Qual a Real Influência do Ambiente em Uma Obra?

Respondendo esta pergunta, encontramos uma série de outras e casos bem interessantes de como isso acontece

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Fotos: Bon Iver

Não são raras as histórias de artistas que se isolam ou que vão a cidades ou locais específicos em busca de referências ou de inspiração para criar uma nova obra. Existem casos e mais casos espalhados por todos por todos os lugares e eles não nada difíceis de achar espalhados por aí. Analisando muitos deles, cheguei a algumas perguntas e não em uma exatamente resposta. Me deparei com questionamentos como “Qual a real influência que um lugar pode ter em uma composição?” ou “Uma vez no tal lugar, o artista vai se basear no que rola em alguma cena dali, se inspirar em ilustres personagens que residem ou nasceram na tal localidade, se fechar mais em si para trazer a tona o que já tinha ‘escondido’ dentro dele?”.

Embora as perguntas sejam poucas e relativamente diretas, as respostas foram as mais variadas possíveis. O que me botou para pensar e concluir que independente do resultado não é só o ambiente que influencia no resultado de um álbum. Nem todos que vão gravar em Berlin, por exemplo, vão criar discos influenciados pelo Kraut Rock ou pela música pós-modernista do país, como foi a famosa tríade Low, Heroes e Lodger de David Bowie, não é?

Batendo mais uma vez na tecla da inspiração alemã. Stephen Malkmus gravou seu mais recente álbum, Wig Out at Jagbags, em uma pequena fazenda nos arredores da capital alemã. Essa mudança teve certo impacto no que o músico fez, mas, em uma entrevista concedida pouco tempo antes do lançamento, ele disse que foram o escritor Mark von Schlegell (que é na verdade americano, porém reside também na Alemanha), a artista Rosemarie Trockel (residente em Colônia) e bandas como Jan Lankisch, Can e Gas as suas principais inspirações para este novo trabalho. Apesar da mudança não estar tão evidente logo de cara, ela pode ser sentida em diversas sutilezas e alguns experimentalismos que não faziam parte de sua obra até então. Novamente, a pergunta que fica é: o que fez Malkmus mudar neste disco foi “culpa” do lugar em si ou foram essas artistas e pessoas em que ele se inspirou ou ainda a vontade de inovar que o fez criar algo diferente?

Não há uma regra e muitas vezes não é só um desses aspectos isolados, mas uma combinação deles que fazem discos de um mesmo artista soarem tão diferentes – ou ainda obras gravadas em situações semelhantes terem resultados tão diferentes.

O mais novo trabalho de Vampire Weekend (Modern Vampires of the City) é prova disso. Enquanto os dois primeiros discos foram sediados em Nova Iorque, o terceiro foi gravado parte em Los Angeles (uma cidade nova para os garotos), parte em Martha’s Vineyard (uma pequena ilha em Massachusetts) e outra parte na cidade natal do quarteto. O isolamento de se ver em uma nova cidade grande ou em uma ilha pode até ter colaborado, mas não foi ele sozinho que moldou o álbum. Na equação, ainda entram a presença de Ariel Rechtshaid na produção, até então dominada por Rostam Batmanglij (membro e multi-instrumentista da banda), novas inspirações, amadurecimento e novas experiências, além de tantos outros elementos.

Mais um exemplo que se soma aos inúmeros outros é de Cícero e suas obras lançadas até hoje. Enquanto Canções de Apartamento, como o nome pode sugerir, foi gravado no apartamento do músico, seu segundo álbum, Sábado, foi gravado em diversos outros e, o que me parece ser mais importante, com a participação de amigos. Em nossa recente entrevista com o carioca, ele nos fala sobre isso e explica a diferença entre os dois álbuns como um coletivo de outras mudanças e novas experiências adquiridas nos dois anos que separam os lançamentos. “Conheci outros pontos de vista, outras pessoas e outras culturas. Isso influencia a vida, não só o disco. Enquanto minha vida estiver mudando, os discos estarão mudando. É meio natural, ou era pra ser, sei lá”, nos contou o músico. E isso resume muito do que apurei nos casos que analisei. Mudanças vem como um emaranhado de motivos. Raramente como um caso isolado de uma inspiração súbita alcançada em algum lugar.

Um caso bem curioso é de Bon Iver e suas escolhas nada usuais na escolha de um lugar para criar suas obras. Para compor For Emma, Forever Ago (2007) Justin Veron se trancou em uma casinha em Medford, uma pequena cidade no estado de Wisconsin, durante três meses e o resultado deste período de solidão foi seu belo disco de estreia. Porém o background também coopera para o resultado: Justin estava se tratando de uma infecção de mononucleose e, antes de partir para seu retiro, o músico acabara de terminar um relacionamento com sua namorada e de romper com sua banda, DeYarmond Edison. Todo o sofrimento, dor e problemas pessoais que o músico acumulou até aquele ponto parecem ter muito mais impacto no álbum que o simples fato do músico ter ido para uma casinha no meio da floresta gravá-lo. O mesmo se aplica ao segundo trabalho, gravado quase cinco anos depois de seu debut em uma clinica veterinária que foi transformada em um estúdio. A vontade e a ambição de criar um trabalho como aquele é o que o fez diferente e não simplesmente a mudança de ambiente.

Irina Bertolucci, tecladista e vocalista do Garotas Suecas, me disse uma coisa bem interessante em uma entrevista que fiz com a banda no fim de 2013. Em uma pergunta eu questionava como era pra banda compor em uma turnê e o quanto isso influenciou em Feras Míticas, segundo disco do quinteto paulistano. “Turnê é muito louco porque, ao mesmo tempo em que você viaja o mundo, o fato de estar sempre acompanhado dessa gangue te faz sentir um caramujo, levando tudo seu com você. Às vezes, dá a sensação de que a gente não conhece lugar nenhum e que a gente só se conhece cada vez mais”, ela respondeu. E essa é outra perspectiva diferente e bem interessante. Lidando contra as adversidades e as aventuras de se fazer uma série de shows em outros países (quase o mesmo caso de Vampire Weekend em seu novo álbum), os músicos acabaram por se fechar ainda mais naquele grupo e daquelas novas experiências tirar combustível para compor.

Esse artigo poderia se estender mais ainda citando outros casos, mas com o que temos até agora deu pra notar que não é só o ambiente que molda um disco ou uma fase de um artista. Outros tantos fatores entrem nesse jogo e o fator ambiental acaba sendo só mais um deles.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts