Rebobinando Lucy Dacus

Como assistir à própria vida permitiu que a cantora norte-americana fizesse as pazes com ela mesma e criasse o excelente “Home Video”, projeto mais intimista de sua carreira

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Fotos: Ebru Yildiz

Com uma meia-luz vinda do lado esquerdo da janela iluminando os cabelos pretos e o rosto perolado, Lucy Dacus se ajeita com empolgação para procurar o baralho de tarot na mesa à sua frente: “Tento tirar uma carta todos os dias, mas como ontem não escolhi, vamos ver agora”. Ela arruma a pilha de cartas com as pontas dos dedos e aponta para a câmera do Zoom com um sorriso terno: “6 de Copas”, me revela. “É uma carta sobre infância e nostalgia. Ontem foi o aniversário do meu irmão mais novo”. Por coincidência, forças esotéricas ou no que você desejar depositar a sua fé, a carta não poderia ter feito mais sentido quando penso no motivo pelo qual estávamos conversando.

No dia 25 de junho, Lucy Dacus lançou pela Matador Records o terceiro disco de estúdio de sua carreira, Home Video. Como o próprio título já entrega, “vídeo caseiro” em português, a artista tirou a poeira dos VHS dos pais na última visita à cidade natal Richmond, na Virgínia, em junho de 2019, e encontrou nos registros a inspiração para o novo álbum: a própria infância. “Percebi que eu sorria muito. Fiquei tentando adivinhar o que eu estava pensando na hora. Mas confesso que também foi um pouco constrangedor. Foram sensações muito intensas”, relembra a cantora e compositora do que sentiu ao assistir as fitas gravadas pelo pai.

Autobiográfico, sensível, denso e honesto, Dacus fez de Home Video um breve retrato de seus dias antes de ter sido recrutada para escolher entre os 20 contratos com diversas gravadoras para lançar o disco de estreia, No Burden, em 2015. Quem foi Lucy Dacus quando estava com medo, com raiva, intranquila, na escola, no acampamento da igreja, com os amigos e sob o olhar cerrado dos pais — e de Deus? Ao longo das 11 faixas, a artista se debruçou nas memórias de suas descobertas pessoais e sexuais, desejos secretamente homicidas, e, principalmente, no sentimento de mudança que lhe acometeu ao longo dos seus 26 anos, como quem escreve em um diário sem jamais ter a intenção de alguém um dia ler.

Nesse caso, por sorte, a artista buscou as próprias anotações e decidiu compartilhar os seus antigos anseios para uma gama de fãs — e, em breve, como ela mesma espera, para plateias imensas. “Todo mundo que realmente me conhece, perguntou se eu tinha certeza que queria compartilhar tantas verdades e partes tão íntimas e sagradas da minha vida que ninguém mais conhece. Sempre digo que gosto de ter a minha privacidade e que gostaria de valorizá-la mais, porém, ainda assim, estou contando essas histórias que são intensamente pessoais”.

Afastada das guitarras mais ásperas presentes no primeiro lançamento, Dacus embalou seus sentimentos mais sinceros em canções com um vocal sóbrio e quente, linhas de piano, teclados, violinos e cordas singelas. As composições, charmosas e interessantes desde os primeiros singles, se mostraram ainda mais pessoais e potentes. “Quando eu sinto e escrevo algo, não tenho vontade de fazer alterações, porque essas coisas parecem ter um tipo de força própria”, explica. Com cautela, ela entra em todos os tópicos de sua vida e os analisa com profundidade — assim como responde cada uma das minhas perguntas. Leia a abaixo a entrevista para o Monkeybuzz:

 

Acredito que para boa parte das pessoas é bem difícil encarar o passado e reviver algumas memórias. Como foi esse processo para você? Você acredita que teve uma boa infância?

Recentemente, tive uma conversa com a minha mãe sobre isso, porque me perguntaram se eu achava que tive uma boa infância e eu hesitei. Ela me ligou e disse: ‘Não faça pausas, você teve uma infância boa. Você deveria saber disso’. Então, vou te responder o mais rápido possível [risos], eu tive uma boa infância, mas você sabe, a vida não é perfeita. Acabei aprendendo lições difíceis durante a minha vida.

