Revisitando Meus Clássicos: Jocy de Oliveira – A Música Século XX de Jocy (1959)

Ousado e pioneiro, o disco foi um “evento” na carreira da pianista de 85 anos – e também seria a sua única aventura na música popular; “Eu tinha facilidade para compor, várias ficaram guardadas, nunca foram ouvidas ou executadas”

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Fotos: Reprodução

Revisitando Meus Clássicos é um quadro no qual os próprios músicos destrincham grandes álbuns e pérolas escondidas de sua discografia.

 

Com o passar do tempo, o disco A Música Século XX de Jocy (1959) se tornou um tipo de segredo da música brasileira. Mesmo com as diversas releituras sobre o período da Bossa Nova, o trabalho, lançado pela gravadora Copacabana, se manteve esquecido até então. “Fazer esse disco foi um evento na minha vida, um momento, que poderia ter sido mais porque eu realmente tinha outras músicas, tinha facilidade para compor, mas várias ficaram guardadas, nunca foram ouvidas ou executadas. Claro que poderia ter continuado, mas passou o momento”, lembra a artista multimídia Jocy de Oliveira.

Na época do seu lançamento, a compositora tinha apenas 22 anos, mas já era uma “jovem senhora casada” e construía o seu espaço na música erudita. Como pianista, era solista na Orquestra Sinfônica Brasileira, além de realizar apresentações nos Estados Unidos e na Europa. Habituada aos estúdios de gravação, Jocy tinha experiência nos concertos para rádio: “Os recitais eram gravados e depois difundidos para o público. Mas depois disso, perdi a conta, devo ter feito mais de 30 discos, CDs e DVDs”.

Hoje aos 85 anos, a artista curitibana assume que não pensava no álbum A Música Século XX de Jocy (1959) há anos, e ficou surpresa com o convite dos selos Nada Nada Discos e Litoral Records para relançar o vinil no Brasil e na Alemanha. “Foi uma ótima ideia, e até a elaboração da parte gráfica ficou ainda mais primorosa”. Além do registro, os selos soltam ainda este ano o LP Raga na Amazônia, com composições dos anos 1980 e 1990, e planejam mais um relançamento para o ano que vem.

Segundo Paulo Beto, produtor de música eletrônica, e o responsável pelo texto de apresentação, o registro antecipa a Bossa Nova, a Tropicália e até mesmo o movimento Punk. “Ela não traz apenas a ideia de que a música vai além da canção e da busca pela beleza, ela vem dizer que a música também serve para dar um soco no peito do ouvinte. A Música Século XX de Jocy é o primeiro Punk com sotaque brasileiro da história. Nele existe o grito, a revolta, a contestação desenhada para ser chocante em suas dissonâncias e polirritmias, e não apenas nas letras e temas abordados”, escreveu sobre as músicas.

Se os compositores de Bossa Nova se inspiravam no amor, na natureza e em sentimentalismos, Jocy estava mais interessada em falar sobre problemas sociais. As letras críticas, que falam sobre diferentes tipos de violência, e o formato pouco convencional das músicas, aliados a experimentalismos sonoros, resultaram em faixas como “Um Assalto no Morumbi”, que conta com um sussurro falando “pega ladrão”, ou “Sofia Suicidou-se”, que literalmente começa com o som que remete ao barulho do disparo de um revólver.

Antes do convite para o relançamento, você pensava com frequência nesse disco?

Nem pensei mais nisso, relançar foi uma coisa interessante que aconteceu e foi bem-vinda. Acho que valeu a pena principalmente porque foi um disco muito mal avaliado na época. Ele estava muito além, e não há dúvida de que não foi compreendido. Por todo o estilo, recebeu artigos péssimos, outros bons, mas nenhum realmente penetrou na proposta. Eles achavam que era um disco de Bossa Nova, mas ele não se encaixava de jeito nenhum. Para começar de uma maneira simplista, a questão do texto: a Bossa Nova exaltava o amor, o romance, as paisagens, o mar, então era muito diferente.

Aí não, era uma crítica à sociedade em que nós vivíamos, à desigualdade social, ao descaso com o outro, a todas as pessoas invisíveis. As questões das elites, que não pensam na dor do outro, e vemos que isso não mudou em nada, né? Você vê pelos títulos, essas canções traziam protestos – “Incêndio”, “Sofia Suicidou-se”, “Assalto no Morumbi”, “Um Crime” – quase como notícias do cotidiano, uma reportagem daquilo que se vivia e se continua a viver. Coisas que chocam porque se não fossem chocantes, eu não teria me expressado, eram coisas que me afetam. Por isso mesmo, a minha expressão sempre foi de compor, escrever, usar os caminhos da música e da arte.

Como o disco foi recebido na época?

Eu tenho muita coisa guardada. Lembro que um grande artista, o Flávio de Carvalho, disse para guardar todas as críticas ruins porque elas espelham a mediocridade de uma época. Quando você lê aquilo tudo é curioso. O que acho curioso é que a crítica da MPB nunca reavaliou. Quer dizer, era evidente que eram canções em um disco que antecipava a Tropicália, não há dúvida. Hoje mesmo não tem nada parecido nesse gênero. A gente pensa agora: quem é essa inteligência crítica da música popular? Assim como na música erudita, é a mesma coisa, ela é masculina. E existem certos preconceitos contra o gênero, e quanto a faixa etária porque eu era praticamente uma adolescenente, e você sabe, não dá pra acreditar em uma adolescente. Outra questão mais grave: preconceito com a linguagem. O disco não era só uma questão de reformular a canção, a música popular brasileira daquele momento. Mas também no sentido do texto do significado e musical, porque elas têm esse ritmo amétrico, a harmonização beirando o atonalismo. Questões não abordadas até então na música popular, inclusive ainda hoje subvertem vários parâmetros convencionais. Acho que isso incomodou muito a todo mundo no meio popular, no meio erudito pior ainda, ignoraram totalmente.

