“Several Shades of Why”, Um Outro Lado de J Mascis

Primeiro disco do vocalista de Dinosaur Jr. mostra o quanto o trabalho solo de um artista nos ajuda a entender a obra de sua banda

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Se você acompanha o Monkeybuzz, deve ter percebido a frequência com que grandes artistas tem divulgado trabalhos solo. Quando essas notícias aparecem, é normal que surja aquela dúvida na cabeça de alguns fãs sobre o que vai acontecer com a banda, além daquela dificuldade de entender por que ele decidiu gravar aquelas músicas sozinho e não usá-las para aumentar o repertório do grupo, principalmente quando os estilos são semelhantes ou complementares.

No caso de Several Shades of Why, primeiro disco solo de J Mascis, líder, vocalista e guitarrista da icônica banda de Rock Dinosaur Jr, encontramos um trabalho completamente diferente do que estávamos acostumados, mas ao prestar um pouco mais de atenção, é impressionante o quanto o àlbum nos ajuda a entender melhor e olhar com outros olhos a obra da banda.

Dinosaur Jr. é uma clássica banda de Garage Rock, uma daquelas que assim como Pavement, é sinônimo de Indie Rock. No final dos anos 80 e começo dos 90, J Mascis tornou-se um dos primeiros grande guitarristas do estilo, com riffs pesados, crus, que fizeram seu nome como um dos maiores no instrumento em todos os tempos. As músicas sempre trouxeram aquele ar rebelde, vontade de ir contra os padrões, tudo isso reforçado com influências do Noise Rock no som dos rapazes e que influenciou toda uma geração de músicos que veio depois. Mesmo assim, hoje em dia, não é óbvio perceber o que a banda tem de tão especial, principalmente depois de termos sido bombardeados por tanto tempo com péssimas e ótimas bandas inspiradas por eles.

Ao ouvir seu primeiro trabalho solo, tudo fica mais claro. J Mascis parece conseguir reduzir a música que já fazia com a sua banda a três elementos essenciais: sua capacidade de criar ganchos empolgantes e grudentos em suas músicas, sua habilidade na guitarra – que aqui é substituída pelo violão – e sua voz marcante, que no Dinosaur Jr. ajuda a passar a sensação de rebeldia, por não estar dentro dos padrões da música Pop que não estamos acostumados, mas aqui passa uma sensação confortável de roda de violão com algum conhecido seu cantando, além de sua voz estar bem perto do microfone, fazendo deste o disco perfeito [para ouvir com fones de ouvido], dando aquela sensação de cócegas na orelha.

Com a música reduzida a estes três grandes elementos e com a troca da temática de suas letras mais rebeldes para letras românticas – no caso, romances que não deram muito certo – percebi uma sensibilidade enorme naquele som, ficando impossível não perceber nessas quatro características, as particularidades que tornavam a banda tão única e viciante.

Em um nível mais pessoal, esse disco teve uma importância grande em eliminar uma barreira – bem estranha, eu sei – que eu tinha com discos solo. Eles me passavam sensação de que eram feitos para serem ouvidos apenas por quem já conhecesse muito bem a banda anteriormente, ou seja, eram um segundo passo para quem queria ver um outro lado criativo de parte de sua banda preferida. Com J Mascis foi o contrário, após entender a essência da sua arte, Dinosaur Jr. tornou-se uma banda muito mais especial para mim e que mesmo copiada por centenas de jovens músicos, nunca se tornaria obsoleta.

Sempre ouvi muita música contemporânea e enquanto diariamente nos entupimos de nomes que acrescentam cada vez mais elementos em sua produção, é sempre surpreendentemente reconfortante quando surge alguém com um som básico, simples e cru como este, a relação próxima que conseguimos criar com eles. Hoje, J Mascis anunciou seu novo trabalho solo que promete ser ainda mais emocionante.

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MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.