Revisitando Meus Clássicos: O Filho de José e Maria (1977)

Odair José desagradou a censura, a igreja e, à época, os fãs – e fez um clássico; mais de quatro décadas depois, o músico goiano relembra o divisor de águas de sua carreira e de sua vida

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Fotos: Arquivo Pessoal

Revisitando Meus Clássicos é um quadro no qual os próprios músicos destrincham grandes álbuns e pérolas escondidas de sua discografia.

 

Um homem e uma mulher casam-se às pressas na igreja a contragosto do padre. Se separam pouco tempo depois, mas deixam um filho. Essa criança cresce em meio à disputa dos dois e vira um jovem confuso: ele questiona os padrões, não tem certezas sobre sua sexualidade, abusa dos vícios e chega a flertar com o suicídio.

Essa pode ser a história de qualquer jovem do século 20, certo? Mas e se o nome dele for Jesus Cristo? Esta ideia provocadora foi o mote de Odair José para criar seu álbum mais ousado. Sucesso nas rádios e nas prateleiras de discos do Brasil durante os anos 1970, o goiano decidiu realizar uma corajosa curva em sua carreira e lançou O Filho de José e Maria, em 1977.

Com foto sem camisa saindo de uma casa noturna na capa, o objetivo era chacoalhar, claro, seu público, mas também atingir a cena musical popular brasileira na época. Funcionou. As referências à Bíblia, ao uso de drogas e à homossexualidade lhe renderam rejeição por parte dos fãs, censura de quase metade do projeto, necessidade de embaralhar as músicas e uma possível excomunhão da Igreja Católica. Hoje, é tranquilo dizer: o disco é um clássico.

Quatro décadas depois, Odair vê o álbum como um “divisor de águas” em sua “existência artística” e explica por que o filho de José e Maria pode ser Cristo, pode ser ele, o leitor, o ouvinte ou qualquer um. “Todas pessoas normais.”

 

Esse disco tem uma proposta diferente de tudo que você tinha feito até então. Ele conta a história de um homem, com referências bíblicas misturadas a episódios o tanto quanto cotidianos. Por que você escolheu esse tema?

Desde criança, eu sempre fiz uma leitura diferente das pessoas, da minha mãe, do meu pai, do lugar de onde eu vim, sobre esse negócio de fé, de religião e tal. Nunca achei, por exemplo, que precisasse de um intermediário para falar com Deus. Acho que não é por aí. Eu sempre tive a minha fé, mas sempre fui contra essa simplificação de Deus. Acho que Deus é uma coisa da natureza, do universo, uma coisa muito maior. Então eu pensei: isso é um ponto que me incomoda, é um ponto que eu poderia, de repente, dar minha opinião sobre ele. Me veio a ideia de escrever uma história em que as músicas, seguindo uma à outra, fossem contando a trajetória de um personagem. Do início. Ele vai nascer aqui, vai viver, vai ter seus momentos, altos e baixos, como todo ser humano tem. Me veio a ideia, então, de escrever como se fosse o filho de José e Maria.

E aí começou seu problema com a censura e a Igreja.

É, esse projeto, na verdade, teria de 18 para 20 músicas. Ele seria um álbum duplo e não foi porque a censura, de cara, me proibiu oito músicas. Eu era um cara que a censura me olhava muito de perto, minhas músicas, não podia gravar disco sem mandar para eles.

Então, de cara, caíram oito? Eu sabia de duas.

Eu já tinha o projeto todo, era como um musical. Ia ser levado ao teatro, tinha que ter estrutura teatral. Meu produtor na época era o Guilherme Araújo. Nós íamos fazer uma estreia com convidados no Teatro Carlos Gomes, ali na Praça Tiradentes. Já tinha até reservado tudo. Esse show teria orquestra, personagens, como eu imaginei a história. Já tinha um corpo de balé, eu já tinha convidado alguns atores amigos meus. A gente ia montar ali uma produção para mostrar o que que era o projeto, mas isso não foi possível por vários motivos. Não financeiros, mas porque houve muita gente batendo no disco. O disco, antes de ser lançado, já tinha apanhado da censura.

Isso aconteceu antes do disco ser lançado?

Isso foi antes. Quando eu começo a gravar o disco, tenho a informação de que oito músicas não tinham sido liberadas. Eu era um cara que tinha uma importância muito grande na mídia, meus discos eram aguardados. Quando se começou a falar do que o Odair José estava fazendo, começou já o pessoal a ser contra. As pessoas nem ouviram o disco e eram contra.

