Mambos Levis vão da batucada espacial em “What Percussion”, do DJ Dadifox, até abordagens mais melódicas em diálogo com a eletrônica europeia, como “Deep House”, do DJ TL. Mas o grande destaque da compilação foi “La Party”, do DJ Lylocox, que passou a ser tocada por quase todos DJs da área. Márcio Matos, um dos criadores da Príncipe e artista responsável pelas capas do selo, contou à Pitchfork que o sucesso da faixa o levou a estabelecer uma nova regra nas festas deles: Se você tocar na mesma noite que Lilocox, não pode tocar músicas dele”.

Marfox – Chapa Quente (2016)

Com destaque na imprensa especializada, a Príncipe viu seus artistas começarem a ganhar palcos importantes pelo mundo. Marfox, por exemplo, passou pelo prestigiado Unsound, na Polônia, além de datas na Europa e Estados Unidos. Mas em Chapa Quente ele decidiu dar alguns passos para trás. “Quando estás fora há muito tempo, toca pouco na Noite Príncipe. Você começa a perder a sensibilidade do que é kuduro e o que não é”, destacou.

Revirando seus arquivos, encontrou músicas de 2008 e voltou a trabalhar nelas. E essas faixas acabaram se tornando o carro-chefe do álbum: “Tarraxo Everyday” e “2625”, duas provas de seu amadurecimento musical e também da capacidade de se reinventar. A primeira é um tarraxo retro-futurista. Já “2625” é uma síntese improvável de referências, combinando o techno, percussões que soam como repiques de escola de samba, palmas robóticas e uma melodia deslizante na flauta. São apenas seis faixas, mas é uma obra-prima certa da dance music do século 21.

Nídia – Nídia é Má, Nídia é Fudida (2017)

Nascida em Lisboa, Nídia se mudou para Bordeaux, na França, quando tinha 14 anos. Talvez essa distância geográfica da Batida de Lisboa tenha sido um dos fatores que levaram o seu som a um sotaque tão particular, diferente de boa parte dos parceiros de Príncipe. Seu álbum de estreia, Danger (2015), dava uma pista de que ali havia algo diferente (basta ouvir os synths esparsos em “Afro”). Mas Nídia é Má foi sua afirmação definitiva.

O disco é composto por faixas curtas (a maioria abaixo de 2:30 minutos) que vão pulando de um estilo para outro, mas de alguma forma Nídia consegue transmitir consistência e personalidade. Faixas melancólicas (como a nostálgica “I Miss My Ghetto”) e de levadas mais arrastadas (como os climas árabes em “Sinistro”) pontuam o álbum, mas o destaque fica para os batuques robóticos, cruzamentos da percussão afro com a eletrônica europeia, particularmente a house music em “House Musik Dedo”. “Biotheke”, com seu timbre ciborgue oscilando entre o orgânico e o sintetizado, é uma das mais desafiadoras desse trabalho que põe a ancestralidade em movimento contínuo rumo a direções impensadas.

Nigga Fox – 15 barras (2017)

Se Nídia é Má (2015) era composto por várias faixas curtas e agitadas, 15 Barras é o oposto: uma suíte de 15 minutos com proposta mais atmosférica, que passa por diferentes seções. Nigga Fox já tinha um nome consolidado na própria Príncipe (seu EP O Meu Estilo está entre os primeiros do selo e apareceu em playlists de Thom Yorke) e no cenário internacional, mas este álbum apresentou um caminho inédito para ele e para toda a cena.

“Não é um disco para tu dançar na pista, é para tu viajar. Já tiveram pessoas que me disseram que esse disco a ajudou a terminar de escrever um livro”, conta. O épico cinematográfico começa com pulsos de baixos oriundos do acid house e recortes de vozes distorcidas. Em vez dos beats matadores do kuduro ou afrohouse, a música vai se dissolvendo, tornando-se brisa. Ainda um dos trabalhos mais ousados editados pela Príncipe — e uma nova geração vem sendo influenciada pela forma longa proposta por Nigga Fox aqui.

Lycox – Sonhos e Pesadelos (2017)

Todos os artistas da Príncipe, sem exceção, são peritos na construção de ritmos intrincados e sedutores. Mas Lycox, para além disso, é também um produtor engenhoso na construção melódica. Baseado em Paris, ele absorveu influências do house, que despontam em faixas de clima mais solar e com uma sensibilidade um pouco mais pop, como no resplandecer suave de “Domingo Abençoado” e no tom noventista de “Solteiro”. Mas isso não quer dizer abrir mão da experimentação. “Galinha” tem um aspecto sombrio e ameaçador, como um filme de terror, como raramente se viu nas produções dos demais nomes do elenco.

Puto Tito – Carregando a Vida Atrás das Costas (2019)

Nascido em Angola, Puto Tito foi para Lisboa com a família quando mal sabia falar. Produz músicas desde a adolescência, mas suas músicas foram rejeitadas por outros DJs e amigos da crew Casa Louca Produções por não terem um apelo dançante. Carregando a Vida Atrás das Costas é um EP duplo que reúne uma coleção de faixas lançadas por Tito no Soundcloud entre 2014 e 2015, quando ele tinha entre 14 e 15 anos. O álbum mais minimalista e inusitado dentro do catálogo da Príncipe, é definido por uma abordagem lo-fi, às vezes soando como uma obra em progresso, incompleta — mas com percursos apaixonantes. A névoa de solitude na faixa-título, as dissonâncias de “Agora Sem Brincadeira” e a melancolia de “Tristesa” dão uma mostra de como Tito está fora da curva. Mas a grande faixa (quase um manifesto involuntário) é “Melodia Daquelas”, que flutua em torno de sintetizadores 8-bits sem nunca dropar um beat. Ficção científica do gueto.

A.k.Adrix – Código de Barras (2020)

Filho de angolanos e nativo de Lisboa, Adrix se mudou para Manchester em 2015, quando tinha 19 anos, e logo passou a incorporar elementos do underground britânico (como o drum & bass, grime e jungle) ao seu mix afro-português de kuduro, tarraxinha, kizomba e zouk. Transitando entre camadas de sintetizadores enevoados (como em “Ambiente Spiritual” e “Positividades”) e bangers agressivos dirigidos à pista de dança (caso de “X50” e “Settings”), Código de Barras, o segundo álbum do produtor, indica os caminhos promissores da nova geração da Príncipe, constantemente incrementando novas misturas à sua paleta de sonoridades — movimento puxado também por produtores como Nídia e Blacksea Não Maya.

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