Seis atrações dos Seis anos de Mamba Negra

A Volta, Kamila Gorvocin, RHR, Martinelli, Saskia e Deaf Kids merecem estar no radar musical

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Fotos: Ivi Maiga Bugrimenko./Nuabe

Neste final de semana, a Mamba Negra faz aniversário com três pistas, oito DJ sets, três bandas, sete lives, um B2B e incontáveis motivos para comemorar. A primeira rolou seis anos atrás, quando a Laura e Cashu, remanescentes da Voodoohop, resolveram comemorar o aniversário. “Foi nos botecos do centro que nos conhecemos, nas festas, através da galera da Voodoohop também. Tanto eu quanto ela produzimos a Voodoohop na mesma curta época”, conta Laura Diaz ao Monkeybuzz.

Quem imaginaria uma festa aparentemente normal, originária de “uma comemoração de aniversário das duas serpentes de terra que acabou saindo do controle” seria capaz de dar o pontapé inicial para um dos projetos mais interessantes em ação na cidade de São Paulo?

Muito além de ser uma festa, ter virado um selo ou sido o berço do Teto Preto e das primeiras discotecagens da Cashu, a Mamba é especial pelo ambiente de liberdade preservado a cada edição. Ali todos tipos de corpos interagem em harmonia, numa realidade paralela distante do conservadorismo reacionário. Ao mesmo tempo, essa atmosfera de pluralidade e contestação possibilitou que artistas desenvolvessem projetos jamais aceitos no circuito elitista das galerias paulistanas de arte. O maior exemplo desta abertura é a proliferação das performers, sempre bem quistas pelas caixas de som da Mamba.

Tarefa árdua é indicar seis atrações musicais para ficar de olho na edição especial de aniversário da Mamba. Encaramos o desafio após horas batendo cabeça. Mas desistimos de escolher os destaques entre as performances com esta seleção primorosa : Milena Nonsense, Kitty Kwakubo, Alma Negrot, Valentina Luz e Carmem Lauveau. Provavelmente, não conseguiríamos escolher a tempo deste texto ser publicado.

Vale destacar que Márcia Pantera, a primeira drag do país, fará sua estreia na Mamba Negra, ela é a criadora do que hoje chamamos de “bate-cabelo”.

No sábado, a partir das 23 horas, será possível conferir todo o rolê direto da Fabriketa nos stories do Monkeybuzz. Imperdível.

A Volta

Da mesma forma que o Teto Preto, este grupo é a prova de que a performatividade cada vez mais se torna elemento tão importante quanto a música. A banda do selo Trava Bizness é formada por duas artistas trans, a multi-instrumentista Malka e a vocalista Alice, que se uniram à performer não-binária Aun Helden. Juntas elas destilam letras passionais, na base do improviso regido pelo “coração na boca”. No setup do live já estão previstos flauta doce, synths, violino, teclados, viola e guitarra, manuseados pela Malka, primeira trans a se apresentar na Sala São Paulo, quando tocava viola de arco na orquestra da Fundação das Artes de São Caetano. Trocamos ideia com a Alice Guél a respeito do projeto:

Monkeybuzz: Como rolou esse encontro e a ideia de formarem um projeto entre você, Malka e Aun?
Alice Guél: Nasceu da admiração que temos uma pelo trabalho da outra. Surgiu da necessidade de se sentir representada. Costumamos dizer que éramos as peças separadas de um megazorde. Juntas, nos transformamos nesse bicho. Porque eu vi na Malka a sensibilidade pela decadência que eu sempre procurei na música. Na Aun, a mesma sensibilidade da decadência, porém, refletida no corpo. As duas detectavam os mesmo elementos em mim, porém, na voz. O que desejamos cantar não tem possibilidade nos espaços tradicionais de música, nem na indústria musical ou nos espaços dedicados à performance. Nós três tínhamos essa vontade de fazer um trabalho subversivo, sem preocupação com audiência e views de streamings e videoclipes. Só queremos cantar e fazer a nossa música decadente, que fala sobre “A Volta”. Falam da volta de Jesus, que as profecias tinham se concretizado. “A Volta” é a prova de que jesus voltou em forma de Alice Guél, Malka e Aun.

Monkeybuzz:De que forma você sente que a performance da Aun interage com a sua atuação musical?
Alice: Estarmos juntas é muito lindo, pois eu sinto que nos entrelaçamos tanto que a performance vira um elemento musical. Muitas vezes, eu foco mais no texto do que no corpo, ou na forma em que meu corpo vai ser expressado. Por mais que eu trabalhe isso há tempos. O que a Aun faz é sentir tudo que eu transmito pela voz, de um jeito minimizado no meu corpo, mas nela reverbera como uma explosão. Ela vomita isso pra fora com intensidade, mais força. Acontece do mesmo jeito quando eu ouço as notas tocadas e sons usados pela Malka: eu potencializo, fazem o grito crescer. E a Aun traduzir isso com o corpo é muito importante. Quando falamos de música associam apenas ao que ouvimos, mas o corpo também é um instrumento musical.

Martinelli

Mais do que um garoto-prodígio na produção eletrônica, Martinelli constrói através de synht e drum machines uma personalidade musical já latente. Rápido, dono de sonoridades beirando o hipnótico, ele lança de Breakbeats ao Electro e Garage na pista. Tudo sem anestesia.

Com a responsa de manter a pista de lives após o Noise do Deaf Kids, ele provavelmente irá tocar algumas faixas do seu EP “Sem Sono”, próximo lançamento do selo MAMBArec, previsto para dia 31 de maio. Conforme Martinelli adiantou à reportagem do Monkeybuzz, ele deve agregar ao setup duas Electribes, uma Acidlab Miami e uma TT 303.


Kamila Govorcin

Responsável pelo prolífico selo Panal Records e o Festival Recreo, Kamila é produtora com nome forte na cena chilena, tomada por grandes mulheres, como a conterrânea Valesuchi, parceira de discotecagem. Pela primeira vez ela comanda os pick-ups em solo brasileiro.Flertando com o Techno, sem deixar outros estilos de lado, ela está sintonizada com o gosto mais pesado do público da Mamba. Conheça: https://www.panalrecords.com/

Saskia

Impossível não ficar curioso com o que a artista gaúcha deve apresentar após uma temporada de criação intensa na residência do Pulso da Red Bull. Será que ela agregou mais elementos do Hip Hop, por influência do tema da edição do projeto neste ano? Ou ela vai jogar pesado no Techno, afinal, é Mamba Negra? A resposta é um mistério total e está aí a graça em acompanhar o trabalho da passional cantora. Garantia de brisa boa!

Deaf Kids

O clima vai pesar com o Noise nervoso desses cariocas de Volta Redonda. Após mais uma tour pela Europa, o Deaf Kids aterrissa na Mamba com repertório fresquinho do disco “Metaprogramação”, lançado em março. Douglas Leal (guitarra e vocal), Marcelo (baixo) e Lucas Mariano (bateria) se destacam cada vez mais no circuito internacional em função das produções que agregam do Punk ao Hardcore revestidos de Noise, barulho, e amarrados por uma Psicodelia dark que tem uma curiosa melodia em meio ao caos sonoro. Aqui o bate-cabelo é outro.

RHR

Junho é o mês em que RHR (Gowpe) solta a primeira produção na OMNIDISC, selo com pegada de chicano gueto de Miami no estilo de Danny Daze, o criador. Então, vale gastar brisa nesta pista, são altas chances de ouvir as faixas do aguardado “Nocturnal Fear”. Doses de Electro sem moderação.

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