Quantas versões de Rubel nós conhecemos? O de Pearl (2013) é diferente do de Casas (2018), e ele seguiu o costume de mostrar novas facetas de sua personalidade – ou de registrar a identidade daquele momento – nos álbuns seguintes. Nós, do lado de cá do palco e dos fones de ouvido, ficamos com o jogo de montar um panorama de quem é o músico do violão, mas que também abraça o rap e o funk, que já se acompanhou de tanta gente legal em suas músicas, mas também se encaverna em casa para gravar.
Com Beleza. Mas Agora a Gente Faz o Que Com Isso?, seu quarto disco, ele comunica que está do nosso lado: Rubel também realiza o exercício de entender quem é aquele por trás de suas próprias composições. Falando ao Monkeybuzz, ele conta que as novas canções não nasceram na intenção de um novo disco. “Elas vieram para mim no violão, até quase como uma brincadeira”, explica. “Como se costuma fazer quando você está começando a compor”.
A mesma naturalidade com que as melodias nasceram está presente na maneira como ele escreveu seus versos, retirando “a tampa do inconsciente” e anotando palavras e ideias soltas, quase cruas, que expressassem com sinceridade, sem maneirismos, o que ele tem para cantar agora. “Foi como se escrevesse um livro”, diz Rubel. “Porque escrevi um trecho da primeira. Depois, logo em seguida, um trecho da última, e eles dialogavam entre si. Compus muito rápido, e demorei para gravar”.
Esse processo não poderia ser mais diferente da experiência de seu álbum anterior. Colocados lado a lado, As Palavras Vol. 1 e 2 (2023) e Beleza parecem obras opostas. São como luz e sombra – não apenas por suas diferenças, mas porque o novo só existe porque seu antecessor é como é. “Acho que eu precisei fazer um disco desse jeito justamente para contrapor o que eu tinha feito antes. E, se eu não tivesse sido tão radical nas palavras, acho que eu não teria sido tão radical no minimalismo deste disco”.

“ ‘As Palavras’ era uma busca por sentido, ‘Beleza’ é uma busca por sentir. Eu não gosto de jogo de palavras, mas, nesse caso, é real”.
Não à toa, dividido em duas partes, As Palavras soma 20 faixas, entre muitos convidados (como Milton Nascimento, Luedji Luna, Liniker, Tim Bernardes, MC Carol e Xande de Pilares) e flertes com pagode, funk carioca e até o pop eletrônico de Rosalía (em “Rubelía”, parceria com Deekapz). “As Palavras não era um disco de som, mas de ideias. Era muito mais sobre propostas, até conceituais, e a música como diálogo de questões culturais”.
“Os meus interesses eram muito diferentes dos interesses que eu tenho agora. Eu estava tentando compreender um pouco mais profundamente o que era, primeiramente, o Brasil, o que era ser um cidadão no Brasil naquele momento. O que era a música brasileira naquele momento, e como eu poderia contribuir de alguma forma para um diálogo da MPB – a música popular verdadeiramente popular brasileira e para MPB como gênero”.
Para isso, Rubel trabalhou com sete produtores ao longo das 20 faixas – “ele está muito mais próximo de uma produção do pop, com autoralidade diluída” –, e a experiência fez com que ele escolhesse a direção contrária para a realização de Beleza, assinando sozinho a produção do disco, gravado em sua casa. “As Palavras era uma busca por sentido, Beleza é uma busca por sentir”, explica. “Eu não gosto de jogo de palavras, mas, nesse caso, é real”.
“Nesse disco, fui muito dentro de mim para me livrar de mim mesmo, do peso do raciocínio, e entrar nas camadas, que são mais libertas de tudo isso. Justamente para poder olhar para fora”
“Eu só queria fazer um disco de MPB que não subvertesse nada, que fosse muito mais reverencial às coisas que eu amo e que eu pudesse simplesmente pegar o meu violão e cantar uma canção que me emociona. No que eu subverto as tradições do violão e da canção e misturo com funk e tal, isso me fez voltar para a tradição, de uma maneira mais confiante, de uma maneira mais apaixonada. Até eu estava com saudade disso. Acho que, se eu tivesse ficado nesse lugar o tempo todo, talvez fosse um pouco monótono. Fazer movimentos bruscos me ajuda muito a manter o tesão vivo, a manter o apaixonamento. Pegar o violão e lembrar: ‘Caramba, é por isso que eu amo esse instrumento’”.
Por isso, Beleza apresenta uma atmosfera muito própria, baseado primeiramente em voz e violão. “Queria que o som dele fosse tão importante quanto a canção, uma coisa que João Gilberto faz. A emissão dele é tão importante quanto a palavra que ele diz, o timbre do violão é tão importante quanto o ritmo. Tim Bernardes também trabalha assim, a música como uma pintura. Ou o próprio Tyler, The Creator, que trabalha muito sobre textura, timbre e visual. Ele é mais radical e até fala que nem se importa com a palavra, que tanto faz um pouco o que ele está dizendo. Apesar de ele fazer rap e o instrumento do rap ser a palavra, a palavra está muito a serviço do som”.
É aí que a nova maneira de escrever, sem a tal da “tampa do inconsciente”, faz ainda mais sentido. “Caetano fala que entender demais alguma coisa é quase como não entender nada. Acho isso curioso, porque, quando você traz uma intenção excessiva, e fala ‘essa palavra está aqui por causa disso, essa está aqui por causa daquilo e isso quer dizer, na verdade, isso’, ao invés de abrir as possibilidades de significado, você se fecha. Quando você abre a poesia, escreve de uma maneira que uma frase pode significar algo, mas ela pode significar o exato avesso daquilo. Dependendo do seu estado de espírito, você vai ler e entender uma coisa diferente. Essa liberdade que a palavra pode ter me interessa muito”.
“Aí que é a mágica e a tecnologia da canção operam em um lugar muito doido que não vamos entender exatamente. Podemos falar ‘coração’, ou ‘alma’. Mas eu acho que é mais louco do que isso. São áreas do cérebro que talvez são atingidas de uma forma diferente, porque o que chega não é o texto. O que chega é a massa sonora daquele arranjo com aquela palavra. Mas essa palavra está envolvida por uma melodia e, no momento que chega a melodia, ela já foi transformada”.
O processo de encontrar sentimentos a partir dos versos que o inconsciente escreve é terreno fértil para o autoconhecimento. Da mesma forma, Beleza revela um novo Rubel que, na verdade, é a essência daquele que conhecemos em outros trabalhos – na inocência juvenil de Pearl, na ambição de Casas e na forma conceitual e pop ao mesmo tempo de As Palavras.
“Acho linda essa ideia de que o trabalho da psicanálise é justamente nos tirar de nós mesmos. É diminuir o quanto somos dominados pela ideia de individualidade, que é uma ideia inventada. Inventei que eu sou esse cara que fez esses discos e tudo mais, mas isso é uma narrativa construída para poder ter uma cola social. Eu sou tal sujeito no mundo, eu opero de acordo. Mas, na verdade, somos um monte de átomos que estão existindo o tempo todo. E é muito mais fluido do que isso. É muito mais livre do que isso. E a psicanálise trabalha um pouco nessa ideia de desengessar um pouco essas ideias de persona e de individualidade e, acima de tudo, fazer isso ser menos interessante”.
“O mundo é mais interessante do que eu. O mundo é mais interessante do que você. Só que temos esse defeito de fábrica, o nosso chip pensa muito sobre nós mesmos. ‘As Palavras’, faixa-título do disco, fala muito sobre isso: ‘Olha tudo que é o mundo inteiro’. É uma lista. É um inventário de coisas. ‘Olha tudo que não sou eu’. E eu acho que, nesse disco, fui muito dentro de mim para me livrar de mim mesmo, do peso do raciocínio, e entrar nas camadas, que são mais libertas de tudo isso. Justamente para poder olhar para fora, para poder olhar. ‘A Janela, Carolina’ é muito sobre isso também. ‘Talvez te tenha feito falta olhar com calma a janela’, porque olha tudo que está para lá. E quanto mais para dentro a vamos, mais vamos para fora ao mesmo tempo. Esse disco é um pouco isso. Ou talvez eu tenha ido para fora em As Palavras e agora eu posso entrar aqui. E, na verdade, os dois movimentos são a mesma coisa”.
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