Quem tem interesse pelas pistas de música eletrônica brasileira ou pelo cenário da produção musical provavelmente já ouviu o nome de Shavozo por aí. Citado em entrevistas por artistas da linha de frente da renovação da cena (como MU540, Vhoor e Maffalda), Shavozo foi nome fundamental na divulgação e até mesmo na fundamentação de conceitos artísticos de uma nova geração de DJs que surgiu no início dos anos 2010 e vem migrando de playlists obscuras dos cantos mais undergrounds do Soundcloud para grandes palcos, festas renomadas e produções de grandes hits. Quase sempre nos bastidores, Shavozo esteve conectando artistas diversos e realizando coletâneas que abasteciam sets de muitos outros DJs, com uma curadoria que reunia pepitas de produtores emergentes da bass music espalhados por todo país. Até organizou um portal de conteúdo para difundir o movimento que ele e seus parceiros chamam de Música Eletrônica Periférica Brasileira (MEPB), que defendia a bandeira do funk, bregafunk, tecnomelody, bregadeira e outros sons de paredão como formas legítimas, autênticas e, sobretudo, originais da música eletrônica nacional.
Depois de anos como articulador da cena, o trabalho de Shavozo como DJ foi ganhando mais maturidade e os merecidos holofotes. Seu projeto A Máquina do Grave — um set concebido como uma viagem futurista guiada pelo funk mandelão através dos beats que provocam abalos sísmicos no corpo — despontou na festa Submundo 808 e chegou aos palcos europeus e até o refinado Opera House, na Austrália.

“Tudo é um processo e aprendi que a gente tem que dar valor ao tempo e a esse processo”
Criado na Zona Leste de São Paulo, Marcos Souza cresceu em uma família muito ligada à música — seu pai chegou a ser DJ em festas de garagem e na vizinhança. Mas seu mundo mudou quando ele descobriu o rap, a música eletrônica e o funk, a tríade de influências que o acompanhariam para o resto da vida. “Eu consumia muito hip-hop e gostava muito de dançar. Em paralelo, o funk também tava ali do meu lado. Por eu ser morador de quebrada, desde molequinho tava consumindo o funk da Baixada que tava chegando aqui em São Paulo, o funk do RJ que também batia aqui. E fui conhecendo a música eletrônica, o electrohouse, psytrance, tech house”, detalha.
Aos 18 anos, Marcos tornou-se DJ de baile do MC Ramiro, um amigo da Zona Leste, além de produzir faixas de outros MCs de São Paulo e até do Rio de Janeiro, que conhecia pela internet. Shavozo já era seu nome artístico e a vontade de misturar todas essas influências dava os primeiros passos. “Na minha primeira produção, eu sampleei o Skrillex. E era um funk na estética da ostentação daquela época” conta, citando as faixas “Sheik de Bagdá” do MC Paulinho, e “Vida de Gangster”, de MC Angellão.
Por volta de 2011, Marcos foi entrando em contato com novos sons que iriam mudar para sempre a sua cabeça. “Estavam acontecendo muitas coisas ao mesmo tempo. O DJ Perera trazendo ali o MC Pedrinho, o MC Livinho, e o funk saindo muito dos samples pra ser num bagulho mais tocado. E aquilo me chamou a atenção, tá ligado? Eu ficava pensando para onde essa parada tava indo”, relembra. “Foi aí também que eu conheci o trabalho do Omulu [atualmente conhecido como Mulú], o Ruxxel, o Marginal Men… Comecei a me interessar por esse funk, tentando entender e imaginar o que o funk vai ser daqui a 10 anos”. O impacto foi tão grande que Marcos decidiu encerrar as atividades do Brutus — seu projeto de DJ dedicado ao dubstep e trap — e criar uma nova identidade. O Shavozo ganha então uma identidade e uma missão: explorar a face mais futurística e eletrônica do funk, com foco especial nos beats carregados de grave.

No início, a produção original ficou de lado. O trabalho de Shavozo eram alguns edits (os Edits do Bixão) e sets postados em seu perfil (ainda ativo) no Soundcloud, como a série Os BR’s Mixtape. “Esse set era para poder justamente pegar esses produtores, essas músicas e mixar todas para poder falar que a gente podia fazer um set 100% de tracks brasileiras, enfatizando esse funk que, na época, o pessoal chamava até de neo baile funk”, explica. Além disso, entre meados de 2017 até 2023, Shavozo editou sistematicamente a playlist mensal Selo Shavozo de Qualidade, que reunia as melhores tracks de artistas brasileiros na vertente do grave e se tornou um ponto de atualização para DJs no Brasil e na gringa.