Quando voltou para a sua cidade natal, você disse que foi difícil entender que as coisas haviam mudado. Mas e você? Como você acha que você mudou?

Acho que uma das partes mais difíceis foi perceber que eu havia superado a minha própria ideia de vida. E não digo isso no sentido de ficar conhecida e ter uma base grande de fãs, mas de superar as questões da minha vida à medida que as coisas envelhecem e deixam de ser o que elas eram. Eu tinha amigos que queriam coisas diferentes do que eu queria, então não nos conhecemos mais. Por um tempo me senti muito triste. Mas também muito feliz por estar onde eu estou. Acho que isso faz parte da vida.

Amizade parece ser algo muito importante para você, né? Que tipo de amiga você diria que é?

Eu sou muito defensora [risos]. Sinto que isso é um aceno para mim mesma, mas feito para outras pessoas. Por exemplo, se alguém ofender o meu amigo, eu vou atrás dessa pessoa [risos], talvez nem tanto, mas muitas vezes digo aos meus amigos: ‘Você merece algo melhor’ ou ‘Você não precisa aturar esse tipo de situação’. Gostaria muito que os meus amigos tivessem autoestima para ficarem sozinhos, porque acho que eles aguentam um monte de coisas de seus parceiros românticos. Mas enfim, quero ser sempre uma boa ouvinte e sentir que as pessoas estão confortáveis me contando as coisas. E sempre foi assim, quando eu estava na escola, no ensino fundamental e médio, as pessoas me tratavam como um “receptor secreto”, e às vezes pessoas que até nem me conheciam tão bem, mas que sabiam que eu era capaz de guardar um segredo. Então eu lembro de ouvir o drama das pessoas e todas as besteiras delas, porque era uma boa ouvinte. Falando assim, parece egoísta, mas só gosto de saber como as pessoas se sentem.

Em relação à escrita, você sente que é mais fácil escrever de um lugar feliz ou de tristeza?

Infelizmente, tristeza. Gostaria que houvesse mais músicas sobre felicidades que não parecessem bregas. Tento escrever sobre felicidade e gosto, mas bons sentimentos vêm de forma diferente. Quando você está excessivamente emotivo, é mais fácil de escrever, porque você tem dúvidas. Sinto que a felicidade é uma espécie de simplicidade, onde você não questiona as coisas e a tristeza é o momento em que você faz muitas perguntas. Não que seja algo como felicidade X tristeza. Mas a confusão é o sentimento mais construtivo e informativo para mim.

E quando você não está inspirada, quem ou a que você recorre?

É engraçado, não tento me inspirar porque não gosto de forçar nada, então quando não estou me sentindo inspirada, parece que a vida é normal e faço outras coisas como andar de caiaque, jogar tênis com os meus amigos ou assistir algum programa de televisão idiota. A inspiração está por toda parte, quando ela vem, mesmo que você tente fugir, ela acontece de qualquer maneira. Então não me vejo “tentando tanto”.

“Gostaria que houvesse mais músicas sobre felicidades que não parecessem bregas. Tento escrever sobre felicidade e gosto, mas bons sentimentos vêm de forma diferente. Quando você está excessivamente emotivo, é mais fácil de escrever, porque você tem dúvidas. Sinto que a felicidade é uma espécie de simplicidade, em que você não questiona as coisas e a tristeza é o momento em que você faz muitas perguntas. Não que seja algo como felicidade X tristeza. Mas a confusão é o sentimento mais construtivo e informativo para mim”

Você tem um lugar favorito na hora de compor músicas?

Eu gosto muito de caminhar. Escrevo quando não estou em nenhum lugar específico, geralmente acontece quando viajo de trem ou de avião, até mesmo no carro. Mas principalmente caminhando.

Seu disco fala bastante sobre a sua questão religiosa e li algumas entrevistas em que você menciona que não se considerar mais uma pessoa cristã. Quanto tempo você demorou para entender quem você realmente é e o que era apenas influência de uma infância inteiramente cristã?

