Repara Bem no que Não Canto

2014 e tem gente que ainda não presta atenção em letra de música. A essa altura do campeonato, não escutou o que ouviu. Passa pela vida, toca, dança e canta sem entoar, repete – não proclama – versos decorados pela repetição e pela empatia. Como se onde houvesse musicalidade não fosse necessário significado e, para o som, tanto fizesse qual palavra.

Há certa verdade nisso, já que o propósito pode ser apenas música pela música – combustível para o baile, pano de fundo em histórias na tela ou uma espécie de decoração de ambientes onde você estiver. Porém, se o intuito é poesia, se desatentar à lírica vem a ser desperdiçar a experiência que a obra oferece.

Será que é preciso aprender a ler o que se ouve? Ou, talvez, seja mesmo culpa da falta de atenção que impera em nosso tempo?

Fábrica – Grão

Desde sempre, música comunica. Pense nas cantigas da sua infância mais distante, com personagens em ações fabulosas. Com lição de moral ou não, elas contavam historinhas e divertiam não só por seu aspecto lúdico, mas porque você, no geral, sabia o que estava cantando.

Com o passar do tempo, parece que as canções continuam servindo como diversão, mas saber o que a letra diz perde importância. Talvez até pelo fato do mercado musical oferecer muitos produtos importados e nós termos primeiro aprendido as músicas e só depois a língua estrangeira, nos acostumamos a deixar as palavras passarem desapercebidas mesmo quando somos nós que as cantamos.

O mais interessante é que essa própria indústria, que desgasta o valor da lírica, é a mesma que não deixa nenhuma de suas mercadorias vir sem letras. Pense aí em um grande sucesso comercial plenamente instrumental. Mesmo no âmbito das músicas feitas exclusivamente para as pistas, as de maior reconhecimento no mainstream trazem, senão frases, pelo menos uma palavra que torne a faixa reconhecível no mar de lançamentos e reproduções que é a produção musical hoje.

Porém, voltemos à poesia, às canções cuja alma se divide em outra parte que não a instrumental. Trazem histórias, reflexões, experiências. Falam do autor, da vida, da política, da saúde e da doença, de mim e de você. Às vezes, elas surgem simultâneas ao momento em que as notas surgem na tablatura, ou ganham só depois o acompanhamento musical, mas o fato é que a palavra é essencial a essas músicas.

Não é tão difícil assim notar uma música com letra boa. Não me refiro a avaliações técnicas de rimas ou frases, muito menos de gosto. Quando algo foi escrito com sinceridade, acaba por carregar parte da verdade do autor de modo que o ouvinte compreende o ponto de vista cantado mesmo sem se identificar com o que se escuta. É a dor de algo nunca vivido por ele ou mesmo uma ideologia à qual não se empresta tanta empatia, porém é tudo compreendido.

Mais ainda é o que acontece com que não é cantado – ao menos não com palavras. Uma música bem escrita sabe utilizar todas as vozes nela (seja as dos cantores ou as dos instrumentos) a favor de sua poesia. Tom sobe e desce, cadências mudam e ritmos oscilam para dar ênfase ou contar a progressão da história, mas também os timbres comunicam.

É aí que a harmonia disso tudo revela-se como a arte que precisamos escutar. Quer a faixa como um todo sussurre ou berre, nos lembramos que a música é uma experiência de imersão e envolvimento. A letra poderia ser meramente lida, mas é no ambiente criado na companhia dos instrumentos que podemos mais do que entendê-la: Senti-la. Repara.

Para ouvir e entender melhor

(Note que todos os discos são recentes, para evitar qualquer saudosismo infundado, e que todos são em português, para que ninguém tenha qualquer desculpa)

_Apanhador Só – Antes que Tu Conte Outra
_Baleia – Quebra Azul
_Castello Branco – Serviço
_Cícero – Sábado
_Fábrica – Grão

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.