Além das músicas censuradas, também alteraram a ordem, né? “O Casamento”, que deveria abrir, foi lá para o meio… Isso foi imposição da censura, da gravadora ou coisa sua mesmo?

Fui eu mesmo. Eu percebi que já estavam batendo muito. Todo mundo dizia que eu tinha ficado louco, que era droga demais. Foi um erro meu. Porque eu poderia ter colocado aquelas dez músicas na ordem. A censura proibiu oito, mas não proibiu as principais, então a espinha dorsal do projeto eu tinha. Poderia ter colocado na ordem. Mas eu mesmo, tentando passar um pano diante de tanta coisa que eu ouvia, desmontei a coisa para assustar menos.

Ainda assim houve muita resistência. Teve até o episódio de excomunhão da Igreja Católica, é verdade?

É assim, eu já era uma pessoa muito mal vista. Sempre fui uma pessoa muito mal vista não só pela censura do governo, mas pela censura da hipocrisia da sociedade, da falsa moral, essas coisas todas. Quando o disco foi lançado, houve o barulho que eu estava desrespeitando a história de Jesus. Era blasfêmia, sei lá o que que era. Tanto que me chamavam atenção na rua. Criou-se, a mídia criou, uma conversa de que eu estava desrespeitando a Deus, que eu tava desrespeitando a Igreja, essas coisas. E veio um bispo em nome da Igreja Católica – acho que de lá de Campo Grande – a público dizer que eu seria excomungado. Isso saiu em mídia, saiu em jornais e tal. Eu não me preocupei. Como disse, nunca precisei de intermediário para falar com Deus, falo com ele à minha maneira. Então eu – desculpa a expressão – não liguei para aquilo. Eu acho que eles não chegaram às vias de fato, mas, se chegaram, para mim não fez diferença nenhuma.

A capa também causou rebuliço. O neon, com aquele título, remete à noite, né? Você falou que levaram dias para produzir.

A capa é muito boa, né? Tem esse lance.

Sim, é muito bonita.

Tanto a frente quanto a contracapa. A [ideia da] frente não é minha, a da contracapa é.

A da ceia de instrumentos? Meio provocadora, né?

Exatamente. [risos] A da ceia eu tinha na cabeça. Na época, o Guilherme chamou o artista plástico Rodrigo Argolo. A frente é toda dele, deu muito trabalho. Foi alugado um estúdio gigante no Rio, aqueles estúdios de fotografia. Foi montado um cenário, foi montado tudo. Essas coisas dão trabalho. E a contracapa é provocadora porque a ideia era ter uma ceia. Jesus sonhou com os 12 apóstolos, eu vou sonhar com os instrumentos.

“Quando as pessoas me questionavam, eu tentava dizer para eles: cara, eu não estou falando só da vida de Jesus Cristo. ‘Ah, mas não podia!’. Não podia na sua opinião. Na minha, podia.”

Apesar de contar, como um todo, uma história triste, ele é um disco animado, com muito metal, baixo marcante, guitarra do Hyldon, faixas dançantes. Esse contraste é proposital?

Na verdade, esse disco tem vários lados. Musicalmente ele é uma mudança. Ele tem uma qualidade musical muito forte, foi muito bem tocado, muito bem arranjado, muito bem gravado. Coloco sem modéstia, porque estamos falando de um fato: é um disco muito bem feito. Foi gravado no início, segundo trimestre, de 1977. Hoje, 43 anos depois, você vê uma qualidade dele que não vê em qualquer disco. Houve essa preocupação musical. Naquele momento, eu estava vendo que haveria uma mudança no mundo inteiro, achava que ia acontecer essa coisa do quarteto somado ao soul, ligado às guitarras.

Vamos falar da história, na ordem que você tinha pensado originalmente?

Pode ser. [Começa] por “O Casamento”, no caso.

Ela acabou indo para a sexta faixa. É, de fato, o início da história?

Eu queria contar a história de uma pessoa música por música. Tem o nascimento. De onde esse cara vai nascer? Esse cara vai nascer de um casal. Mas nós temos uma hipocrisia: você tem que ser casado na Igreja para ser realmente uma família, para você ser respeitado como comunidade. Só que eu pensei comigo: onde está o papel que Maria e José se casaram? Porque, pelo que se conta, a mulher apareceu grávida. Pelo que se conta, não houve um casamento. Pensei: eu vou escrever. Vou começar contando a história, vou casar dentro da Igreja Católica. Porque eu queria fazer um paralelo da vida de Jesus Cristo com um cara como eu naquele momento. Eu com as minhas loucuras, com as minhas perdidas, com meus achados… uma pessoa normal. Jesus Cristo é um cara normal, eu sou um cara normal. Somos irmãos, filhos da mesma origem. “O Casamento” nasce daí. Eu vou casar um casal às pressas pra normalizar, pra fazer a coisa ficar legal.

