Que Fim Levou o Fade Out?

Um dos recursos mais característicos da indústria fonográfica tem sido cada vez menos utilizado

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Redescobri recentemente o álbum Lauryn Hill Unplugged No. 2.0, uma apresentação voz e violão muito cativante da cantora. Em uma das faixas, ela repete os versos diversas vezes até parar abruptamente pra dizer: “Se eu estivesse no estúdio, essa música teria um fade pra acabar”. Foi aí que percebi que ultimamente vejo cada vez menos músicas terminarem com o tal do fade out. Mas por que será?

Vasculhando a Internet, encontrei pistas, não respostas. Não há uma explicação muito clara nem mesmo sobre o porquê do recurso de diminuir o volume cada vez mais ter surgido. Temos hipóteses que tentam dar conta de sua existência (algumas me pareceram bem mais válidas do que outras) e faltava uma teoria para sua falta de popularidade em nossos dias. Bem, vamos tentar.

Sobre a existência do fade out, duas explicações me satisfazem, uma mais que a outra. A melhor delas é que as rádios de antigamente não tocavam singles com mais de três minutos (não que isso tenha mudado muito). Sendo assim, as gravadoras davam um jeito das faixas terminarem por ali perto do minuto três. Uma razão menor e altamente atrelada a essa é a dos DJs das rádios saberem quando trocar a música – assim que o volume começa a diminuir, chega a hora de trocar de música.

Isso teria acabado principalmente nos anos 1990, quando as bandas alternativas queriam colocar nos discos uma experiência mais orgânica, mais “honesta”, algo parecido com o que se ouvia nos shows, então decidiram deixar as músicas terminarem com um devido fim. Penso que dentro desse espírito e sem as limitações dos três minutos de duração (já que rádio deixou há muito tempo de ser o principal veículo de disseminação de música), o fade out foi perdendo seu papel e relevância.

Porém, antes de concluir com isso, há uma outra ideia sobre o recurso que me pareceu muito interessante. Com o fade out, a música “nunca acaba de verdade”. Ela vai diminuindo e dá espaço à próxima, mas fica uma sensação de infinitude, como se ela perdurasse ali em algum silêncio. É poético, sim. Já quis entrar em uma música e nunca mais sair dela? Eu já e sei que muitos leitores também.

Apesar disso, será que o consumo exacerbado de música que temos hoje permite que uma faixa “nunca acabe”? Me pergunto se a ansiedade de ouvir a próxima música que acabou de sair permitiria essa sensação de estar usando seu tempo com algo sem um fim definitivo. Em uma época em que as faixas estão maiores em sua extensão, talvez precisamos que elas tenham um fim muito delimitado. Talvez isso ajude na própria rotatividade de lançamentos, com uma vida-útil menor para as músicas. Mas isso já é assunto pra outra discussão.

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MARCADORES: Discussão

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.