ROSABEGE e Ana Frango Elétrico lembram do passado de olho no futuro

Lançando o clipe de “QUEM SERÁ”, banda e cantora falam sobre a parceria, a quarentena, o governo, as incertezas e contam o que têm aprendido com tudo isso

574 total views, 1 views today

Fotos: Gabriel Rolim

Se há uma certeza durante a pandemia mundial que estamos vivendo, é a de que uma chamada em vídeo online, em algum momento, será realizada. Dentro das circunstâncias atuais de isolamento social o coletivo carioca ROSABEGE lançou o vídeo de “QUEM SERÁ”, parceria com a conterrânea Ana Frango Elétrico. A faixa é parte do repertório do ótimo disco Imagem, lançado pelo grupo no ano passado. E resolvemos conversar com eles sobre isso (e muito mais): fizemos uma longa chamada em vídeo com todos – incluindo Ana –, para entender como processo que vivemos coletivamente afeta a vida criativa de cada um.

Com trechos de momentos compartilhados no fim do ano passado em Ilha Grande –captados em fita pelo parceiro de longa data Rodrigo Freitas e pela banda –, a produção passa a tranquilidade de outrora e que atualmente está suspensa. O presente, aliás, alterna-se entre experimentos de plantio em caixa de ovo por Ana, videogame por Thiago, aulas online em Boston por Pedro e produções musicais e demos por João e Vitor. A sensação de que presente e futuro nunca conviveram de formas tão distintas passa por todos. Ana, que está isolada em uma região de Nova Friburgo, tem dificuldades, inclusive, com o acesso à internet, o que dificulta o contato com o streaming – algo que parece primordial nesse momento. Mas essa dificuldade a faz olhar para o passado e ao que está a seu alcance fisicamente.

“QUEM SERÁ” brinca com a malemolência da música brasileira e pode ser reinterpretada a partir do atual contexto caótico de crises de saúde, economia e política no Brasil. “A raiva e tristeza com a nossa situação política genocida e apocalíptica tem me consumido. Nosso presidente tem que cair” diz Ana. Questionando seu papel como artista durante esse momento de necropolítica, ela vem postando algumas artes no Instagram que exploram sentimentos frente a tudo isso e ao fato de sermos comandados por um presidente sem direção.

No entanto, à moda brasileira, a faixa e o clipe são como alívios para toda essa tensão sem fim. A produção brinca com nosso humor diante do irresolúvel e, segundo o compositor Vitor Milagres, esse estado de espírito é inspirado em séries como A Grande Família e Os Normais. A assertividade cômica e fatalista no verso “quem será que vem aí?” se encaixa perfeitamente ao que vivemos. As cores, formas e frases do vídeo dirigido por ROSABEGE brincam também com o suspense do que está adiante de forma quase pueril e até, propositalmente, nos confundem – o uso intenso de feedback de imagens (retroalimentação de composições) coloca o espectador em um túnel de sentimentos.

Pedro Caiado, editor e programador do clipe, inclusive, fez um vídeo no Instagram do ROSABEGE em que explica a técnica utilizada no clipe, mostrando que o ideal de colaboração mútua que os tempos futuros exigem é levado a sério pela banda.

O futuro é uma questão fundamental tanto para a vontade imediata do que fazer quando a quarentena acabar – “ver a família”, “beijar e gravar com os amigues”, ” ir à praia”, “jogar alta” ou “ir ao museu” – quanto em relação aos próprios rumos da humanidade. Como nossa vida será daqui para frente? Será que chegou a hora de, de fato, pensarmos coletivamente? A vida digital prevalecerá sobre a real? Realmente teremos decisões sustentáveis daqui para frente? É o fim do capitalismo como o conhecemos?

São bem mais perguntas do que respostas. Mas, inspirados pelas belas imagens do futuro do pretérito no clipe de “QUEM SERÁ”, conversamos com ROSABEGE e Ana Frango Elétrico a respeito da quarentena, da parceria e, claro, do que será que vem por aí.

Como foi fazer essa parceria?

THIAGO: A Ana é uma artista que a gente acompanha e admira há um tempo, valorizamos e acreditamos muito nas potências criativas da nossa geração. O convite partiu disso. Escolhemos uma música que tinha a ver com a identidade musical da Ana, mas ainda assim chegamos juntos na ideia de usarmos ferramentas novas para um resultado diferente. Tivemos a ideia de fazer um solo de autotune no final da música, gravamos vários takes dela improvisando já com o tune ligado, e depois fizemos uma grande colagem com o material. Também gravamos dobras de voz e uma guitarrada, que rola no refrão. Foi uma experiência massa passar um dia trocando no estúdio com ela.

PEDRO: Por estar morando em Boston na época, eu só fui conhecer a Ana depois. Mas para mim foi uma conexão preciosa. O trabalho que ela desenvolve me inspira muito.

JOÃO: Quando consideramos convidar Ana, para mim, sempre foi uma motivação propor uma participação que saísse do lugar comum nosso e dela. Ainda que essa canção dialogue mais com a discografia dela esteticamente, a sessão em que ela brilha foge dessa lógica. A experiência no estúdio foi demais.

VITOR: Foi muito massa. A gente não conhecia muito bem a Ana quando chamamos ela, mas já admirávamos muito o trabalho que ela vinha fazendo. No dia do estúdio, quando a gente se conheceu melhor, foi divertido e é sempre bom trocar com uma pessoa talentosa da nossa geração. Ficou muito aprendizado ali sobre o jeito que ela lidava com o instrumento e o ritmo de gravação que ela tinha.

Quando o clipe foi gravado? 

THIAGO: Na verdade o clipe é quase que um compilado de vídeos entre o final de 2019 e o começo de 2020. Tem imagens da viagem que fizemos na virada do ano para Praia do Aventureiro, imagens do show que fizemos junto com a Ana, JOCA e Ciana, e outras diversas.

PEDRO: O clipe foi gravado uma parte em Ilha Grande no réveillon de 2020 e outra no final de janeiro de 2020 no Rio/Niterói. Daí ele foi processado por mim entre fevereiro e abril.

VITOR: O clipe é um mix de vários momentos, né. Veio de uma pesquisa que a gente fez no início desse ano, gravando momentos nossos na rua, vivendo um certo cotidiano. Juntamos a essa pesquisa imagens (feitas pelo Rodrigo de Freitas) de acervo de uma viagem que fizemos no ano novo, para Angra, que foi um momento bonito de união do pessoal. As piras visuais são estudos que o Pedro faz.

Como vocês se conheceram?

ANA: Acho que nos conhecemos primeiro pela internet e depois lembro de um primeiro contato físico que foi num show que fiz no meu aniversário, 19 de dezembro de 2018, no Aparelho. E lembro deles colarem. Depois fomos conversando e gravei a participação em “QUEM SERÁ”. Daí a vida foi nos aproximando

THIAGO: Não lembro exatamente a primeira vez que ouvi o trabalho da Ana, mas nos conhecemos num show dela no Aparelho em 2018, que foi quando já fizemos o convite para colaborar com a gente.

PEDRO: Eu fui conhecer a Ana só quando fomos ensaiar para o show no Centro Cultural da Música Carioca. Foi no Sobrado Bohemia. Fun fact é que nossas mães se conheciam já.

JOÃO: Conheci o trabalho dela no Bandcamp, na época do primeiro disco. Nos conhecemos pessoalmente num show que fez no Aparelho (RJ), lá já trocamos ideia sobre fazer um som pro disco.

VITOR: Foi num show no Aparelho, quando fomos falar para ela que tínhamos interesse em fazer algum trabalho juntos.

“Enquanto há vida, há louça” – Ana Frango Elétrico

Como está sendo a sua rotina na quarentena?

ANA: Tenho plantado. Sementeira em caixa de ovo. Cuidando da casa e de minha mãe que tem passado por questões delicadas de saúde de 1 ano e pouco para cá. Umas semanas me empenho mais na parte de gravar demos de um próximo trabalho outras adianto trabalhos de estampas, projetos gráficos. Mas na maior parte do tempo estou lavando louça. Enquanto há vida, há louça. A raiva e tristeza com a nossa situação política genocida e apocalíptica tem me consumido. Nosso presidente tem que cair.

THIAGO: Tenho vivido num horário alternativo, durmo bem tarde (ou cedo) e acordo tarde, faço trabalho doméstico, e tenho refletido bastante. Eu sinto certa dificuldade de focar nas produções em casa, acho que muito por não ter essa divisão de ambiente de trabalho/estudo e descanso as coisas ficam estranhas pra mim. Ainda não achei um equilíbrio. Mas tem sido importante me reconectar com algumas coisas que estava distante. Tenho jogado muito, isso sempre fez parte da minha vida e me desconectei a um tempo. Encontro um estado de contemplação e até mesmo de foco jogando, sempre gostei de fantasia.

PEDRO: Eu tava em aula até agorinha, começo de maio, e volto a ter aula agora, dia 26. Tenho tido muito trampo, me conectado muito com as pessoas, cozinhado e assistido série. Minha rotina é meio modular, faço essas coisas sempre, mas sem muita ordem.

JOÃO: Já tem mais de mês de quarentena, então atravessei várias pequenas fases. No princípio, continuei produzindo o que já estava em andamento. Em algumas semanas, preferi suspender e aproveitar o tempo em casa pra estudar e experimentar coisas novas. Algumas motivações se transformaram muito. Os dias não são iguais.

VITOR: Até tô produzindo muito, muito mesmo. Todo dia estudando muito o Ableton Live, talvez começando a projetar coisas para mais tarde, mas sempre sem muito comprometimento por causa da incerteza que a gente tá vivendo hoje.

O que vocês consideram que vai mudar no mundo após a quarentena?

ANA: Nossa. Tanta coisa. Espero que a gente passe a dar valor aos afetos, aos mais velhos que nós, ao cuidado e a nossa imunidade. Que repensemos os limites da agroindústria. Darmos valores aos produtores orgânicos, ao MST. Ter noção do nosso consumo e lixo que geramos. O capitalismo começou a ruir. Temos que repensar esses modelos mundiais, essa separação de desenvolvido e subdesenvolvido.

THIAGO: Acho que toda nossa relação com o digital vai mudar, não sei se de uma maneira positiva ou negativa. Mas a maneira em que estamos nos apoiando nisso com certeza vai ter uma influência relevante na nossa história.

PEDRO: É difícil né? Mas eu sinto que a gente coletivamente tá aprendendo a se comunicar melhor pela internet. Seja em chat, e-mail ou vídeo. Acho que essa parte virtual vai se manter e se aprofundar.

JOÃO: Imagino que os hábitos de higiene vão se manter por um tempo. As saídas de casa vão ser mais valorizadas. Além disso, acho difícil prever. Ainda não vivemos o pico da pandemia no país e, infelizmente, com todo o descaso do governo federal e seus seguidores, podemos passar por um quadro horrível.

VITOR: Acho que a relação das pessoas com o mundo em geral, mas alguns pontos específicos principalmente. Tipo higiene, relações de troca, relação com os ambientes caseiros e/ou ambientes fechados, a galera vai precisar entender de novo o corpo num espaço público e movimentado, lidar com o toque de outras pessoas, ouvir outras conversas. Isso tudo acho que vai ser um grande baque. Com certeza a parte digital tá ganhando muita força agora e vários frutos vão surgir das pesquisas que as pessoas tão fazendo hoje para viabilizar determinados contatos mesmo com a distância.

 “A galera vai precisar entender de novo o corpo num espaço público e movimentado, lidar com o toque de outras pessoas, ouvir outras conversas. Vai ser um grande baque” – Vitor

Qual é o seu signo/mapa astral?

ANA: Sou sagitariana com lua em Leão e ascendente em Escorpião. E com muitos planetas em Aquário, dentre eles Marte e Vênus

THIAGO: 

Sol – Sagitário

Asc – Aquário

Lua – Leão

Merc – Sagitário

Vênus – Aquário

Marte – Aquário

Júpiter – Aquário

Saturno – Aries

Urano – Aquário

Netuno – Capricórnio

Plutão – Sagitário

PEDRO: Sou Virgem com ascendente em Touro e Vênus em Aquário.

JOÃO: Virgem com lua em Gêmeos e ascendente em Escorpião

VITOR: Eu sou canceriano, com ascendente em Câncer e lua em Leão

Última série que você maratonou? Pode ser filme que viu ou livro que leu.

ANA: Último filme que vi foi O Filho da Noiva. Não vi um Netflix em 50 dias. E estou lendo A Vida Secreta das Plantas.

THIAGO: Better Call Saul e Ozark (ainda terminando) – bem americanas, mas recomendo as duas.

PEDRO: Sex Education e Midnight Gospel. Na moral, mais séries saudáveis, por favor.

JOÃO: Tava vendo a série Terra à Noite. Fico sempre impressionado com esses docs da natureza e dos animais.

VITOR: Séries foram Pose, This is Us e Westworld. Agora tô revendo Big Little Lies e Os Normais.

O que você aprendeu de novo na quarentena?

ANA: Cozinhar coisas novas e venho estudado mais as plantas. Conversado com elas, dado carinho e plantando

THIAGO: Aprendi que postergar é mais tranquilo do que eu pensava, e a ser mais estratégico nos meus movimentos. Ao mesmo tempo que qualquer planejamento é totalmente frágil.

PEDRO: Unity!!! Muito animado pra desenvolver mais jogo.

JOÃO: Muita coisa né, estamos muito tempo nessa. Pensar sobre a convivência tem sido fundamental.

VITOR: Tô construindo uma relação muito boa com meu quarto. Eu tirei minha televisão e botei um quadro no lugar, reconfigurei algumas coisas, passo mais de 10h por dia no meu quarto consumindo as coisas que eu gosto e produzindo muito. Eu tava num processo de me mudar pra SP, então já estava desgastado da minha casa, mas a quarentena tá me fazendo dar um valor diferenciado pelo privilégio que eu tenho de morar numa casa de vila, com terraço, varandas, etc.

O que vocês têm ouvido nesse período? Algo novo ou uma volta a discografias antigas nunca finalizadas?

ANA: Onde estou os megabytes tão valiosos. Então de novo tenho escutado bounces ou demos etc de amigos fodas produzindo, ô sorte. E revisitei coisas do Stevie Wonder, ouvi muito Magical Mistery Tour, Arto Lindsay. Tenho ouvido CDs.

THIAGO: Já rolaram várias fases. Rolou a fase que tava ouvindo bastante o novo álbum da Dua Lipa, do The Weeknd também… Redescobri de certa maneira o When I Get Home, da Solange… 1000 gecs, viciei no single do Playboi Carti… Como recentemente tenho estudado mixagem e masterização tenho escutado muito essas grandes produções atuais. Mas em paralelo sempre ouço coisas variadas, inclusive coisas antigas, gosto sempre de revisitar minha “escola”, me dá clareza.

PEDRO: Eu acabei ouvindo bastante Airto Moreira, Gorillaz e Xenakis.

JOÃO: Estou me conectando com Punk e Reggae como nunca antes. E clássicos da música Pop brasileira.

VITOR: Eu tô meio travado no disco da SZA, Ctrl. Ouvindo um bocado de Gil, já faz parte do meu cotidiano estar ouvindo alguma coisa do Gil, conheci o disco Quanta essa semana.

Antes da quarentena, tínhamos uma exigência de produzir ou criar algo que tivesse uma finalidade sempre. Como é produzir ou criar em um momento que temos que viver o presente e não pensar muito na finalidade de nossas ações?

ANA: Hm. Acho que na verdade tenho pensando como nunca na finalidade das ações. Pensado em como usar da melhor forma e me posicionar nas redes, usufruir do contato com os seguidores. Tenho desenhado e escrito fora bolsonaro bastante no meu caderno. Saudades da Dilma. Mas independente de fazer uma canção política tenho pensado na função da música. O que eu quero passar. Seja exaltar ou acalmar e pensando nesse posicionamento político nesse momento triste!!!!!

THIAGO: Acho que é um processo mais respeitoso com nós mesmos.

PEDRO: Eu consigo entender da onde a pergunta vem, mas a minha experiência tem sido um pouco ao contrário. Acabei entrado em um projeto de performance online que rolou ontem, trabalhando com um professor remotamente, a produção da ROSABEGE continua e tô pegando uns trabalhos de interatividade agra. Entendo que não é assim pqra todos, mas minha energia é um pouco instável, estar em contato com muita gente, como acontece no dia a dia fora da quarentena, me distrai e me faz perder meu centro. Tem sido um período de aprofundamento em mim mesmo.

JOÃO: Tenho um prazer imenso em viver o estado de criação, sempre foi uma maneira de me manter no presente, hoje não encaro muito diferente. Mas alguns projetos precisaram de um tempo para respirar, por conta das questões emergentes que levantaram outras necessidades de expressão e reflexão.

VITOR: Tá sendo mais livre, tô me dando mais tempo, estudando, buscar referências diferentes para cada coisa que eu tô tentando produzir. É interessante. Parece mais um momento de estudar, mesmo.

Música preferida da Ana Frango x sua música favorita do rosabege

ANA: “PASSO MUITO TEMPO”, “DEUS”, “DE VEZ EM QUANDO”.

THIAGO: Difícil escolher, olhando meu last.fm é o álbum que mais escutei nos últimos 365 dias haha, mas gosto muito de “Torturadores” e “Promessas e Previsões”.

PEDRO: “CASPA”!! Sou apaixonado.

JOÃO: “Chocolate” e “Torturadores”.

VITOR: “Chocolate” e “Promessas e Previsões”.

A primeira coisa que você quer fazer quando acabar a quarentena

ANA: Beijar e gravar com amiguessss

THIAGO: Ir à praia e jogar uma alta.

PEDRO: Óbvio que a situação como um todo é um absurdo, quanto antes a gente sair disso melhor. Mas pessoalmente eu curto muito estar em casa (mesmo com as incertezas no que diz respeito a grana/ minha graduação). Acho que ir num museuzinho, botar para frente uma instalação ia ser a primeira coisa que faria.

JOÃO: Vou para Niterói ver minha família e meus amigos

VITOR: Ir à praia

575 total views, 2 views today

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.