Psicodelia: Histórico Muito Bonito para Ser Desprezado

Ao longo das décadas, estilo soube se manter novo e relevante

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Esses dias, eu mesmo fiz uma resenha do novo álbum do grupo americano Of Montreal, White Is Relic/Irrealistic Mood, que achei bem chato. Minha aferição de valor à obra se baseou na sua originalidade, um conceito que quase sempre norteia minhas emissões de opinião sobre música Pop. Tenho a crença de que há muito para ser ouvido e conhecido em vários estilos da música popular, independente do tempo em que canções foram compostas e discos foram lançados. Trabalhos de gente como Peter Gabriel, Brian Eno e David Bowie, entre outros, ainda não foram totalmente absorvidos/compreendidos e, caso tenham sido, nossa visão sobre tais obras vai mudando com o passar do tempo e, só assim, com o transcorrer dos dias e anos, novas nuances se tornam perceptíveis. Voltando ao disco dos americanos, minha resenha foi severa no quesito originalidade e, sobretudo, pelo uso – em forma de conceito – de elementos estéticos que se tornaram característicos da Psicodelia: coloridos, estruturas melódicas “surpreendentes”, instrumentais e arranjos “anárquicos” e outros expedientes que perderam força à medida em que o Rock e demais gêneros musicais voltados para os jovens, se tornaram produtos para consumo. Não é intenção do texto ser acadêmico ou criticar tal ordem das coisas, vivemos num sistema econômico que tem a monetização das manifestações artísticas como um característica e muitos podem argumentar que isso ocorre desde o Renascimento. Certo. Neste ambiente instituído, a Psicodelia teve pouca sobrevida e se perdeu em algum ponto do caminho. Nada impede, no entanto, que ela ressurja no futuro próximo ou distante, cheia de significados e poder revolucionário.

Não se trata de cobrar muito da Psicodelia, mas seu histórico é muito bonito para ser desprezado. Surgiu na música em plena década de 1960, na encruzilhada do Rock com o comportamento e a literatura, num tempo em que o estilo, outrora um mero representante hormonal de jovens espinhudos, armara-se de significados maiores e sentidos grandiosos. Além dessa parte, digamos, lírica, houve uma necessidade natural de expandir limites estéticos, uma vez que as canções não falavam só do amasso e do tesão reprimidos. Bob Dylan falava para uma América em mutação, The Beatles viam oportunidade de abraçar vários estilos em suas pop songs, The Beach Boys queriam falar sobre o passar do tempo e o amor, The Byrds misturavam tudo isso com guitarras novidadeiras e tradições Folk e Country. Abaixo deles, um número imenso de bandas e artistas percebia que o mundo saltara décadas apenas entre 1965 e 1966. Tudo mudara e o uso de drogas teve uma imensa participação nisso. Porque o uso delas não significava algo destrutivo ou mundano, pelo contrário, a ideia dos usuários de LSD, por exemplo, era entrar numa sintonia mental considerada elevada, superior, maior, que permitiria uma compreensão melhor da realidade. Por mais paradoxal que fosse a ideia de “sair da realidade para percebê-la melhor”, tal movimento trouxe consequências para as artes em geral, em especial, a música pop.

A Psicodelia foi, mais ou menos, o nome dado a essa expansão mental. Artistas começaram a criar obras sob o efeito de drogas alucinógenas, algo que era muito novo. Pessoas começaram a consumir as mesmas substâncias para perceber detalhes mais precisos em obras de arte concebidas por mentes alteradas quimicamente. E, mais ainda, novos conceitos foram desenvolvidos para que se tornasse possível gravar músicas conferindo a estas uma “visão/percepção” alterada. Resumindo: o uso de substâncias alucinógenas invandiu todas as etapas da fruição da obra de arte, incluindo sua criação. Ao mesmo tempo – e por conta disso, entre outros fatores – o mundo vivia um tempo de desejo de mudança. Jovens iam para as ruas em busca de algo novo, movimentos espontâneos que engolfaram partidos políticos tradicionais que, atônitos, precisaram embarcar nesta onda sob pena de perder seu sentido. Revolução era a palavra de ordem. Hippies andavam pelas ruas da Costa Oeste americana. EStudantes marchavam em Paris. Os governos reagiam com truculência, o AI-5 era baixado no Brasil, o sistema reagia. Duramente.

