Retrô É o Novo “Novo”

“Vintage”, “velho”, “saudosista” – pode chamar do que quiser, mas saiba que o passado está e sempre esteve presente na música e é a partir dele que se cria o som de agora

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Fotos: Foxygen

Esse não é um fenômeno nada atual, mas, principalmente hoje em dia, a música Pop se alimenta de seu passado. Mesmo que haja algum tipo de “reinvenção”, ela é feita sob alicerces já existentes e nunca (ou melhor, raramente) abandona o que já foi feito previamente. Além desse fato, há também o constante crescimento da cultura “retrô”, que cultua e busca no passado as bases para criar o novo, sem medo de se inspirar tanto em algo a ponto de soar quase como uma cópia.

O jornalista Simon Reynolds retrata muito esse novo cenário em seu livro Retromania (ainda sem tradução para o português), no qual discute entre outros tópicos o fetichismo ao passado, o sentimento nostálgico e os ciclos da música Pop. A obra se dedica ao passado e mostra como ele conduz a música contemporânea, assim como os possíveis rumos que ela tomará daqui a algumas décadas.

Mas isso nos indica que a música boa foi feita no passado e que hoje em dia temos meras copias do que já foi feito? A resposta é: Não, mas talvez este seja um sinal que a música Pop nos formatos que nós conhecemos não tenha mais para onde se expandir e que tenha que se reciclar para tentar alcançar novos caminhos.

Isso fica nítido quando olhamos estilos já consolidados, como o Rock, por exemplo. O gênero já acumula muitos anos de vida e, por toda a sua trajetória, já se ramificou em diversos subgêneros. Todos eles, por mais divergentes que fossem, partiram do mesmo embrião e guardam em seu DNA os genes de seu ancestral em comum. Rock Psicodélico, Punk, Progressivo, Hardcore e tantos outros foram criados sob a mesma base do Rock & Roll dos anos 50 – é claro que cada um a seu modo e trazendo para si outras inspirações e contemporaneidades, mas sempre mantendo sua base quase inalterada.

Ainda citando o Rock como exemplo, vimos que ao longo sua existência ele se ramificou e expandiu. Agora estamos presenciando um período em que ele, assim como uma mola, sofre o processo inverso. O estilo se encolhe cada vez mais, unificando diversos subgêneros para a partir disso criar novas misturas e sonoridades que, por mais que sejam velhas, soem como novas. Ariel Pink, Alabama Shakes, Foxygen, Tame Impala, Ty Segall e outros tantos nomes da nova safra de artistas vem se destacando exatamente por recriarem o passado e trazê-los ao presente sob uma nova cara. Isso aconteceu nos últimos 60 anos e acontece ainda hoje, porém com uma velocidade incrivelmente maior.

Talvez o maior questionamento que surja a partir disso é quanto à criatividade dos artistas. Será que essa reciclagem envolve algum esforço ou é somente um apanhado de tudo o que vimos surgir na última geração com uma cara ligeiramente diferente? Aí a reposta é um pouco mais delicada. É claro que existem artistas que botam suas almas nessas recriações e são eles os que se destacam e conseguem de soar como “novidades”; por outro lado há também os que se preocupam simplesmente com a tal estética retrô e em soar desta forma por puro fetiche ao passado. Quanto à criatividade, o primeiro grupo claramente se sobressai ao segundo, mas ainda assim há espaço para todos no vasto e fragmentado mercado fonográfico.

Se você revisitar outros estilos dentro da música Pop, vai perceber que não é só o Rock que passa por isso. Dance, Música Eletrônica, R&B, Hip Hop e outros tantos gêneros estão sujeitos ao mesmo ciclo de expansão e contração e como tal vão passar (ou já passaram) pelo ponto máximo do ciclo e em algum momento a mola irá contrair novamente. Portanto, até que a roda seja reinventada (ou nosso caso a música) se inspirar no passado e recria-lo é a melhor maneira de continuar sua produção.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts