Relembre: Straight Edge e Krishnacore

Jovens do início da década de 80 uniram seus ensinamentos espirituais com o Hardcore para viver uma vida livre dos vícios

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O movimento Punk e o Hardcore são facilmente associados, por conta de sua origem, a um estilo de vida desregrado, anárquico e rebelde, e, por isso mesmo, remetem a todos os tipos de uso (e abuso) de, digamos assim, substâncias prejudiciais. Se é que você me entende. Ambos evocam um modo agressivo de lidar com a vida, que envolve todas as esferas, desde a ingestão de todo tipo de comidas e bebidas, o uso de drogas, até a maneira como você se relaciona com as pessoas à sua volta, e enfim, com o mundo.

Todavia, na contracultura desta contracultura, surgiu, no final da década de 70 e início dos anos 80, um estilo que, apesar de ter suas raízes musicais compartilhadas (ou seja, faziam o mesmo uso dos riffs rápidos de guitarras distorcidas e vocais gritados) levavam seu estilo de vida no sentido oposto. Essa nova vertente preferia abster-se do uso de qualquer tipo de droga (tudo, na verdade, começou com o álcool, mas explico melhor depois), postura o que levou, consequentemente, a um questionamento mais amplo, pondo em cheque a adoção de qualquer hábito que poderia ser visto como “vício” em determinado nível, como por exemplo, o consumo de carne e a prática do sexo casual.

Pode parecer estranho, mas faz sentido. O uso de drogas sempre foi socialmente aceito, e muitas vezes, largamente incentivado pelas grandes corporações. Temos o cigarro e álcool como os maiores expoentes deste exemplo. Porém, enquanto os punks originais viam no abuso destas substancias, e também no uso de drogas pesadas, por assim dizer, uma oportunidade de fuga da realidade opressora do sistema vigente e de choque da sociedade conservadora (já que estamos aqui, vou usar o léxico próprio), a outra vertente via na negação absoluta das normas sociais, seus excessos e hedonismos, a sua forma de resistência e contracultura. Estes segundos, auto defensores do corpo limpo e da consciência lúcida, anti-vícios (e demais padrões auto-destrutivos), eram chamados de Straight Edge.

Straight Edge

Em suas origens, o Straight Edge, ainda um pouco distante de se tornar uma filosofia para a cena da época, era apenas um estilo de vida defendido pelos integrantes da banda de Washington, Teen Idles, que não eram doutrinários e ainda não pregavam seus ideais através de suas letras. Quando os Teens Idles se dissolveram, os integrantes remanescentes formaram o Minor Threat, o maior expoente do movimento e centro irradiador de todas as ideias. Logo a filosofia de suas músicas começou a proliferar para um grande número de jovens que se identificavam com suas ideias e, em pouco tempo, formou uma cena e um estilo consolidados. Tal qual o cabelo moicano dos punks, o principal símbolo o Straight Edge era o X preto, geralmente utilizado na mão. Duas linhas retas que formam quatro ângulos retos. Os principais pontos de sua filosofia eram, conforme já dito, a abstenção total do uso de drogas, que logo evoluiu para outros tipos de vícios, como o consumo de carne e a prática do sexo casual, chegando ao uso da cafeína e remédios alopáticos. Ah sim, enquanto muitos punks faziam parte de gangues de rua e mantinham um estilo de vida violento (veja a própria história do punk aqui em São Paulo na década de 80, os Straight Edge eram, em sua grande maioria, adeptos da não-violencia.

Tudo começou quando os Teen Idles foram chamados pra tocar no Mabuhay Gardens, de São Francisco. Ao descobrir que todos os integrantes eram menores de idade, o dono do local marcou um X de caneta preta na mão dos meninos a fim de que ninguém vendesse bebidas alcoólicas para os mesmos por engano. Ao voltar para Washington, a banda sugeriu às casas de shows locais a mesma estratégia. Em pouco tempo, não só a banda e os menores de idade dos shows portavam o X na mão, mas também todos aqueles que simpatizavam com o estilo de vida drug-free. O Teen Idles lançou um EP em 1980, chamado Minor Disturbance, do qual a capa é a fotografia das costas de duas mãos com a marca. A marca registrada do “x” se mantém na abreviação do nome do estilo sXe, e deu origem também, por associação, à abreviação do Hardcore, hXc.

Minor Threat, a grande banda responsável pela fundação do movimento e sua disseminação foi também a que cunhou, indiretamente, o termo, por conta do nome de uma de suas músicas.

O movimento foi muito amplo, embora sempre tenha permanecido na cena underground, e resiste até hoje. Outros grandes nomes são State of Alert, Youth of Today, e The Faith. A lista, na verdade, é gigantesca, e, com certeza, ainda existem muitas bandas atuais que mantenham o mesmo estilo de vida e defendam o estilo musical. Não é minha intenção falar sobre eles aqui, e eu não seria capaz de fazê-lo com fidelidade. Muitas destas atitudes estão hoje em dia naturalmente incorporadas pela cena Hardcore, veja o movimento da Verdurada de São Paulo, por exemplo. Enfim, vou me limitar à origem e explosão da cena em sua época. Pra continuar, vamos falar um pouco mais sobre uma sub-vertente ainda mais curiosa, o Krishnacore.

Krishnacore

Com um estilo de vida que visava à abstenção de vícios, vegetarianismo, direitos animais e anti-capitalismo, me parece natural que algum tipo de despertar de consciência espiritual viesse consequentemente. E foi o que aconteceu. Não demorou muito até que Ray Cappo se convertesse ao movimento Hare Krishna (que é associado ao Hinduísmo) e passasse tais ensinamentos por sua música. Ao sair de sua antiga banda, a Youth of Today (que, aliás, foi a grande responsável pela inclusão do vegetarianismo na cena sXe) fundou o Shelter ao lado do guitarrista Vic Dicara.

Que introdução! Pela primeira vez os ensinamentos Védicos viriam a ser usados direta e assumidamente nas músicas do gênero. Desde o tema das letras, até o uso mais descarado da arte Hare Krishna dos encartes, assim como trechos de mantras, como é o caso da música acima.

Muita gente nota certa semelhança entre o estilo dos vocais de Ray Cappo e Zack de La Rocha. De fato, antes de se unirem sob o Shelter (perdoem o trocadilho), o guitarrista fazia parte de outra banda, Inside Out, ao lado do famoso ativista. Após a dissolução, Dicara formou Shelter ao lado de Cappo, enquanto Zack de La Rocha viria a formar a mundialmente famosa Rage Against the Machine.

Dicara foi uma figura muito importante. Com o fim da Inside Out, que viria a dar origem ao Rage Against the Machine, e após ser influenciado pelos ideais Védicos dos Hare Krishna por conta de Ray Cappo no Shelter, formou a sua própria banda, 108 (nome que é uma provável referência aos 108 nomes dos deuses Hindus).

Com muito mais influências do Metal do que o Hardcore melódico da antecessora, que usa os ensinamentos Hare Krishna como background poético para suas letras, 108 acabou se tornando muito mais radical e doutrinária. Por exemplo, enquanto o Shelter usa em sua música mais famosa, Here We Go, as letras “Just see he uses love for sex, and sure she uses sex for love […] If we place a blindfold on our eyes, iron and gold appear the same”, 108 poupa os rodeios e passa suas crenças nos ensinamentos de forma direta pelas letras bradando em sua Thorn: “sex is suffering!

O cenário estava armado e o terreno propício para uma série de outras bandas aparecerem: desde os veteranos dos Cro-Mags, até as bandas (sim, ainda tem mais) influenciadas pro Vic Dicara como Prema, os nomes se estendem à ótimos projetos como Worlds Collide, Govinda Hardcore Project e Baby Gopal.

Ray Cappo se tornou instrutor de Yoga e Vic Dicara astrólogo védico, o que é quase um clichê. De qualquer modo, foram os grandes responsáveis por expor um cenário muito específico e diverso do que acontecia na cena musical de sua época, e assim expandir os horizontes de muita gente jovem de modo um pouco mais profundo, para além da revolta do Hardcore habitual. Independentemente dos méritos (ou da falta deles, não vem ao caso) de suas religiões específicas, aí está uma atitude muito interessante (mesmo pra quem não se identifica com seus ideais) que sobrevive até hoje…

Hare hare!

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.