A pesquisa contínua e incansável o levou a trabalhar com vários artistas, incluindo a curadoria de artistas para o álbum de remixes Vai Passar Mal, de Pabllo Vittar, em 2017. “O Gorky falou do Selo Shavozo de Qualidade e dizia: ‘O Shavozo é conectado. O Shavozo sabe quem são os produtores que estão fazendo essa bass music BR, essa MEPB. É onde eu começo a entender que aquilo que eu fazia chamava curadoria. Eu não sabia que se chamava isso, eu não sabia que existia esse tipo de trampo. No disco da Pabllo, eu falava que eu era o Raul Gil e eu tava achando as Maísas, tá ligado?”, conta, sorrindo.
Virada de chave
Um dia, Shavozo levou uma tia a um set dele. Era uma edição da Arrastão, festa organizada pelo carioca Mulú que rolou na Tokyo, em São Paulo. Shavozo fez um set diverso, passando por vários ritmos da música eletrônica focados no grave, como ele costumava fazer. Depois do show, a sua tia fez um comentário que mudou o curso do DJ e produtor. “Ela curtiu, chegou e me falou: ‘Nossa, o seu set tem bastante coisa diferente, né? Mas olha, vou falar uma coisa do meu jeito e ver se você consegue entender: às vezes, em um prato, você consegue trazer vários sabores para as pessoas experimentarem. Mas, às vezes, o arroz e feijão é bom também. Você não acha que seria interessante trazer também o arroz e feijão?’”, recorda. Mais que um conselho, as palavras da tia eram quase uma direção artística para o sobrinho, incentivando a focar e intensificar determinados estilos em seu set, que em alguns momentos ficava disperso e sem uma identidade definida por conta de tantas misturas. “Aquilo eu guardei pra mim, irmão. Guardei no meu coração”, confessa ele.
“Quando eu lancei o ‘Máquina do Grave Vol 1’, eu tava fazendo essa transição do Shavozo da bass music, que tinha essas influências de Drum & Bass, de Dubstep, de Jersey Club com funk dentro, para o Shavozo mais mandelão. Você percebe essa transição no meio do set”
Com o tempo, Shavozo passou a direcionar o seu som para o funk mandelão e bruxaria — o som distorcido e agressivo que surgiu nos bailes da Zona Sul de São Paulo. A virada de chave ficou notável em 2023 no primeiro volume de A Máquina do Grave, set que o DJ grava ao vivo e publica no dia do seu aniversário (o terceiro e mais recente volume saiu este mês e foi gravado em Lisboa). “Quando eu lancei o Máquina do Grave Vol 1, eu tava fazendo essa transição do Shavozo da bass music, que tinha essas influências de Drum & Bass, de Dubstep, de Jersey Club com funk dentro, para o Shavozo mais mandelão. Você percebe essa transição no meio do set”, explica. A nova diretriz também foi tomando corpo nas produções originais de Shavozo, em faixas como “PHODI PHODI” (uma track em parceria com Bibi Babydoll e GP da ZL moldada nos graves do phonk) e “Catucada Violenta” (uma ritmada agressiva e irresistível que sacode qualquer baile).
Produzida em parceria com JC no Beat e vocais do MC Delux, “Catucada Violenta” soma mais de 1 milhão de plays no Spotify e foi a música que alavancou a carreira de Shavozo. Um vídeo de Shavozo tocando a faixa antes do lançamento na pista da Submundo 808 — famosa festa de funk organizada pelo bonde da dupla de DJs Kenan e Kel em Campinas — viralizou e fez o trabalho de Shavozo se espalhar. No dia do vídeo, Shavozo estava tocando no início da festa, em um palco menor. Mas o som e a energia chamaram atenção e ele foi ganhando mais espaço na festa, tocando em horários melhores, até o palco principal e, enfim, turnê internacional. Os cortes do set viralizaram e chamaram atenção mundo afora, fazendo Shavozo embarcar na sua primeira turnê internacional em maio deste ano, passando por Portugal, França, Espanha e Austrália, incluindo um show especial na Opera House, uma das casas de espetáculo mais icônicas do mundo. “Quando falaram que ia ser lá, fiquei sem acreditar. Eu vim da Zona Leste e vou tocar nesse bagulho que apareceu no filme do Nemo?!”, Shavozo conta rindo, com uma leveza de quem está vivendo a melhor fase da carreira depois de tantos anos de batalha. “Já peguei muita mobilete para pilotar essa R1″, brinca. A história de Shavozo é uma lição de coletividade — enquanto a hora dele não chegava, ele esteve sempre fomentando a cena da qual fazia parte e acreditava. “Tudo é um processo e aprendi que a gente tem que dar valor ao tempo e a esse processo”, finaliza.
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