Seychelles: Uma Década de “Ninfa do Asfalto”

Como toda boa obra de Rock, disco de estreia do grupo segue atual

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Enquanto alguns se dedicam à datada discussão sobre uma suposta morte do Rock, outros, principalmente no meio independente, entendem que seu aspecto atemporal (além do engajamento de fãs ao redor do mundo) garante que o gênero tenha um caráter qual eterno – não terá fim, mas a sensação hoje é a que ele mal teve um começo, já que sempre existiu para a geração que o propaga em 2015.

Olhar para a história da banda paulistana Seychelles é entender melhor esse processo, principalmente agora que seu disco de estreia, Ninfa do Asfalto, completa os dez anos de seu lançamento. É um álbum que permanece bastante agradável, com uma energia jovem e a impressão de alguma transgressão em suas entrelinhas – talvez pelo cantar em português, algo que muita gente ainda não aceita -, além de uma cara de algo que poderia estar sendo feito hoje, ou mesmo há vinte anos.

“Na época da gravação”, conta Fernando Coelho, “e com a tecnologia que tínhamos à disposição para captar, nossa maior influência veio dos anos 90, de bandas como Radiohead, Air e Portishead, que faziam um híbrido entre o digital e o analógico”, embora o quarteto sempre cite ainda referências de nomes como Os Mutantes e Secos e Molhados (bandas muito anteriores a essa década) para seu som. “Essa influência é muito mais subjetiva do que intencional”, comenta Gustavo Garde.

Mesmo sem intenções, é inevitável ouvir faixas como Goza a Qualquer Preço e não pensar em alguns dos grandes nomes da música brasileira das últimas décadas. “É mais do que natural esses caras estarem presentes em nossa obra”, continua Garde, “junto do Raul e do Erasmo, foi o Ney Matogrosso, a Rita Lee e o Arnaldo Batista que inventaram essa coisa de cantar Rock em português”.

Voltando à sonoridade dos anos 90, você logo nota esse teor meio britânico (aquela atitude sem medo de flertar com o espírito do Trip Hop) em faixas como 3ª Pessoa, Jazz do Porto e A Semente, embora essa última traga mais ainda da Psicodelia também ouvida em músicas como Meu Irmão George Harrison. O que fica do disco, porém, é um Indie Rock de primeira, jovial e enérgico, como na música que batiza e abre o álbum ou no single À Face do Tempo.

“Nossa filha rebelde já nasceu dissonante na selva paulistana”, diz Garde sobre Ninfa do Asfalto, “é um disco que até hoje nos enche de orgulho pelas composições, pela produção e pelos parceiros que se envolveram para que esse álbum viesse à luz em 2005”. De fato, há motivos de sobra para se orgulhar não apenas pela qualidade da obra, mas pela atitude de uma banda estreante de lançar um disco com o som que acreditava, sem medo de dissonâncias ou seu caráter experimental e torto em algumas faixas (como em alguns momentos da já citada À Face do Tempo).

E a celebração vem em dose dupla. Além de uma apresentação da banda no ShowLivre da TV Cultura em 15 de dezembro, haverá um show especial em homenagem ao disco na Associação Cultural Cecília, em São Paulo – oportunidades boas para quem acompanha Seychelles há um bom tempo entrar na festa. “A ocasião também é uma chance para apresentarmos esse disco a quem ainda não conhece”, comenta Gustavo, “mas, para mim, o mais importante de tudo é continuarmos juntos como banda até hoje”.

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ARTISTA: Seychelles

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.