Quando Audioslave Valeu a Pena – Dez Anos de “Out Of Exile”

Dez anos do segundo e melhor disco do grupo

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Lembro nitidamente quando a imprensa especializada começou a badalar o surgimento de uma nova banda, a partir dos restos mortais de Rage Against The Machine. O quarteto angeleno, famoso ao longo dos anos 1990 por sua mistura bem azeitada de Rap com Heavy Metal, tinha chegado ao fim de sua trajetória de forma natural, em 2000. Socialistas, engajados e invocados, os integrantes do grupo, a saber Zack de la Rocha (vocais), Tom Morello (guitarras), Tim Commenford (baixo) e Brad Wilk (bateria), separaram-se amigavelmente, com o vocalista indo para um lado e o trio remanescente para o outro. Morello mantinha o discurso de que a banda não acabara, que os três tinham em mente a incorporação de um novo vocalista para que seguissem adiante. Esse novo-velho grupo seria Audioslave em alguns meses.

Talvez nenhum dos três integrantes de RATM tivesse em mente que contariam com um peso pesado como Chris Cornell em suas fileiras. Na época ele estava imerso numa carreira solo recém-inaugurada, a partir do lançamento de um álbum confuso, porém interessante, chamado Euphoria Morning, que servira mais como declaração de intenções que depositário de algum hit para as paradas de sucesso. Cornell já dera provas suficientes em sua banda original, Soundgarden, de que era um vocalista muito acima da média, já tendo, também, gravado no disco-grupo-tributo Temple Of The Dog (com integrantes de Pearl Jam e Soundgarden) e em Sunshower, uma canção que foi parar na trilha sonora do filme Great Expectations, estrelado por Gwyneth Paltrow e Ethan Hawke. Após o lançamento de Down On The Upside, Soundgarden pendurara suas guitarras. O encontro dos quatro era, portanto, a junção da fome com a vontade de comer.

A ideia da chegada de Cornell partiu do produtor Rick Rubin, que havia trabalhado com RATM. Pensando que um novo vocalista, que não tivesse estilo próximo do Rap, seria ideal para afirmar duas identidades para a nascente banda: fincar um pé nos anos 1970, a partir da escola sonora de gente como Led Zeppelin e Black Sabbath e, junto a isso, deixar rótulos como Grunge e Alternativo para trás, misturando, ao mesmo tempo, o melhor que ambos os estilos poderiam prover. Após ensaios, briga de empresários, demissões, abandonos, mas unidos por certas afinidades estéticas, nasceu… Civilian, nome que Morello pensou ser o mais interessante. Ele desmente essa história, dizendo que o nome sempre foi Audioslave, sugerido por Cornell e, convenhamos, bem melhor. Dito e feito, partiram para o estúdio e, após menos de um mês ensaiando e burilando letras e melodias, já haviam cerca de vinte composições completas. Dali para o lançamento do primeiro álbum, homônimo, em 2002, foi um pulo.

Dividindo crítica e público, a estreia de Audioslave serviu para contrapor-se à consolidação daquele novíssimo-velho Rock alternativo dos anos 00, capitaneado por The Strokes e seus filhotes. Ver um quarteto peso-pesado e com pedigree noventista revisitando sonoridades setentistas era uma resposta e tanto aos “novos tempos”. De fato, o ataque sonoro de Audioslave era o oposto ao que havia disponível na música Pop da época. Não era Grunge, não era Hard Rock clássico, mas ainda soava apenas como uma respeitosa homenagem a um estilo de Rock que caíra no esquecimento. As composições, assinadas por Morello e Cornell, não sustentavam o poderio sonoro da banda, soando como se os quatro jogassem contidos e restritos, sendo capazes de muito mais. Mesmo assim, com a crítica ressaltando a pouca originalidade do som e o público gostando por nostalgia projetada, Audioslave engatou um período de grandes excursões, visitando festivais como Ozzfest e tocando em vários palcos do planeta, afinal de contas, seus integrantes eram experientes e confiáveis em termos de palco. E foi este período de turnês e a tal familiaridade com as apresentações ao vivo que deram a Audioslave a malandragem, a malemolência e borogodó necessários para fazer o álbum que refletiria seu melhor momento: Out Of Exile.

A grande diferença deste para o álbum anterior é, justamente, o tempo que os quatro músicos tiveram na convivência da estrada. Por mais que as formas de fazer música mudem com o tempo, nada vai substituir o convívio e as experiências compartilhadas por integrantes de um grupo em deslocamento pelo mundo, visando tocar para uma audiência. Essas andanças serviram para aproximar Cornell do trio, além de desfazer qualquer resquício de problema causado por disputa de egos ou algum traço de implicância por conta de ex-empresários. Produzido por Rick Rubin e com a assistência de Brendan O’Brien, o álbum entrou no primeiro lugar da parada americana em 2005, algo inédito, tanto para Soundgarden quanto para Rage Against The Machine. O próprio baterista Brad Wilk dissera que “agora Audioslave era, de fato, uma banda e não integrantes de dois outros grupos tocando juntos”. O resultado foi animador, tanto pela pegada sonora ainda mais bem definida quanto pelo grau de intimidade que as letras de Cornell apresentavam, relatando, sobretudo, a experiência recente com clínicas de reabilitação, responsáveis por ele deixar álcool e drogas para trás.

Out Of Exile teve quatro singles: Your Time Has Come, a faixa-título, Be Yourself e Doesn’t Remind Me e seu processo criativo levou Audioslave a ser o primeiro grupo/artista americano a tocar em Cuba, num lugar com o belo nome de Arena Anti-Imperialista José Marti, em 06 de maio de 2005, num show gratuito para cerca de 70 mil pessoas, documentado em DVD e disponibilizado alguns meses depois. Em 23 de maio o álbum era lançado mundialmente, chegando ao status de Disco de Platina nos Estados Unidos, dando gás para a banda excursionar novamente pela Europa. No fim do ano viria a indicação ao Grammy de “Melhor Performance de Hard Rock”. Apesar da boa recepção de crítica e público em relação ao disco e mesmo lançando um novo trabalho no ano seguinte, Revelations, Audioslave não duraria muito tempo.

Chris Cornell deu a declaração sobre sua saída da banda no início de 2007, alegando diferenças pessoas e musicais com os outros integrantes. Sintomaticamente, poucos dias antes, Morello e Zack de la Rock anunciaram a reunião de Rage Against The Machine para um show no festival Coachella, que se transformaria em uma nova turnê da banda, que chegou a tocar no Festival SWU em 2010. Pouco tempo depois, Soundgarden também se reuniria para turnê de despedida e/ou reencontro, com Cornell à frente, após nova tentativa solo não atingir o sucesso desejado.

Talvez o tempo já tenha nos dito que o surgimento de Audioslave foi decorrente de conveniência, que a banda nunca superou suas diferenças, que seu talento nunca foi traduzido de forma efetiva, mas, se em algum momento de sua curta existência (2001-07), o quarteto conseguiu provar valor e calar críticos, foi com Out Of Exile. É um disco simpático, honesto e com pegada sonora acima da média, mesmo que poucos se lembrem dele. É Rock pesado, bem tocado, bem cantado e com modernidade sutil. Tem discurso, tem vigor e, ao contrário dos outros dois álbuns da banda, tem coesão.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.