Você chegou a pensar no show dessas músicas?

Não. Eu era casada com o prestigiado maestro Eleazar de Carvalho (1912 – 1996), que tinha 25 anos a mais do que eu. Ele fez um acordo comigo: “muito bem, você faz o disco, mas não vai cantar em shows”. Acho que ele estava certo porque, com a experiência dele, não me deixou desviar do meu caminho. O meu caminho era outro, ele já estava traçado porque eu tinha uma carreira estabelecida como pianista no exterior, tocando em orquestras em vários países. Eu não conseguiria, de jeito nenhum, administrar as duas carreiras totalmente diferentes. A verdade é que se eu tivesse tido uma cantora para interpretar o disco, talvez ele teria uma outra repercussão. Mas não existia nenhuma cantora que fosse capaz de ler música, era impossível cantar de ouvido por causa do ritmo e da entonação. Eu não era cantora, mas naquela época a coisa também era não ter voz mesmo. Nesse sentido foi uma pena, se tivesse uma Elis Regina talvez fosse outra coisa, acho que ela poderia ter feito por causa do seu senso rítmico, ela tinha uma capacidade além de muitas cantoras.

Você lembra quem estava envolvido nas gravações? Você mencionou o seu marido, eram a maioria homens?

É verdade, os músicos eram homens, claro. Quem fez a produção foi um grande músico, o Altamiro Carrilho, e no disco original não tem o nome dos músicos. Eu via eles durante a semana de gravação, mas não lembro os nomes. Agora tem essa história que contam por aí, que vazou um pouco, acho que eu nem deveria ter contado. Mas o maestro rege por acidente porque depois do sexto dia das gravações à noite – começava meia noite e ia até 8 da manhã – ele perdeu a paciência. Ele ficava em casa e eu ia fazer gravação toda noite. Ele chegou lá e disse: “deixa comigo”. E realmente, com toda a experiência dele regendo, em uma sessão a gente gravou o disco. Tinha gente que não lia música muito bem, então era um agravante porque eu aparecia com a partitura e pedia certa instrumentação. Eu toquei violão, e tinha um rapaz que era um bom violonista. O próprio Altamiro tocou e eu não sei o nome dos outros, infelizmente.

“Valeu a pena relançar principalmente porque foi um disco muito mal avaliado na época. Achavam que era um disco de Bossa Nova, mas ele não se encaixava de jeito nenhum. A Bossa Nova exaltava o amor, o romance, as paisagens, o mar, então era muito diferente. Aí não, era uma crítica à sociedade em que nós vivíamos, à desigualdade social, ao descaso com o outro, a todas as pessoas invisíveis. As questões das elites, que não pensam na dor do outro, e vemos que isso não mudou em nada, né?”

Alguns outros trabalhos seus serão relançados, mas você está imersa em algum novo projeto no momento?

A pandemia interrompeu a vida de todo mundo, mas continuar usando os meios digitais me fez continuar e isso foi importante para mim. Eu lancei uma ópera cinemática (Liquid Voices: A História de Mathilda Segalescu) antes da pandemia. Ela foi premiada em vários festivais na Europa, Varsóvia, Israel, Estados Unidos, Chile, e depois seria lançada nos cinemas aqui. Fiz o lançamento online e funcionou muito bem – está disponível nas plataformas de streaming. O filme foi uma coisa enorme porque me deu um grande trabalho: escrevi o roteiro simultaneamente para uma peça, uma ópera no teatro e o roteiro para um filme. Técnicas e perspectivas diferentes, por exemplo, em geral o cinema leva a música como trilha, ela é menos importante do que a imagem, o texto, a ideia. E na minha ópera cinemática não, a música inclusive determina a duração das cenas, então ela vem junto com a visão da imagem.

Ao mesmo tempo, fiz um livro com toda a documentação do roteiro para o cinema e as fotos das cenas no teatro e na filmagem, então você vê a mesma cena diferente, como ela foi resolvida no teatro e no cinema, que tem várias locações e ângulos diferentes. Eu tentei usar o ângulo mais aberto porque me interessava o espaço, usei um lugar mágico, o Cassino da Urca, as suas ruínas.

Foi uma coisa enorme. Aliás, eu disse em várias entrevistas que seria minha última grande obra, porque eu sinceramente pensei isso. Precisa de fôlego, energia, tempo, e isso tudo foi diminuindo com os anos. Mas aconteceu, e eu não quero falar muito ainda sobre isso. Estou com outra peça bem adiantada, praticamente finalizada para começar a ensaiar e pensar na produção. Ela também seria uma ópera cinemática. Li que muitos cineastas dizem que não fazem mais do que um filme em vida, então se eu conseguir fazer o segundo será extraordinário. Mas não é só fazer, o problema é captação de recursos, que estão cada vez mais difíceis nesse país porque não existe interesse nenhum pela cultura. Muito pelo contrário, a cultura é marginalizada, esquecida. Então vamos ver o que acontece.

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