Revisitando Meus Clássicos: Amelinha – Porta Secreta (1980)

“Eu sou tão sensível que dói”; cantora fortalezense relembra as histórias por trás de seu terceiro disco, gravado no embalo do sucesso em um festival e com colaborações de nomes como Zé Ramalho, Robertinho de Recife e Moraes Moreira

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Fotos: Reprodução

“Quem tá antenado sabe que tem música que não tem validade, é atemporal”, sentencia Amelinha, com uma taça de chopp na mão, do outro lado da chamada de vídeo. Hoje com 70 anos, a cantora e compositora fortalezense aceitou, a pedido do Monkeybuzz, se debruçar sobre seu terceiro disco, Porta Secreta (1980). Além da popularidade da faixa “Foi Deus Quem Fez Você”, 2ª colocada do Festival MPB 80, da Rede Globo, e consequentemente um sucesso duradouro das rádios, outro grande marco do álbum é a química da direção artística: Zé Ramalho convocou compositores brilhantes e músicos com intenções sonoras diversas, e tudo foi amarrado por uma poderosa intérprete, Amelinha. Porta Secreta é o encontro da música cearense com composições não-tradicionais e guitarras progressivas, sem permitir, no entanto, que esses elementos descaracterizem sua identidade – trata-se do encontro que não sucumbe, emerge.

Primeiro, Amélia Collares nem botava fé que cantar se tornaria sua profissão. Nesse sentido, devemos um agradecimento ao Fagner, que não somente a incentivou a buscar seu lugar no mundo artístico, mas também a apresentou para muitas pessoas, lugares e a gravadora que apostou em seus primeiros trabalhos. Segundo Amelinha, a amizade entre os dois começou em 1971, quando ela conheceu os artistas que ficaram conhecidos como “Pessoal do Ceará”. Segundo Pedro Rogério, Doutor em Educação responsável pela dissertação Pessoal do Ceará: formação de um campo e de um habitus musical na década de 1970, os jornalistas da época adotaram a nomenclatura após o lançamento do disco Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto Na Viagem (1972), que tem como subtítulo “Pessoal do Ceará”. Além de reunir figuras importantes do cenário musical da época, o disco consolida uma estética que há uma década vinha sendo construída e começava a entrar na disputa por espaço na indústria fonográfica. Participaram do disco-marco Augusto Pontes, Dedé Evangelista, Ednardo, Fagner, Ricardo Bezerra, Rodger, Tânia Araújo e Téti.

“Eu não tinha essa noção comercial, achei ótimo ter gravado um disco; olhava para ele, no mesmo lugar, toda noite antes de dormir, como se fosse um filho”, conta Amelinha. A gravadora pressionou e, após Frevo Mulher (1978), surge Porta Secreta (1980). Neste terceiro trabalho, o amadurecimento do perfil da cantora soma-se com a força artística do Pessoal do Ceará, o que redunda em uma produção envolvente, divertida e vibrante. Entre colaborações de Moraes Moreira, Toquinho e Vinicius de Moraes, produções de Zé Ramalho, Robertinho de Recife e Mauro Motta, uma coisa é certa: Porta Secreta pede uma degustação atenta. Amélia brinca que é como uma Caixa de Pandora, que se abre sem saber o que espera do outro lado – o mais provável é que se ouça no fundo a juventude de Amelinha, a angústia gerada pela ditadura militar e a rebeldia profundamente criativa do Pessoal do Ceará.

Bom, como surgiu a ideia de fazer Porta Secreta (1980)? Foi logo no comecinho da sua carreira, né?

Veio no vácuo do “Foi Deus Quem Fez Você” estourado. Quando eu fui para o Festival MPB 80, a gravadora não imaginava que a música fosse fazer tanto sucesso. Eles saíram com um vinil compacto imediato para vender, tanto que eu ganhei platina nesse compacto: tinha “Foi Deus Quem Fez Você” de um lado, e do outro “Galope Rasante”, que foi a primeira música que o Zé Ramalho fez para mim. O LP foi feito correndo depois, então a gente tinha que ter ideias muito rápidas.

Me conta do Festival! Como foi essa premiação do MPB 80?

Olha, meu filho estava com 1 ano e isso era complexo, apesar da minha família me dar muita força. Eu estava em Fortaleza na casa da minha irmã, o Zé me ligou falando que eu tinha sido escolhida para defender a música de Luiz Ramalho, “Foi Deus Quem Fez Você”. “Tá bom, tô indo pro Rio.”

Começaram os ensaios, na eliminatória eu peguei um vestido de um amigo meu, Lino Villaventura, porque tinha o Clodovil no júri. Eu botei logo pra quebrar com o vestido lindo e tal, morrendo de medo, andando pra lá e pra cá, porque é muito difícil defender a música de outra pessoa – é uma responsabilidade muito grande. Não podia errar e não era nem por mim, me passaram essa incumbência de apresentar a música de outra pessoa, sabe? Tem que ter muita responsabilidade, muita entrega, muita reza.

Quando vi que eu tinha ficado entre as seis colocadas, eu não acreditei. Até porque tinha um fundo de ficar pensando que não tinha como eu ganhar, era carta marcada. Ah, e o bom do festival daquele tempo é que ninguém conhecia as músicas; tentaram fazer festivais depois, mas não tem graça se você conhece a música antes. Festival tem que ser sobre o impacto do momento.

