Redescubra: Dinosaur Jr.

Com uma fórmula quase inalterada, esse trio vem fazendo sua música a quase 30 anos e mostrando que não há a necessidade de se reinventar a cada disco para que ele seja relevante no cenário atual

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É impossível pensar em música Alternativa/Indie dos anos 80 e 90 sem pensar em Dinosaur Jr. O trio de Massachusetts, ao lado do, outro grande expoente da época, Sonic Youth, ajudou a definir a sonoridade alternativa daqueles anos, fazendo uma música realmente alta, distorcida, cheia de fuzz e feedbacks, mas sabendo explorar tudo isso com uma musicalidade impar. A banda, que em seus quase 30 anos de carreira acumulou dez discos, criou também uma “fórmula”, que se mantém até hoje quase inalterada, porém que se mostra tão potente e funcional quanto em seus primeiros lançamentos.

Além do volume, o trio tem muito mais o que mostrar. A guitarra do frontman J Mascis tem uma incrível dinâmica criando belas harmonias e riffs, além dos solos espetaculares que só ele sabe fazer. Outro ponto inconfundível em qualquer obra de Dinosaur Jr. é o vocal rouco e adocicado de Mascis, que parece cantar de um jeito tímido, mas que mesmo assim tem uma potência única. Na verdade, parece que sua forma de cantar só tem melhorado com o passar dos anos, o que pode ser comprovado em I Bet On The Sky, o mais recente lançamento do trio.

Mas se hoje a banda é considerada um pilar do Noise Rock, assim como uma das grandes referências sonoras dos anos 90, saiba que vários degraus foram caminhados para chegar a esse patamar e que se hoje o trio carrega em seus cabelos brancos a grande experiência que tem, nem sempre foi assim.

J Mascis, Lou Barlou e Murph se juntaram em 1984, ainda, sob o nome de Dinosaur. No ano seguinte, o trio já tinha boas músicas em baixo do braço e não tardou em gravar seu primeiro disco. O álbum, que recebe o mesmo nome da banda (antes da troca), foi gravado em um pequeno estúdio caseiro de sua cidade natal e, curiosamente, é o que mais destoa dos outros lançamentos do grupo. Com influências que vão do Hardcore ao Folk Rock, o disco incorpora uma serie de sonoridades que juntas pareciam estranhas não só para a época, mas também para quem, hoje em dia, está familiarizado com a “fórmula Dinosaur Jr.” e não conhece seus trabalhos prévios. Mas, ali, parte desse formato já se estabelecia.

Em You’re Living All Over Me(1987), seu segundo trabalho, elementos como o volume incrivelmente alto, pedais de fuzz e high gain em suas capacidades mais altas e os vocais e letras de J Mascis começavam a se mostrar ainda mais poderosos do que o som apresentado em seu debut, portanto esse foi um disco decisivo para o futuro da banda. A combinação entre guitarra incrivelmente alta e distorcida, baixo sucinto e de poucas notas e uma bateria ritmada que tinha como única função pavimentar o caminho pra a guitarra e voz de Mascis apareceram ainda mais fez com que esse disco e, por consequência, o trio, se destacasse como um dos grandes nomes da cena alternativa. Foi nessa época que o grupo acrescentou o “Jr.” em seu nome, devido a uma ação judicial promovida pela The Dinosaurs.

Os próximos lançamentos viriam a ser os trabalhos mais famosos do grupo. Bug(1988), Green Mind(1991) e Where You Been(1993) foram, sem dúvidas, discos que contribuíram para a popularização da banda, mas que trouxeram também vários conflitos internos. Após o lançamento desses álbuns, Mascis era o único membro original restante e, durante esses anos, gravou guitarra e bateria sozinho – baixo e alguns vocais adicionais eram feitos geralmente por convidados. Essa empreitada quase solo do frontman durou mais alguns anos e, em 1997, após a turnê de Hand It Over, J declarou o fim do grupo.

Colocando um sorriso no rosto dos fãs que haviam ficado órfãos, quase 10 após o “fim”, a banda se reúne para alguns shows. A reunião, além de render essas apresentações com a formação original, rendeu também a volta do grupo, que em 2007 gravaria um disco com músicas inéditas, mas no mesmo formato roqueiro e barulhento de sempre. Com fôlego e força renovada, o trio, que agora carregava em seus cabelos brancos o peso da experiência e a expectativa de fãs de longa data por um novo trabalho, retornou triunfante e, de certa forma, mais seguro de si. J Mascis e companhia nunca estiveram mais confiantes em sua sonoridade e, mesmo que Beyond não traga novidades à velha formula, o álbum é uma amostra vigorosa de todo o poder que ela tem.

Se ao invés de Beyond a banda tivesse lançado Farm, poderia ser que as pessoas se assustassem, até mesmo os fãs de longa data. O disco se mostra mais vigoroso e abrasivo do que nunca, mas é igualmente melódico e potente como seus antecessores. Aqui, se vê alguns riffs e solos realmente duros e pesados, além da distorção que parece levar o que já vinha sendo feito um passo adiante. Portanto, Farm pode ser considerado como o álbum mais pesado de toda sua carreira.

O mais novo lançamento recebe o nome de I Bet On Sky, no qual o grupo basicamente continua a fazer o que sempre fez. Sem nenhuma grande novidade, a banda traz algumas ideias novas, mas nada que seja realmente revolucionário. E isso, acima de tudo, mostra que uma boa “fórmula”, uma realmente consistente, sobrevive ao tempo e não precisa de constantes reinvenções para se adaptar ao que está acontecendo na cena atual. O segredo do Dinosaur Jr é apostar todas as suas fichas no que melhor sabe fazer, então não é à toa que continua há tanto tempo como referência à nova geração.

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ARTISTA: Dinosaur Jr.
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts