Rodrigo Ogi entre o cotidiano, o surreal – e o aleatório

“Aleatoriamente”, novo disco do rapper paulistano, coloca a caneta afiada a serviço do que há de fantástico – para o bem ou para o mal – nas jornadas do dia a dia

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Fotos: Ênio Cesar

Rodrigo Ogi é um contador de histórias. “Vovô do rap”, Rodrigo Hayashi é celebrado por suas crônicas-canções nas quais relata eventos cotidianos de forma imersiva e detalhista, misturando realidade e ficção, além de toques de realismo fantástico. Entre os grandes letristas do rap nacional, Ogi trouxe novas histórias e versos em Aleatoriamente, lançado em setembro e produzido por Kiko Dinucci.

A necessidade de Ogi de criar narrativas vem desde a infância, quando ele costumava contar histórias de terror para os amigos e se aprofundava na leitura por influência da mãe. Para além da forma oral de ecoar fatos e criar novos universos, de lá para cá, Ogi apostou no pixo e na música para explorar o mundo interno e externo. Marcar a grafia em prédios e locais públicos foi uma forma que ele encontrou de se comunicar com a cidade e ser visto. “Foi um jeito que eu encontrei de dizer para sociedade que eu existia”.

Em paralelo, ele já tinha composto letras e versos, mas foi com o grupo Contrafluxo – ao lado de Deja Vu, Mascote, Munhoz, DJ Big Edy e DJ Willian – que o rapper iniciou sua carreira musical. Após o lançamento de dois álbuns com o grupo, Missões e Planos (2005) e Superação (2007), soltou o clássico Crônicas da Cidade Cinza (2011), que foi sucedido por RÁ! (2015) e o EP Pé no Chão (2017).

Seis anos separam o último trabalho de Rodrigo Ogi e Aleatoriamente. Além de ser tempo suficiente para diversas mudanças pessoais, o país passou de forma coletiva por uma série de eventos sociais e políticos, que são retratados na obra. Personagens com ideais fascistas, violência policial e a iminência da morte perpassam o repertório do disco. Mas a obra também guarda espaço para a compreensão de sentimentos complexos, como tristeza, raiva, solidão, medo e paixão, sempre explorados por Ogi de forma afiada.

Com elementos de fluxo de consciência e o lendário monólogo interior do rapper, Aleatoriamente se conecta com o seu tempo atual de forma lírica e sonora, pintando cenas que se transformam, entre analogias e descrições, e são acompanhadas por um instrumental crescente – ótimo aliado na imersão pelo universo de Ogi. Seja um dia caótico navegando na internet, um busão lotado, um food truck apertado, uma quitinete no centro ou um peixe fugindo do anzol – o poder imagético é notório no disco.

Estimulado pela produção de Kiko Dinucci, o rapper conta que precisou sair da sua zona de conforto para trazer uma nova identidade sonora para o disco. “Eu não queria fazer o que já tinha feito, eu queria uma coisa diferente e, por isso, procurei o Kiko”. Em meio a causos ampliados da realidade, desejos guardados e documentação de um tempo, Aleatoriamente é arte em conexão com o excesso de informação – tão característico dos dias atuais. É como uma síntese do tempo em que vivemos, com eventos cotidianos que despertam revolta pelo agora e saudade pelo que se foi.

Ogi, quero começar falando da sua lírica. Você é reconhecido por ser o cronista do rap, quando você começou a se interessar por escrita e esse tipo de narrativa?

É uma coisa que vem desde a minha infância. Lembro da minha avó, por parte de mãe, contando histórias que eu ficava fascinado. Eu recordo que as minhas primeiras redações na escola já tinham esse lance de contar história. Tinha uma que eu fiz com uns sete anos de idade contando o porquê do meu nome ser Rodrigo. Sempre tive esse lance de contar histórias, lembro que eu juntava com a molecada do bairro e ficava contando história de terror, depois o pessoal ficava com medo de ir nos lugares. Sempre tive essa facilidade. E também teve o lance da minha mãe me incentivar a ler, ela sempre me trazia um livro e isso me levou para esse caminho. O que eu procuro fazer é detalhar, sem deixar muito longo, para que, quando a pessoa escute, ela já imagine a cena. Esse é um exercício que eu faço quando estou escrevendo e, muitas vezes, sai bem feito.

Quais livros te marcaram e teve algum livro que você leu recentemente que você quer compartilhar?

Gosto muito da obra do João Antônio, não um livro especificamente, mas a obra toda dele. Ele segue como meu escritor preferido. Recentemente, li um livro que estava há um tempo na minha estante, Caninos Brancos, do Jack London.

Você sempre teve esse lado narrativo aflorado, quando você foi para música você pensou em seguir nessa linha ou foi algo que se moldou com o tempo?

Escrevo desde 1993, acho que eu tinha uns 13 anos, e já eram rap de história. Minha primeira música chamava “Matador de Tiras”, a música contava a história de um menino que teve o pai assassinado por um policial, o que fez com que ele virasse um matador de tiras quando adulto. Depois eu parei de escrever, fui fazer outras coisas e voltei em 2002, mas não tinha o caminho do storytelling. Depois, montei o Contrafluxo, lançamos dois discos e no segundo tem uma música chamada “Por Aí Vou Vagar”, essa eu considero minha primeira storytelling oficial lançada. Quando fiz o Crônicas da Cidade Cinza, eu já pensei em seguir nesse estilo.

“É um disco que vai pro caminho surreal. Conversa com as coisas do cotidiano e tem coisas fantásticas. É bem aleatório”

Sobre sua trajetória como pixador, como você começou e quando decidiu parar?

Desde criança, quando eu passava com a minha mãe pela cidade, ficava atento nesses traços, eu queria entender aquilo. Por volta de 1995, fui fazer meu primeiro rolê de pixo com os amigos do bairro que já pixavam. Era um rolê de madrugada, andamos por horas desde o bairro em que eu morava até Diadema. Daí para frente o negócio me pegou, foi um jeito que encontrei de dizer para a sociedade que eu existia. Periferia é aquela coisa, tinha uns que iam para o crime e também nunca fui muito de usar drogas. Mas eu queria fazer alguma coisa, queria ser visto e queria ser rebelde. Eu pixei de 1995 até 1999, depois desse período eu parei. Por volta de 2008, voltei a fazer alguns, mas não levei para frente. É uma coisa que eu gosto e acompanho, sempre que eu passo pela cidade fico olhando. A coisa evoluiu muito, antes era no chão, bureau ou prédios, hoje os caras e as minas escalam igual Homem-Aranha. É outra parada e eu gosto muito de ver.

Você falou que o pixo foi uma forma que você encontrou de ser visto e acredito que também dá um sentimento de pertencimento e conexão com a cidade. Como você se conecta com a cidade hoje?

A pixação me levou para esse caminho de conhecer tudo. Eu morava na periferia da Zona Sul de São Paulo, no Jardim Celeste, e de lá eu ia para o centro e do centro eu ia para todos os lugares. Eu fui conhecendo a cidade mesmo, como cada região funcionava, como cada periferia conversava uma com a outra, o quanto era difícil a locomoção, fui conhecendo todas as partes de São Paulo. Hoje eu tento sempre estar andando pelas quebradas, seja para visitar amigos ou não. É muito rico e eu vejo que as dificuldades continuam, principalmente em transporte público e moradia. Tem bairros que mudaram muito, por exemplo, dava medo de andar no Capão Redondo nos anos 1990, mas as coisas melhoraram muito por lá. No geral, os lugares estão longe do ideal, mas melhoraram muito dos anos 1990 para cá.

Falando do começo da sua carreira musical, você falou que já escrevia e sua primeira experiência foi com o Contrafluxo. Como foi esse começo e quando você decidiu partir para carreira solo?

O Contrafluxo era aquele lance de fazer música pra botar para fora o que você queria falar. Era por amor ao rap, naquela época as possibilidades de ganhar dinheiro com o rap eram mínimas. O Munhoz começou fazer um disco solo e eu pensei em começar o meu também. Cada um foi para o seu lado, não sei explicar se a empolgação foi passando, mas eu tinha na cabeça que o negócio ia acontecer para mim. Eu fui taxado como louco em pensar em viver de rap, mas comecei trabalhar no Crônicas da Cidade Cinza e, assim que ele foi lançado, as coisas começaram a acontecer.

E como foi o processo de produção de Aleatoriamente?

Eu estava nesse processo desde 2019 com o Kiko. Não queria fazer o que eu já tinha feito, queria uma coisa diferente e, por isso, eu procurei o Kiko. No começo, a gente estava tentando entender como cada um funcionava, muitas músicas foram criadas em cima de um loop de bateria e samples que eu mandava para ele. Algumas vezes eu mandava alguns e ele já avisava que determinado caminho seria mais do mesmo, quando começamos a nos entender, eu consegui selecionar melhor. Ele pegava os samples, mantinha a minha melodia e fazia algo em cima. No começo desse ano, fiz mais umas letras e a gente conseguiu finalizar o disco. O Kiko é genial, tem coisas que eu vinha fazendo com flow de trap, ele não pegou e fez uma bateria de trap, ele fez uma coisa puxada para os batuques. Ele testou vários sons e tentou deixar o disco com uma textura mais eletrônica.

“Depois que a música sai para o mundo, não dá mais para controlar o que as pessoas vão entender. Cada um vai sentir de um jeito”

Ogi, seu último trabalho foi o EP Pé no Chão (2017) e de lá para cá passamos por muita coisa como sociedade. Você traz algumas dessas questões políticas e sociais no disco. Como foi lidar com isso de forma individual e artística?

Esse pesadelo começou em 2016 quando fizeram o impeachment da Dilma, que eu considero como um golpe. Aquilo foi terrível, o Brasil estava indo bem. Em 2017 a coisa começou piorar, mas em 2018 o cara ganhou a eleição em um cenário que já era angustiante. Eu já sabia que a coisa ia ficar ruim, mas aí chegou a pandemia e a coisa ficou horrível. Eu fui criando muitas coisas em cima desse cenário, que era uma coisa que você não tinha esperança, não via horizonte. Boa parte do disco conversa com a morte, ele trata de assuntos angustiantes de forma bem densa. Algumas faixas foram compostas no final de 2022 e começo de 2023, que é onde vem aquele respiro para o disco. Nesse processo todo eu me separei, aí tem as questões do coração. Mas ele foi construído em cima dessa época que passamos, que eu espero que comece a melhorar. Ele é um disco que vai pro caminho surreal, conversa com as coisas do cotidiano e tem essas coisas fantásticas. É bem aleatório.

E na faixa-título você fala muito da dinâmica de algoritmos e do excesso de informação, ao mesmo tempo em que tem uma nostalgia. Como você acha que essas novas tecnologias estão influenciando as nossas dinâmicas hoje?

Para crianças é super prejudicial, meu filho vai fazer sete anos e ele não tem celular. Eu acho que vai desencadeando ansiedade e você não consegue mais socializar. É comum, às vezes, encontrar amigos e eles ficarem no celular e eu já aviso que se ficar no celular eu vou embora porque estamos ali para conversar, não ficar no celular. É tudo mais fácil só que, ao mesmo tempo, eu acho que dá muita opção e isso te deixa preso porque você tem muita coisa para escolher e acaba não conseguindo escolher nada. Eu vejo que está ficando tudo mais imediato, menor e raso.

E você também viu a transformação do mercado musical. O que você acha que mudou, de bom e ruim, nos últimos anos?

Hoje você consegue fazer sua música dentro de casa e ter acesso a isso. Antes não tinha um mercado do rap e o mercado da música, no geral, era mais fechado. Hoje a molecada consegue ganhar um bom dinheiro com a música. Quando chegou a internet, eu senti que era uma coisa que poderia democratizar e que os artistas não iam ficar dependentes da gravadora. Só que hoje parece que a coisa mudou, que voltou a ficar como a época das gravadoras, um artista independente não vai ter o mesmo alcance que um uma artista de gravadora, muito pela quantidade de dinheiro investido em cada um. É uma competição desleal, mas acredito que as coisas acontecem – só que nada é do dia para noite. A música, e as artes no geral, é uma máquina de fazer vilão, como o Mano Brown fala, por causa da frustração.

Como você lida com a frustração?

Eu vim de uma época que isso era por amor. Sempre fazendo isso por amor. Sem escrever, eu não conseguiria viver. Então eu espero continuar vivendo disso, mas não é mais uma coisa que eu crio expectativas gigantescas a ponto de me frustrar. Vou continuar muitos anos fazendo isso, então eu tento levar com mais leveza. Fazer no amor mesmo, isso blinda de muita coisa.

O que você faz para se manter relevante, tanto na forma sonora quanto lírica?

Acompanho sempre o que está sendo feito, eu não torço o nariz. Mas, por exemplo, se o drill está em alta, eu não vou fazer um disco de drill, não acredito nisso. Quando você já tem uma carreira e vai para esse caminho, soa desespero. Posso beber dessas fontes, colocar tudo num caldeirão, misturar com que eu já tenho de experiência e trazer uma coisa nova. O lance de criar histórias também me permite criar diversos universos na minha música. O melhor caminho é pegar as referências, colocar no caldeirão e seguir.

“A faixa do Don L foi pensada para deixar ele brilhar, quando vai acontecer uma participação, não adianta dar um pedacinho curtinho, só para dizer que a pessoa está ali. Foi uma preparação diferente do beat, para que o Don L brilhasse e foi isso o que ele fez”

E sobre pegar referências, o disco conta com diversas participações interessantes. Como rolaram essas colaborações?

A Juçara era certeza que ela ia está no disco. Pensamos em colocá-la em outra música, mas ela não se sentiu muito à vontade. Eu mostrei outras para ela e ela fez “Chegou Sua Vez” e o refrão de “Ufa!”, que eu quero falar um pouco sobre. A “Peixe” é uma música que eu fiz esse ano. Sempre admirei a Tulipa Ruiz, eu mandei para ela e fiquei feliz com o resultado. A faixa com o Russo eu já tinha feito inteira, só que eu sentia falta de alguma coisa. Eu sempre gostei do Russo, só que não conhecia ele pessoalmente, eu consegui o contato dele e ele foi super solícito. A faixa do Don L foi pensada para deixar ele brilhar, quando vai acontecer uma participação, não adianta dar um pedacinho curtinho, só para dizer que a pessoa está ali. Foi uma preparação diferente do beat, para que o Don L brilhasse e foi isso o que ele fez. “Eu Pergunto Por Você” é continuação da “Cupido”, e ele construiu a letra em cima da que eu já tinha feito. A do Siba é continuação da “Chegou Sua Vez” e foi a única que o Kiko me mandou com o instrumental pronto e falou que Siba caberia. Eu fiz toda letra e ele chegou com um refrão espetacular. E o Thiago França é um grande parceiro que está presente desde o RÁ!. Falando de “Ufa!”, foi uma música feita baseada em fatos reais. Na época em que eu pixava, estava em São Mateus e chegou uma viatura da Força Tática, isso em 1996. Ele saiu da viatura, enfiou o pé na merda e fez eu limpar a merda do coturno dele com a minha camiseta. Eu pensei que um dia ia falar sobre isso em uma letra – e trouxe para “Ufa!”. Aí eu incrementei, deixei a coisa mais ficcional e surreal que é quando eu vomito nele de volta, mas isso não aconteceu. Eu vesti a camisa e segui. Por que naquela época, eu não poderia subir no ônibus sem camiseta e eu precisava ir embora para casa, eu entrei no ônibus e a galera tapava o nariz. Na música, eu senti a ânsia de vômito e devolvi o vômito e começa toda aquela coisa infernal.

Nossa, é um lance de pegar uma reação que você queria ter na hora e fazer com que ela aconteça de alguma forma.

Sim, sim! É uma coisa surreal, porque eu vesti a camiseta, tive ânsia de vômito e vomitei na cara dele. Imagina essa cena. O cara tá te oprimindo, porque isso é uma tortura também, quando você veste aquela camiseta vem aquela náusea e você vomita em cima dele e ele fica furioso. Aí, no refrão, começo a pedir para Deus não deixar eu morrer e a história vai ter aquele desenrolar todo e no final é um filme.

E esse final da música e do disco abre para várias interpretações.

Sim, eu abro para várias interpretações. Tem esse lance da música, depois que ela sai para o mundo não dá mais para controlar o que as pessoas vão entender. Fica livre a interpretação e cada um vai sentir de um jeito.

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ARTISTA: Ogi, Rodrigo Ogi