Quarto Negro: Dor Conhecida em Primeira Pessoa

“Desconocidos”, lançado em 2011, narra histórias de solidão com letras e músicas em conjunto

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Quarto Negro – Desconocidos (2011)

Dizem que pior do que estar sozinho é se sentir só em meio a multidão. Acredito que pior ainda é se sentir assim com outra pessoa em uma amizade, em família ou (e, talvez, principalmente) em um relacionamento amoroso. Dois indivíduos que convivem, coabitam o mesmo espaço, a mesma mesa, a mesma cama, sem serem plenamente conhecidos um pelo outro. “Nossos filhos, nossa casa, nós dois também, sozinhos”.

Às vezes, penso que é esse o verso de Desconocidos que melhor resume a obra. O disco chega muito redondinho, com uma linha narrativa que, se não se apresenta linear, vem como “circular” mesmo, como se cada faixa pudesse ser simultaneamente início, meio e fim de uma só história contada ali, assim como do todo. Como não seria possível criar isso na linearidade do tempo em que a música se propaga, uma primeira faixa (Luz) serve como introdução (com um som reproduzido ao contrário que apresenta os versos “Um dia eu mudo, eu juro”), enquanto a que batiza o disco cumpre o papel de ser a última da sequência, carregando um final com trechos de outras músicas do álbum. Cada vez que você o ouve, essa sensação cíclica surge como se aquele eu-lírico contasse que um dia mudaria, mas não foi dessa vez.

E a história se repete no disco imitando aquilo que vivemos e vemos os outros viverem ao nosso lado. São situações de solidão que se repetem em confissões íntimas que poderiam sair das bocas de qualquer um que se dê ao trabalho de investigar seus fracassos, aquelas coisas que você, se pudesse escolher, não sentiria e, se pudesse fazer de novo, seriam totalmente diferentes.

Isso tem a ver com a escolha das palavras contidas nos versos. São termos que usamos sempre organizados de uma forma sensível, muito humana. E a beleza está principalmente nisso. Em alguns casos, as estrofes parecem mais soltas, como quando você finalmente decide dizer o que pensa e as frases saem de uma maneira mais crua, quase disconexas – Nosso Primeiro Divórcio, passa esse clima desde o começo do disco com, por exemplo, “Você me soa tão abstrato/Os dias já não me remetem a nada./E quanto mais eu sei, menos eu posso crer/Em tudo que ouço, enxergo e falo./Trágico, dói não te levar mais a sério/Acho que foi sempre assim”.

Em sua maioria, porém, os versos vem em uma estrutura mais lógica na exibição dos temas, o que, tenha certeza, pode causar experiências dolorosas ao ouvir o álbum. Aqui, a emoção não pede licença, ela entra sem bater. Momentos como “A minha dor transforma a calma em desapego/de tudo seu e o que foi nosso: Descaso” (em Quando o Mar não Vem) deixam confissões do nível de “Eu voltei/Não podia mais sonhar/que o meu amor/É maior que o dela” (Prometeu ao Santo) (um relato do retorno a um relacionamento que não vale a pena) parecerem leves.

Um dos maiores triunfos de Quarto Negro é conseguir dosar tudo isso muito bem com melodias e arranjos que não vão te deixar pra baixo. A dinâmica entre os timbres, com as guitarras, teclado e baixo dialogando sempre, ajuda a deixar as inserções de instrumentos de sopro e violoncelo com ainda mais valor, valorizando os espaços sem voz e dando um novo tom ao que acabou de ser cantado, como no fim de Quando o Mar não Vem (“A minha dor transforma a calma em ironia”).

Tenho pra mim que, se os melhores clipes são aqueles em que vídeo e música são interdependentes, o mesmo acontece com letras e o instrumental em uma canção, algo que Desconocidos faz muito bem do começo ao fim, principalmente em seu clímax com as duas faixas batizadas como Vesânia (palavra que significa “insanidade ou delírio mental). A primeira, que recebe o subtítulo Cabo Horn, vem com uma pegada tranquila no começo enquanto o vocal faz o apelo emocional cheio de saudades “A gente não sabe mais nada um do outro/um do outro/Mande notícias de lá/Um dia”, “Mande notícias mesmo que ruins”, até um intenso momento de transição em “E por loucura ou vaidade/Sob um lar perturbado/gritou: Me ouve’, quando as guitarras piram na melodia em uma atmosfera na qual se percebe facilmente o significado da música.

Menos evidente, porém ainda mais brilhante, é como isso se dá na segunda delas, Delírio Mútuo. Construída sobre uma estrutura Pop estrofe-refrão-estrofe-refrão, dá pra dividi-la ao meio e brincar de “jogo dos sete erros” com as diferenças entre as duas partes para conseguir passar o tal delírio do tema. Por exemplo, o primeiro refrão é crescente, seguindo a progressão da música até ali, enquanto o que encerra a faixa é pra baixo, um clima bem diferente. O mesmo acontece na letra: “E a agonia de ficar sempre aqui?” vira “… de estar sempre assim?” na segunda vez, “Sei que de um pouco de amparo eu me refaço” é cantado como “Sei com um pouco de amparo eu te desfaço” e “Não é normal, mas a gente continua” vem como “Não é comum”. É como tentar raciocinar com febre, é como tentar relatar um sonho.

Há muito o que ser dito sobre toda a parte instrumental do disco, principalmente por ter sido feito em uma época que todo mundo parece tentar fazer isso ou aquilo para se enquadrar em definições de estilo muito pré-determinadas e conquistar esse público e aquela crítica. Desconocidos vem de encontro a isso e entrega um trabalho excelente para amparar composições de um nível tão alto, independente do nome que elas ganhem. Porém, tenho pra mim que seu maior mérito é poder criar tanto espaço para interpretação, o que gera também tanta oportunidade de idenfiticação com as letras – e, convenhamos, isso sim é boa música.

Quando chegamos ao último verso do disco, é complicado não estar emocionalmente envolvido com o que ele oferece: “Não vá embora das fases que a gente já passou/Hoje eu já sinto um pouco a sua falta” vem como mais uma dor pra uma ferida que você não se lembrava (ou fingia que não sabia) que tinha. É um álbum que eu faço questão que eu, você e todo mundo que tiver alcance a ele ouça repetidas vezes, com chances nada exageradas de ser lembrado como um dos grandes trabalhos desta nossa geração. Contudo, são histórias de amor, de desentendimentos, de fracassos e principalmente de solidão que eu torço pra você e ninguém mais se identificar. É a vida, mas dói.

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ARTISTA: Quarto Negro
MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.