Richard Sennett E Seus Blue Caps

Conheça mais sobre este sociólogo que apresenta questões pertinentes ao mundo da música e seus desdobramentos

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Parece nome de banda, mas não é. Richard Sennett, nativo de Chicago, 70 anos, não é um rockstar. Poderia ser um músico, mas teve problemas quando se arriscava no estudo de cello e teoria musical na prestigiosa Julliard School, de Nova York, a mesma que teve gente como Phillip Glass, Bill Conti e Miles Davis (por um semestre, mas conta) entre seus alunos. Sennett tinha dificuldades com sua mão esquerda e acabou por deixar a música assumir um papel secundário em sua vida. Em 1964, ele se graduava em sociologia pela Universidade de Chicago e, cinco anos depois, obtinha seu Ph.D na mítica Universidade de Harvard, iniciando seus estudos de história naquele mesmo ano.

Bem, estou recorrendo a Sennett porque ele é o que eu poderia chamar de pensador Pop. Foi adotado como linha fundamental de pensamento nos anos 90, quando algumas pessoas na Europa perceberam que o mundo ia mal e seria vítima de si mesmo em pouco tempo. Surgiu então o que se chamou de Terceira Via, ou seja, uma busca por alternativas para o sistema capitalista ser algo mais justo e igual para todos os participantes dele, ou seja, eu, você, nós. E por que diabos está esse sujeito falando de sociologia, Sennett e capitalismo? Simples, porque ele afeta decisivamente a nossa vida, a vida das pessoas que amamos e admiramos, entre elas, sim, os fazedores de música pop. E essa é uma coluna sobre música Pop, sobre o impacto dela nas nossas vidas, ontem, hoje e amanhã. Serve pra ler, concordar, discordar, amar e sentir vontade de atirar o computador na parede.

Serve, sobretudo, para você, leitor/a, perceber que a música é produto da sociedade em que vivemos e que ela se transforma à medida que as regras vão mudando. Um pequeníssimo exemplo disso está na completa ausência de smartphones no mundo há, digamos, dez anos. Sem smartphones, considerável parcela da população que ouve música em trânsito (indo e vindo por aí, do trabalho para a escola, da faculdade para casa e por aí vai) teria que usar plataformas de execução de CD’s ou mp3, como o valoroso Discman ou tocadores primitivos. Isso reduziria a portabilidade, atravancaria o deslocamento, enfim, proporia uma nova dimensão para a apreciação da música pop e os desdobramentos seriam infinitos. Só pra você ter uma noção do quanto tudo está interligado.

Portabilidade, smartphones, laptops, são palavras-chave para entendermos como muita gente ouve música e eles são resultado de linhas de montagem, advento típico da sociedade industrial em sua face mais otimizada, eficiente e produtiva. Pra você comprar o seu aparelho atualizado – algo que acontece, em média, a cada seis meses – é preciso que gente seja empregada, recursos sejam gastos, enfim, algo que só pode existir hoje. Não compete dizer se isso é bom para a música ou para o ouvinte, mas causa impacto nas pessoas. Sennett é marxista, de uma corrente progressista, muito mais eficiente que o velho barbudo alemão, que só pensava em economia e não parecia capaz de prever o futuro. Sennett, e outros antes dele, se volta para impacto da cultura nos rumos da sociedade e tem teorias interessantes. Numa delas, contida num livro chamado O Artesão, ele diz que é preciso cerca de 10 mil horas (ou 3,5 a 5 horas/dia por 7 anos) para formar alguém que seja realmente bom no que faz. Sennett usa como exemplos dessa lógica um músico de orquestra, um jogador de futebol ou um especialista, algo que, no mundo de hoje, é bem difícil. Podemos aplicar essa forma de raciocínio a quem faz música pop? É possível cobrar dessas pessoas um tempo grande de dedicação como sete anos? A sociedade atual é capaz de tolerar pessoas se dedicando à música por tanto tempo, sem que seja necessário trabalhar para pagar as contas?

São questões fundamentais. Em outro momento, Sennett usa uma frase interessante: “os padeiros de Boston não sabem mais fazer pão”. Ele se refere a automação e aos processos de otimização das atividades industriais. Seu livro A Corrosão do Caráter, mostra que o ser humano acaba topando quase tudo para se dar bem no emprego e isso pode ser visto com facilidade, basta uma rápida olhada em O Aprendiz, programa de Roberto Justus na Record, no qual o objetivo – ser empregado de Justus, um grande cacique da publicidade brasileira – passa, necessariamente, por inúmeras atitudes de caráter pra lá de duvidoso. É possível fazer paralelos com brodagens, camaradagens e demais artifícios em festivais de música pelo território nacional? Há alguém que recuse algum polpudo contrato pra ganhar grana em nome da integridade artística? Alguma banda iniciante recusaria apresentar-se no Multishow vestida de Papai Noel, caso recebesse um grande cachê para isso? O Ira!, famosa e querida formação oitentista, tem um caso clássico de recusa em participar de um especial de Natal do Chacrinha, no qual seria obrigado a colocar touca de Papai Noel. Não entraram, enquanto outras bandas nacionais dos anos 80 ostentaram o adereço com orgulho.

O Ira! foi pra geladeira, iniciando um período de declínio em sua carreira, a partir de 1988, mesmo com um disco tão bom quanto Psicoacústica. Sennett está vivo, dá aulas até hoje e, dizem, retomou a prática com o cello. Pense nisso: assim como o mundo dos anos 60 produziu Beatles e Stones, hoje produz Arcade Fire e Cage The Elephant. A ideia aqui, não do Sennett, mas nossa, é entender tudo o que acontece. Vamos nós.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.