“Era um momento assim: Caetano, Gal, Gil, Bethânia, Woodstock, Jimi Hendrix, Rolling Stones, esse povo todo. Enquanto isso, eu ouvia também as grandes cantoras do Jazz, um outro clássico, sabe? Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sarah Vaughan. Eu tinha 24 anos e era amiga de Vinicius de Moraes. Essas coisas são impagáveis”

É muito legal como dá para sentir no disco essa união da música do Zé Ramalho com as guitarras progressivas do Robertinho de Recife, como foi essa dinâmica entre vocês três?

Ah, todos tem um lado roqueiro, né? O que se mistura com a vivência nordestina. Mas eles tinham banda, Robertinho e Zé, e eu gostava muito dos Beatles. Quando fui morar em São Paulo foi a época daquele festival Woodstock, eu fui morar numa república – minha irmã já morava lá e estudava artes plásticas na FAAP. Eu não entendia nada do que eles falavam, porque era uma galera de artes plásticas, então foi uma escola para mim.

Eu lia Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, porque papai comprava duas revistas quando eu era menina: O Cruzeiro e Manchete. A última página de todas as edições era do Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, respectivamente. Então, gosto muito de crônicas. Contei isso para o Vinicius de Moraes e ele ficou impressionado por eu ser tão novinha e interessada por literatura. “Sente aqui, bichinha”, ele disse. Me mostrou o “Poema Sujo”, do Ferreira Goulart! (risos) E eu tive a felicidade de conhecer ainda antes de ser lançado.

Era um momento assim: Caetano, Gal, Gil, Bethânia, Woodstock, Jimi Hendrix, Rolling Stones, esse povo todo. Enquanto isso, eu estava ouvindo também as grandes cantoras do Jazz, um outro clássico, sabe? Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sarah Vaughan. Eu tinha 24 anos e era amiga de Vinicius de Moraes. Essas coisas são impagáveis, a convivência com Toquinho, entende?

Me conta sobre a música “Porta Secreta”.

Ah, “Porta Secreta” é “Quero-te bem, ventania”…O primeiro apartamento em que eu morei em Fortaleza era na praia. O Zé ainda estava viajando e falou que tinha feito uma música para mim. “E como é?”, perguntei. Ele cantou para mim no telefone. “Ah, está certíssimo”, falei, “porque aqui na varanda tem uma ventania diferente, uma brisa do mar que vem e é exatamente um Quero-te bem ventania…” Agora essa é perigosa: “Quero-te mais furacão”. Aí é a magia do futuro do jovem. Mas é também, eu acho, uma coragem do jovem de enfrentar tudo que vier pela frente.

Nossa, que lindo. Eu sempre ouvi esses versos por uma perspectiva romântica da coisa, dessa figura avassaladora, nunca tinha me ocorrido uma questão geracional ou de momento da vida.

É, eu sou muito romântica, realmente. Eu sou muito sensível; canceriana com ascendente em peixes, é muita água – para sair dessa sensibilidade, eu tomo logo uma taça de vinho! Eu sou tão sensível que dói. Tem um livro sensacional de um jovem, João Doederlein “Aka poeta”, O Livro dos Ressignificados. Você vai amar. Ele fala sobre várias coisas: ele mesmo, o mundo, as paixões, essas coisas que vocês mais jovens têm de simultaneidade dos assuntos, essa capacidade de multiplicidade. É fantástico.

“Eu sou muito romântica, realmente. Eu sou muito sensível, canceriana com ascendente em peixes, é muita água – para sair dessa sensibilidade, eu tomo logo uma taça de vinho! Eu sou tão sensível que dói” (Foto: Marcelo Tabach)

A minha faixa favorita é “Beijo-Morte-Beijo”. Gosto muito da sequência “Beijo-Morte-Beijo” e “Lucas”.

Fui ouvir o disco de novo anteontem e achei que “Beijo-Morte-Beijo” poderia terminar o disco para deixar a coisa no ar, sabia? “Lucas” o Geraldinho fez para o filho dele.

“Beijo-Morte-Beijo” tem uma estrofe que me emociona muito, aquela: Sabemos, ainda é cedo para pisar na lama e cortar os ferros que prendem a mão / Mas um voo longo pode ser tentado / enfrentando balas e outras ações feitas de encomenda / Para te afastar dos teus que, como mendigos, andam sem pátria tatuados pelo temor

É sobre a repressão da ditadura militar? Você pode me contar um pouco sobre essa intenção artística?

O Pedro Osmar, que escreveu “Beijo-Morte-Beijo”, sempre foi muito político. Eu estou cantando a poesia dele, que remonta toda essa situação política, mas eu me coloco como cantora, não necessariamente que eu esteja cantando uma verdade minha, do que eu acho. Estou cantando uma música que achei interessante. Era uma coisa muito efervescente. “Esquinas Nacionais também se trata disso. Mas acho que isso tem que ser conversado com os compositores. Eu estava cantando o que eles expuseram, como uma crônica – na época, acontecia essa coisa de sumirem pessoas e tudo o mais. Eu não sei se o Pedro teve alguém da família que sofreu diretamente com isso, nunca perguntei… Cantei porque achava bonito, poético. Quer dizer, trágico.

Hoje, quando você olha para o Porta Secreta e a Amelinha de 30 anos de idade, o que você sente? Tem algum conselho que daria pra ela?

Cuidado com as ciladas. Elas existem. Fique atenta, mas saiba também que você vai aprender tudo no tempo certo – e evoluir, se você quiser.

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ARTISTA: Amelinha