“Não Me Venda Grilos (Por Direito)”, a segunda no projeto e no disco, traz a realidade desse casamento. A coisa da promessa de amor e a posse como consequência?

Exatamente, é por aí. Tem toda aquela coisa da posse: agora nós somos reconhecidamente um casal, você é minha e eu sou seu e tal e tal. Não é bem assim? Mas não me encha o saco porque a vida já pesa muitos quilos.

Como você falou, apesar de haver esse paralelo religioso, os problemas são problemas reais, problemas de relacionamentos reais.

A ideia é essa. Por isso, quando as pessoas me questionavam, eu tentava dizer para eles: cara, eu não estou falando só da vida de Jesus Cristo. Eu usei isso como ponto de referência. Porque nós, do Ocidente, temos Jesus como referência, então eu usei essa referência. “Ah, mas não podia!” Não podia na sua opinião, na minha podia.

A referência mais direta, “O Filho de José e Maria”, faixa-título, fala de uma criança que cresce com pais separados.

Se você reparar bem, José e Maria andam com aquele burrinho fugindo lá do rei, porque ele quer matar as crianças, e vai até ali. Depois, você vê o Jesus mais com a mãe, você não vê Jesus com o pai. Aí, ninguém me explicou se o pai já tinha morrido ou se o pai não o acompanhava. Eu queria trazer aquela coisa para os dias que eu estava vivendo. Os filhos criados diante de uma separação. De novo, pegando um fato da referência para a realidade. Seis meses na casa da mãe, seis meses na casa do pai. A separação antigamente era um problema danado, aquela angústia de pegar o filho no final de semana. Até hoje tem isso, cada um enche a cabeça da criança de um jeito. É só uma criança.

Você fica fazendo o contraste do que é real e do que não é. “Fora da Realidade” segue como uma provocação sobre isso? Ela fala de uma idealização do amor, isso é fora da realidade?

É [sobre o] absurdo. Olha que história louca! A mulher tá lá, chega um anjo e fala “Olha, você vai ser mãe porque um anjo pousou sobre você e você engravidou”. “Não, José não vai acreditar nessa história!” E ele: “Eu vou lá contar para ele. Ela tá grávida, mas é uma coisa meio divina, então você tem que aceitar isso. É meio fora da realidade, mas é de Deus.” Isso é um absurdo! Se você for analisar, é um absurdo biológico, um absurdo genético. “Você está duvidando de Deus?” Não, estou achando que é um absurdo. Ela fala sobre essa dúvida que existia na época e existe até hoje.

Já “Só Pra Mim, Pra Mais Ninguém” trata mais diretamente desse vai e vem das relações, ainda mais puxado para o século 20.

Tinha uma no meio delas, chamada “Fera”, que não foi gravada por causa da censura. Mas, quando me refiro a isso aí, é a ideia do você vê numa relação. [O casal] casa às pressas, tem a separação, tem o negócio da posse. Aí meio que separou, o lance é avisar: ó, cuidado, presta atenção, você está numa ilusão enorme, não abra a porta para qualquer pessoa, não vai em qualquer conversa. Quando você fala do século 20, sim! É sempre um pé lá e um pé cá. É uma forma de dizer: olha, escute o que estou te falando que vai dar certo. Se não escutar o que estou te falando, vai dar errado. E tem muito disso nas relações. Foi por aí.

O disco teria também “Agora Eu Sei”, que acabou entrando no seguinte [Coisas Simples, 1978]. Por que foi barrada nesse?

Porque ela tinha uma letra meio diferente e eles proibiram.

É sobre traição, né?

Exatamente. Sobre o negócio do sexo. De ser atraído por outra pessoa.

Mas liberam para o de 1978.

É, na verdade eu tive que mexer. Eu já tinha tido trabalhos meus proibidos no passado, uns anos antes. Eu começo a ter problema com a censura em 1972, quando eu faço sucesso com a música da puta [“Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”].

Não era nem por motivos políticos, então.

A história é meio política porque eu fui chamado na censura quando a música estourou. Era ali no centro da cidade, perto dos Arcos da Lapa. O cara falou: “Essa ‘Eu Vou Tirar Você Desse Lugar’ não é oportuna para o momento, não é apropriada”. Eu falei: “Mas eu não tô falando de governo, estou falando de uma puta”. Ele: “Pior ainda! Onde o senhor quer chegar?” [risos] “A partir de agora, todas as músicas, todos os discos que o senhor gravar, a censura tem que ver antes.” Com essa, engraçado, eles acharam que era uma coisa promovendo homossexualidade.

Achei que era só “Forma de Sentir”, que também foi tirada.

Essa também tinha um pouco a ver com isso, um duplo sentido. Esse pessoal tinha um problema danado com esse negócio de sexo, principalmente se fosse mulher com mulher e homem com homem.

"Vou te dizer que eu andei meio louco nesse período. As pessoas não estavam totalmente erradas quando diziam: esse cara tá louco!"

“Forma de Sentir” fala “Ame, assuma e consuma; O teu verdadeiro sentido do sentir; E nem penses que eu vou proibir”.

É uma coisa muito louca porque, nesse determinado momento, que eles proibiram, eu vou mostrando que o personagem é perdido. Ele vai usar drogas, ele vai ter dúvidas, não sabe se é gay, se é hétero, o que que ele é. Ele não sabe. Ele faz essas experiências para chegar a uma conclusão. E nessas músicas essas experiências ficam bem claras. Mais pra frente, “O Sonho Terminou” resume isso um pouco também.

Por quê?

É quando ele chega à conclusão que tem que sair da caixa, que tem que abrir o jogo. Ele tá vivendo escondido e não tá dando certo. Olha, vamos abrir o jogo, todo mundo é bandido, todo mundo vive numa gaiola danada. Por isso que tem uma música chamada “Gaiola”, que não saiu no projeto. “Estamos presos na gaiola da vida; Estamos com as asas partidas; Vamos então botar as cartas na mesa.” Essa música é o resumo desse momento, dessas outras antecedem a ela e ela mata essa conversa.

“É Assim…”, na sequência, é uma aceitação, então? “Dizem que meu corpo é livre.”

Não, é sobre possibilidades… “Vou fugir dos meus problemas; Vou em busca do desconhecido.” É como se fosse: cara, que tal se matar? Que tal o suicídio? Tá uma bosta, vamos dar continuidade à vida de outra maneira. Por isso que eu digo que morrer ainda não é proibido.

Não tinha feito essa ligação.

Porque já naquela época – e hoje estamos do mesmo jeito – a gente está sempre sendo proibido de alguma coisa. Aí é que vem a ideia. Já que está uma merda, por que eu não tento outra coisa? Vamos tentar a morte. “Morrer ainda não é proibido; Vamos tentar a sorte.” Mas eu vou te dizer que eu andei meio louco nesse período. As pessoas não estavam totalmente erradas quando diziam: esse cara tá louco! Eu tinha uma certa loucura, eu tava numa busca e não tava me achando dentro do sistema. Aquilo não tava me agradando.

O sistema político, da música ou em tudo?

O sistema de vida, o sistema de tudo. Político, vida, amizade, como você tem que viver, de regras. Você não pode desobedecer.

Você chegou a pensar em suicídio?

Eu não cheguei a pensar em suicídio, mas por várias vezes eu estive para morrer. Eu cheirei muita cocaína. Em determinado momento, uma cheirada a mais eu podia ter morrido. Uma vez eu cheguei a pensar até… Eles tinham acabado de fazer aquela ponte Rio-Niterói. Cheguei a pensar que talvez fosse legal eu parar o carro lá em cima, me jogo lá de cima e foda-se. Depois nego acha o carro e imagina… Pula de lá e acaba com isso. É, então cheguei a pensar, sim.  É aquilo, falaram que o cara tá louco. Eles não tavam certos, mas também não estavam totalmente errados.

“De Volta às Verdadeiras Origens” flerta com isso?

É depois. O meu pai morreu com 91 anos de idade, bem depois desse disco, em 2000, por aí. Lá em Goiás. Minha mãe era muito de barra de saia de padre, não saía da igreja. Fazia pão de queijo, levava pro padre, fazia pamonha, levava pro padre. Tudo era o padre. E meu pai era mais cético quanto a isso. Mas um ano, dois anos antes dele falecer, eu percebi que ele ficava na frente da televisão agarrado àqueles programas de reza, sabe? Um dia eu cheguei e falei: “Pai, o senhor já parou para pensar que pode não acontecer o que o senhor está pensando? Que o senhor vai morrer e, ao morrer, não vai dar de cara com Jesus Cristo, com o pai dele, com a mãe dele? Para receber o senhor lá. Pode ser que isso não aconteça.” Ele nunca me respondeu. O “De Volta às Verdadeiras Origens” é essa possibilidade de você morrer e dar de cara com esse povo lá. Por isso ele diz: “Minha porta sempre aberta; pode entrar fique à vontade; chegue um pouco mais pra perto; eu existo de verdade”.