Podemos dizer que a Psicodelia na música popular começou nesta época e foi absorvida de diversas formas. Tornou-se circense e colorida em temas que aludiam aos hippies, cinzenta e autodestrutiva se falava a gente como Velvet Underground, por exemplo, que explorava nas letras de Lou Reed a dureza mortal e suja da metrópole e, mais ainda, adquiria ares místicos e divinos nas mãos de gente como The Doors, que via as drogas como uma passagem para lugares maiores. O nome da banda viria disso, da abertura das “portas da percepção”. Do outro lado do Atlântico, bandas passavam de psicodélicas a progressivas, Pink Floyd à frente, incorporando tradições musicais antigas a um Rock vigoroso e esteticamente desafiador. A ideia era ultrapassar limites de duração, de uso de instrumentos, de concepção. Claro que tudo isso foi mudando com o tempo, a Psicodelia foi se adaptando a novos estilos, invadindo novos lugares, deixando de ser uma transgressão legal, estética, moral e comportamental para ser uma etapa no processo de criação que perdia sua espontaneidade à medida que a década de 1970 avançava.

Se olharmos para a linha cronológica da música pop no século 20, veremos que estilos como o Jazz e o Soul foram diretamente afetados pela Psicodelia, passando a sofrer mutações impressionantes e se dividindo em várias novas abordagens. No Rock, após o Punk, a Psicodelia veio como revestimento para toda a geração de bandas inglesas surgidas no fim dos anos 1970. De The Cure a Echo And the Bunnymen, usando escuridão e tons de cinza para falar de emoções e falta de enquadramento numa sociedade sem graça e careta. Nos Estados Unidos, por sua vez, a New Wave veio trazer cor e dança para bandas do mesmo período, de Blondie a B-52’s, misturando suas criações com instigantes velhas-novas ideias ritmicas. Em paralelo a isso, grupos manuseavam a Eletrônica e a usavam como uma nova e fria etapa da criação artística. Tudo mudava.

Ao longo dos anos 1980/90, a criação Pop sofreu uma onda revisionista. Pouco se criou, muito se revisitou e estilos musicais que visavam mais espaço dentro de nichos já estabelecidos tiveram lugar. Do Rock alternativo americano veio o Grunge e por aí vai. De uma promissora e sensacional mistura de passado e futuro, materializada no Acid Rock inglês do fim dos anos 1980, totalmente tributário da Psicodelia, veio o Britpop, enquadrado e limitado. A grande, enorme, impressionante exceção a esse movimento natural veio por conta da Música Eletrônica inglesa, que elevou a noção de expansão de limites a um nível que nunca mais foi igualado. Suas criações e artistas estão enquadrados na categoria dos que não envelheceram um só dia desde então e sua produção aguarda por novas e novíssimas interpretações. A Psicodelia, portanto, tornou-se uma instância presente na música dita alternativa. Não havia/há espaço nas paradas de sucesso mundiais para algo tão, digamos, diferente.

No fim do século passado e início deste, bandas como The Flaming Lips, Animal Collective, Tame Impala, Foxygen, entre outras, recebem o tratamento midiático como sendo Psicodélicas. Suas canções e álbuns são interessantes, repetem os passos de expansão de limites forjado na essência das criações do passado. Tiques instrumentais e taques estilísticos perpassam álbuns e canções, criando um clima totalmente afeito a comparações. Acredito mesmo que eles e vários outros artistas e bandas em atividade hoje, são relativamente psicodélicos. O ponto em que me detenho ao analisá-los é, justamente, o da novidade. A Psicodelia surgiu, acima de tudo, como novidade, como uma cotovelada abaixo da linha de cintura do sistema. O que é feito hoje sob o selo que leva o seu nome é tudo, menos uma tentativa de rever limites. Todos os timbres e sonoridades estão disponíveis em softwares para teclados e sintetizadores, o uso de maquinário intencionalmente datado – movimento usado por muitos – é um sintoma disso, talvez da própria visão que estes artistas têm de que tentam recuperar eventos que já tiveram lugar em outra época.

Seria legal que surgisse uma música pop com a cara de hoje mas que tentasse cutucar a sociedade de hoje, com pautas de hoje. Não sei se devemos cobrar isso de bandas e artistas psicodélicos, mas devemos, ainda que isso pareça sintoma de chatice, entender o movimento que eles fazem em seus discos. Isso, claro não impede que suas criações sejam legais, que suas músicas estejam em playlists e tudo mais. Além disso, como efeito estético, o uso de timbres psicodélicos pode render muito. Um belo exemplo de trabalho com esta influência, composto e gravado em 2018, é o novíssimo disco dos norte-americanos MGMT, que, ao se moverem em direção ao Pop ensolarado, algo que dominam, criaram um belo espécime de doideira musical para toda a família. Talvez, pensando com mais carinho sobre a questão, tenha sido desejo dos pioneiros psicodélicos não só a mudança do sistema, mas a sua modificação gradativa ao longo do tempo. Quem sabe? O fato é que precisamos que os anos transcorram para que possamos entender exatamente o que aconteceu lá e o que acontece hoje.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.