Quando Música de Tiozão Está na Moda

Enquanto termos quase pejorativos são cunhados para definir estilos, novas bandas se inspiram no passado

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O Rock, vocês sabem, surgiu em meados dos anos 1950. Era uma resposta cultural à condição social da juventude americana que, depois de décadas, podia desfrutar de algum conforto material, conforto, grana e não precisaria se fardar para defender a soberania ianque em algum ponto do planeta. Era a contrapartida artística a outros signos culturais do chamado American Way Of Life, como o hamburger, a batata-fria, o milkshake, o surf e os drive-in’s. Talvez fosse o mais louvável elemento dessa novíssima cartilha capitalista que surgiu no pós-guerra e não me refiro a isso como algo negativo. Era, sim, um movimento natural. No bojo do Rock estavam questões seríssimas, que iam muito além da trilha sonora para amassos no banco de trás do Cadillac do papai. Com o estilo musical chegavam questões importantes para a definição do status de “jovem” no mundo, já a partir dos anos 1950. Além disso, temas como sexualidade, racismo, liberdade e consciência também estavam contidos no pacote comportamental adjacente à música.

Nas décadas seguintes, o Rock foi incorporado à cultura planetária, tornou-se um elemento indissociável do próprio status de “ser jovem”, serviu como trilha sonora em movimentos sociais por mudança, por melhores condições, por mais liberdade. Podemos dizer que o estilo musical também associou-se a palavras como “liberdade”, “novidade” e “revolução”, termos bastante importantes e definitivos. Trilha sonora de várias memórias, incontáveis ritos de passagem, amores e desilusões de algumas gerações, o Rock, senhoras e senhores, envelheceu. Suas bandas, seus artistas, tudo e todos que contribuíram ao longo dos tempos para o ineditismo e arrojo do ritmo deixaram de ser jovens. E, se você está numa banda de Rock, gosta do estilo, pensa nele como algo que se pretende permanente em sua vida, aqui vai um alerta: tudo vai envelhecer, inclusive você. Só que isso não é ruim, pelo contrário.

Mesmo assim, o mais novo rótulo musical – ainda em fase de aprovação pelo senso comum – é o Dad Rock. Pelo termo, se entende aquelas canções feitas por “roqueiros velhos”, na casa dos 50/60 anos, que insistem em continuar na estrada, gravando discos ou simplesmente existindo. O rótulo também se aplica àquela circunstância conhecida da maioria: estar no carro dos pais e, durante uma viagem, um passeio ou na totalidade do tempo, a seleção musical privilegiar a obra de gente como Eagles, Steve Miller Band ou, segundo a Rolling Stone americana, Wilco e bandas mais atuais na cronologia estariam incluídas nesse novo conceito. Não é a mesma coisa que Classic Rock, que define exclusivamente a sonoridade sem restringí-la à análise temporal, o Dad Rock é algo exclusivamente temporal, ainda que flexível. Ou nem tanto. Tomando Wilco como exemplo, seu primeiro álbum foi lançado há dezoito anos. Talvez este rótulo se aplique até a gente em atividade como Interpol ou The National, vá saber. A música e as artes, no entanto, têm mecanismos de renovação e ressignificação. Sendo assim, de um certo ponto de vista, nada é tão velho ou tão novo que não possa existir e ser apreciado.

Vários exemplos estão por aí. A série americana Glee ressuscitou um monte de artistas de outros tempos, mas uma banda foi especialmente beneficiada pela reinvenção: Journey. Seu maior sucesso, Don’t Stop Believin’, grande hit radiofônico em 1982, voltou às paradas de sucesso e a banda, cujo maior atrativo sempre foi a junção de vocais épicos com as guitarras de Neil Schon, lançou coletâneas de maiores sucessos e caiu na estrada. No lugar do vocalista Steve Perry, o filipino Ariel Pineda, capaz de reproduzir os trinados de Perry sem problemas. Após ressurgir nas telas pela versão que Don’t Stop Believin’ recebeu no seriado, Journey lançou um novo álbum em 2011, Eclipse, bastante razoável. Outra banda, Alan Parsons Project, também foi revisitada, ainda que indiretamente. A dupla francesa Daft Punk esmerou-se em recriar um ambiente controlado e fértil em seu último álbum, Random Acess Memory, no qual existissem novamente várias sonoridades da virada dos anos 70/80. Quem não viveu aquela época poderá achar inovadoras algumas passagens, mas, em algum lugar da Inglaterra, o produtor Alan Parsons deve ter sorrido.

Ao lado de Eric Woolfson, Parsons criou seu projeto musical em 1975. A ideia era ser o que Brian Eno chamava de “não-músico”, ou seja, um cara que pilotava o estúdio, pensava nos arranjos, imaginava as paisagens musicais, mas, na hora de meter a mão na massa, deixava o trabalho para musicistar escolhidos criteriosamente. Woolfson era o vocalista selecionado para assumir a linha de frente nos álbuns, sempre distantes o suficiente do Rock Progressivo para poderem frequentar as paradas de sucesso. Cada disco falava de uma ideia conceitual, com temas que variavam entre Isaac Asimov (em I, Robot, 1977), o antigo Egito (Pyramid, 1978) e por aí vai. Parsons conseguiu forjar uma sonoridade suave, bem feita, com momentos em que havia algo quase dançante (no sentido 1980 do termo) em meio às ligas sonoras. Discos como Eye In The Sky (1982), traziam pequenas suítes Pop compostas com muita precisão e criatividade. Podemos notar ecos delas em Instant Crush, canção do novo disco dos franceses com a participação de Julian Casablancas, a tal ponto que não seria exagero dizer que a música é uma homenagem explícita à sonoridade que Parsons produzia na época.

A novidade era o máximo do paradoxo quando as paradas de sucesso foram assaltadas por uma canção chamada Only Time Will Tell. Quem cantava? Uma banda chamada Asia. Nela vinham quatro gigantes do Progressivo, dispostos a entrar numa onda muito mais Pop, causando rebuliço e indignação nos admiradores da estética rebuscada e dos fraseados intrincados do estilo, a saber: John Wetton (ex-King Crimson), Geoff Downes, Steve Howe (ambos ex-Yes) e Carl Palmer (ex-Emerson, Lake And Palmer). A ideia dos caras era a diversão absoluta e um abraço ao sucesso radiofônico. Com pinta de música de academia, videogame e canção de superação à la Rocky Balboa, Only Time Will Tell foi parar até no anúncio do finado cigarro Hollywood, famoso por seus comerciais com cenas de alegres e jovens fumantes praticando esportes radicais. Era um indicativo de sucesso na época. Como se não bastasse, outra canção, Heat Of The Moment, surgiu com o mesmo êxito da anterior. Desde então, Asia permaneceu vivo, com momentos mais ou menos inspirados, sempre lançando discos e excursionando. Para quem não lembra, o personagem de Steve Carrell em O Virgem de 40 Anos tem um poster enorme da banda em seu quarto, mostrando como é legal tirar sarro dessas formações fanfarronas e associá-las a algum fato ou conduta desabonadora. Em 2006, a banda retornou com os quatro integrantes originais e lançando mais três álbuns de inéditas. Com a saída de Steve Howe, às voltas com o novo disco do Yes (a ser lançado em julho), o Asia tem em Sam Coulson seu novo guitarrista e lança Gravitas, seu 14º disco de inéditas. No site da banda, agenda de shows no Japão, Estados Unidos e Inglaterra, sem parar, até novembro deste ano.

Pense na produção musical de hoje como um looping. As novas bandas sempre ouvem as mais antigas, as sonoridades vêm e vão, as influências sobem e descem. Sério, não existe Dad Rock ou Son Rock ou algo assim. Existe, sempre, a música boa e a música ruim. E existe o preconceito, algo que você, leitor/a, deve enfrentar a todo tempo. Conheça sempre novas músicas, o novo não está, necessariamente, no que foi feito hoje, ou há duas horas. Há obras estalando de novas lá nos séculos passados, esperando por novas interpretações, novos entendimentos. Não espere as modas, vá por conta própria.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.