Não sei se ‘Quanto tempo demorou’, porque acredito que ainda não terminei e não sei se algum dia vou terminar de descobrir quem sou, principalmente porque estou sempre mudando, eu gostando disso ou não. Mas o cristianismo, sem dúvidas, teve um grande impacto em mim. Ele foi toda a minha juventude, até eu completar 19 anos. Sou grata por algumas coisas, como ser ensinada sobre perdão, paciência, bondade e coisas assim. Mas um monte de outras lições realmente me atrapalharam e me impediram de perceber que eu não era estranha e também me impediram de fazer julgamentos de outras pessoas. Estou me livrando disso agora, porque eu não seguro mais essas coisas. Mas, realmente, acho que as questões centrais sobre como a natureza do universo, a divindade, como viver, como morrer e como tratar as pessoas ainda estão muito presentes em mim.

E em tempos difíceis, o que te traz esperança?

Minha avó tem 93 anos, ela teve coronavírus e sobreviveu. Recentemente, eu estava falando com ela enquanto ela ainda se recuperava e eu me senti muito mal, fiquei emocionada e querendo chorar quando perguntei por que depois de tudo que ela viveu, ela ainda precisava passar por isso. Foi quando ela me disse: ‘Querida, é sempre o fim do mundo’. E eu pensei: ‘É, sempre é o fim do mundo”. Então ela me lembrou que tenho que viver a minha vida da maneira que eu acho que tenho que viver, lutar pelo o que eu acredito e acho que vale a pena defender, porque, afinal, o mundo sempre está no fim.

Você consegue listar três coisas essenciais que fazem ser o Home Video ser o que é?

Hmmm, com certeza, os vídeos caseiros do meu pai. Ele passou muitas horas me gravando quando eu era criança, então, os vídeos são a inspiração para muitas das coisas que eu pensei e também para o título do disco. Só esse impulso dele documentar me deu muito do que eu precisava para fazer o Home Video. A segunda coisa são os meus amigos com quem eu gravo, nós somos amigos desde que eu tinha 15 anos e fizemos tudo juntos. Principalmente porque essas músicas são tão pessoais, mas me senti muito confortável de fazê-las com quem eu trabalho, porque conheço todo mundo muito bem. A terceira talvez seja os meus próprios diários. Tenho eles desde os sete anos, e, embora eu não gostasse de relê-los, sempre que eu tinha uma lembrança eu recorria a eles e cruzava referências que eu lembrava. Os diários me deram os pequenos detalhes que tornaram as músicas tão especiais.

Você saiu da faculdade de cinema para se dedicar à música. Você acredita que o seu conhecimento, de algum jeito, te ajudou na hora de fazer música?

Essa é uma boa pergunta. Sim, eu acho que aprender sobre como contar histórias cinematográficas, me ajudou muito. Na hora de criar um álbum, acho que dá para ter um pensamento bem parecido com o cinema. Se você está editando um filme, você tem que pensar em uma maneira de prender a atenção das pessoas e fazer com que elas gostem do filme. Como escritor, você precisa fazer com que o enredo vá para frente. Talvez um disco não tenha um enredo do mesmo jeito que um filme, mas sonoramente, pensei muito sobre a tracklist antes mesmo de começar a gravar qualquer música. Eu pensava: ‘Ok, qual música precisa estar na sequência de algo acelerado e quando vou precisar de um momento de silêncio — e ainda assim fazer com que as pessoas fiquem interessadas?’. Então há músicas como “Tripe Dog Dare”, que parece um curta-metragem. Ela tem um cenário, personagens e desenvolvimento. Eu adoraria um dia fazer filmes. Mas também gosto do fato que simplesmente posso fazer música estando sozinha.

Além de cinema e música, você é grande fã de livros, certo? Você tem algum livro para recomendar no momento?

Com certeza. Tem um livro chamado A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, é um realismo mágico. E eu amo, amo porque é simplesmente bom. Mas também adoro como ela muda da primeira pessoa para a terceira pessoa ao longo do livro. Eu não tinha lido nada parecido. E sinto que gosto de fazer isso em músicas nas quais às vezes estou falando da minha perspectiva e às vezes fico meio de fora falando sobre outras pessoas. Acho que aprendi muito com ela.

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ARTISTA: Lucy Dacus