Pensando nisso agora, me soa uma ligação com ressurreição… ou é uma viagem?

É uma viagem. [risos] Não é sobre ressurreição, não, mas é a possibilidade.

“Nunca Mais”, a mais animada do disco, é a penúltima do projeto original, mas acabou abrindo o álbum. Por quê?

Voltando àquela conversa que as pessoas começaram a meter muito pau no disco antes dele sair. Pensei: vou jogar umas mais pra frente aqui que são mais comerciais, que são mais Tim Maia, mais Barry White. O Hyldon tocando guitarra. O maestro Jaime Alem, que tocou muitos anos com a [Maria] Bethânia, era um cara muito ligado à Bossa Nova. Então coloquei “Nunca Mais” e “Não Me Venda Grilos”, aquela coisa bem carioca, bem zona sul. Os caras vão ouvir e dizer: não, ele não é tão louco assim.

Ela em específico me lembra muito “Não Vou Ficar” e essa fase do Roberto.

É, eu citei o Tim, mas é evidente. Tem muita coisa ali. As influências do Tim eram muito boas, tinha aquela coisa americana, né? O Tim tinha influências totalmente Motown, e o Roberto também, se você pegar os discos do Roberto de uns dois anos antes de 1970. Eu acompanhei o Roberto até a década de 1960. Depois de 1970 eu fui cuidar da minha vida, mas em 1967, 1968, sei lá, o Roberto tinha uns trabalhos meio Motown e tem a ver com isso aí.

O disco e o projeto acabam com “Que Loucura”, que também é bem pra cima.

Também é pra cima. “Essa foi a minha história; Mas bem que podia ser a de vocês.” Inclusive, a ideia era que terminava num balé, com as pessoas todas dançando, as bailarinas tirando a roupa, ficando só de roupas mais íntimas, colocando tudo para fora. Era um musical. Por isso disseram que era uma ópera. Eu, pessoalmente, nunca disse que era uma ópera. As pessoas que ouviram a história e acharam que era uma ópera.

Você fala muito em provocação, esse disco gerou muita polêmica em 1977. Hoje, parece que a pauta de confronto de costumes, ligados também à religião, voltou com força. Como você acha que esse disco seria encarado hoje?

Ele continua sendo atual. Eu acho que hoje ele ainda não consegue andar por si só por conta dessa hipocrisia e dessa falsa moral que se mantêm na grande sociedade. Eles não aceitam isso aí. Se você mostrar, eles vão torcer a cara. Quem aceita isso são pessoas mais jovens, de cabeça melhor. Então ele continua sendo um problema.

As pessoas começaram a meter muito pau no disco antes dele sair. Pensei: vou jogar umas mais pra frente aqui que são mais comerciais, que são mais Tim Maia, mais Barry White. O Hyldon tocando guitarra. O maestro Jaime Alem, que tocou muitos anos com a Bethânia, era um cara muito ligado à Bossa Nova. Então coloquei “Nunca Mais” e “Não Me Venda Grilos”, aquela coisa bem carioca, bem zona sul. Os caras vão ouvir e dizer: não, ele não é tão louco assim.

Além dos paralelos com religião e histórias comuns, você também fala muito de você. O quanto tem do Odair na história do filho de José e Maria?

Tudo. Eu sou o filho de José e Maria. Só não sou no sentido dos pais separados, meus pais morreram casados. Mas eu saí de casa muito cedo. Com 17, 18 anos estava no Rio de Janeiro dormindo na rua. Fui morar em casa de estudante, toquei em todos os puteiros possíveis do Rio de Janeiro, toquei em tudo que é morro. Eu usei droga, eu bebi muito. Então eu tive os meus segredos escondidos, eu tive tudo isso. Mas eu sempre soube que era uma pessoa boa, que eu nunca ia fazer mal a ninguém. Eu sempre me preocupei muito em prestar atenção nas pessoas, sempre quis que o meu trabalho fosse importante para as pessoas. O Filho de José e Maria é uma crônica atrás da outra e é uma crônica geral. Por isso falei que a minha vida musical – e até como pessoa – não teria razão nenhuma de ser se não tivesse esse disco. E as pessoas que conhecem o Odair José sem conhecer esse disco não conhecem o verdadeiro Odair José.

Queria te agradecer pelo tempo, pelo papo e pela sinceridade.

Eu que agradeço, gosto muito de conversar e de falar dO Filho de José e Maria porque eu sempre aprendo um pouco. Falando dele, eu aprendo a conhecê-lo melhor também. Foi um prazer.

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ARTISTA: Odair José