Quinze Minutinhos com Jake Bugg

Voz rouca e respostas curtas ao telefone mostram um rapaz que já conhecíamos através das músicas

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“Hey, it’s Jake”, dizia a voz meio rouca, meio baixa do outro lado da linha quando eu atendi, e o pouquinho que Jake Bugg e eu conversamos, acima de tudo, reforçaram o quanto ele é aquele menino meio tímido, meio desbocado que percebemos em seus discos. Entenda, ele é bem na dele, mas não tem medo de falar o que está pensando quando tem a chance. Com respostas curtas, mas carregadas de honestidade, os quinze minutinhos pelo telefone passaram rápido enquanto ele repetia: “Não vejo a hora de ir ao Brasil”.

Com passagem marcada para vir ao país e se apresentar no Lollapalooza Brasil 2014, Bugg disse “eu sempre quis tocar no Brasil” e que “sempre ouvi que o público brasileiro é muito participativo nos shows”. Em sua apresentação, que acontece no segundo dia do festival, ele deve concentrar seu repertório em seu mais recente álbum, Shangri La, mas não deve deixar de fora alguns sucessos de seu trabalho de estreia, Jake Bugg.

Sobre o segundo disco, o músico de 19 anos comenta que “Eu acho que ele se parece mais com um ‘álbum’. O primeiro foi feito com músicas que eu gravei durante alguns anos, enquanto este segundo é todo feito com músicas compostas para ele”. Se essa é a maneira com que ele difere os dois trabalhos, mesmo o ouvinte menos atento conseguiria apontar o último como sendo um trabalho com um espírito mais roqueiro do que o Folk que predomina no anterior.

Parte da culpa disso é do trabalho com o produtor Rick Rubin, sobre quem Jake se anima ao falar: “Foi um prazer trabalhar com ele. Ele me ajudou a organizar minhas ideias e transformá-las em músicas, além de ter me cercado de músicos ótimos”. Ele conta isso com um pique um pouco maior do que responde as outras perguntas – e uma olhada em sua expressão “de gripe” (como apelidamos aqui na redação Monkeybuzz) dá uma ideia da energia do rapaz.

O músico tem sido descrito por alguns como um retrato da juventude inglesa e fiquei curioso pra saber o que ele achava disso. “Não posso falar por todos, cada um é diferente, cada um é único”, ele afirma, mas diz que entende como as pessoas o enxergam assim, já que ele escreve músicas sobre o que acontece em sua vida e na de pessoas ao seu redor e os outros se identificam com as composições.

Perguntei sobre videoclipes, já que o músico sempre costuma atuar neles, se isso era algo que ele curtia. “Eu não gosto de clipes”, respondeu e logo completou: “Desculpe a honestidade”. Respondi no maior “imagina, eu que agradeço pela sinceridade. Eu também não gosto de gravar” e ele ficou mais à vontade pra continuar dizendo que “são muitas horas de gravação, o dia começa muito cedo. Eu fico entediado”.

Começou a falar sobre como essas coisas são cansativas e eu perguntei qual era a pior parte de seu trabalho. Pensou um pouco e disse: “Desculpe, vou ter que ser sincero novamente” e eu já imaginei o que ouviria, “mas odeio dar entrevistas. Não gosto de ficar repetindo a mesma coisa sobre mim várias vezes e falar da minha vida”. Entenda que o rapaz diz todas essas coisas com aquela educação britânica que constrange qualquer um, por mais que diga coisas que deixaria a Rainha ruborizada.

Mas talvez ele tenha falado assim porque percebeu que meu interesse estava mais em sua sinceridade do que em alguma resposta bonitinha. Eu queria mesmo era ver o cara não que está ali na frente, amparado por toda uma produção, mas o que está por trás das músicas que lhe trouxeram tanto reconhecimento ao redor do globo. Quando ele reclamou de entrevistas, logo comentei que isso é chato mesmo e que no lugar dele eu me sentiria do mesmo jeito (já estou incomodado de falar tanto verbo em primeira pessoa nesse texto, imagina dias inteiros respondendo perguntas?). Ele riu e comentou que a entrevista “está sendo totalmente agradável, mas eu preciso ser honesto com você”. Concordo.

E a conversa entrou em um fade out pouco depois disso. Antes, comentei que se aqui no Brasil fosse muito cansativo, a gente daria um jeito dele descansar, ele respondeu rindo que queria conhecer o país e ir em bares de música ao vivo para conhecer as bandas daqui (já pode começar a pensar em dicas pra mandar pra ele). Por falar nisso, ele comentou que gosta muito de tocar com a banda que o acompanha nos shows, tanto que não se vê tocando com mais ninguém no mundo.

A impressão que ficou foi de um guri tranquilo, que gosta de fazer música e tem a sorte de poder viver disso. Algumas revistas de meninas tentam transformá-lo em “gatinho”, enquanto outros teimam em achar que sua qualidade reside apenas na pouca idade (isso porque não quero nem citar as comparações preguiçosas que chovem em cima do rapaz). Caso seu interesse seja mais musical do que em um personagem, fica minha sugestão de ouvir Shangri La e deixar os outros falando sozinhos. É o que ele tem feito.

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ARTISTA: Jake Bugg
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.