Silêncio e coragem

Lucy Rose fala com o Monkeybuzz sobre seu mais recente disco “No Words Left” e promete entregar o mesmo efeito intimista do LP na série de shows que fará no Brasil, em outubro

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Fotos: Divulgação

O que seria de Lucy Rose sem as palavras? O mais recente disco dela que é uma das mais belas vozes britânicas desta década chama-se No Words Left (2019). É estranho ler esse título nomeando o LP de alguém cujo trabalho está profundamente ligado com a linguagem, a fala, a declamação. No entanto, a proposta é exatamente a de abandonar certos confortos, explorar novos territórios e, acima de tudo, tentar se entender, por meio dessa experiência, depois de um trauma emocional.

Esse esgotamento parece ser o tema do álbum. Depois de viver o fim de um relacionamento, a personagem central do álbum encontra-se desesperançosa do amor. É daí que vem a dificuldade de expressar-se que, curiosamente, inspirou o nome da obra. Assim, as interpretações da cantora chegam lamentosas, sem tanto vigor, dando espaço para momentos inéditos em sua discografia como as faixas instrumentais. “Foi a primeira vez que eu tive coragem de fazer certas escolhas. Seja abdicar da percussão ou não ter letra em algumas músicas, fiz o quis”, contou Lucy ao Monkeybuzz. “Esse novo fôlego vem com a maturidade de não ter que lidar com o que as pessoas esperam, ou com o que elas falam sobre o seu trabalho”, arremata.

Em 2017, durante a promoção de Something’s Changing (2017), a artista já havia nos revelado, em entrevista, o seu desejo de livrar-se das expectativas da indústria. “Meu som não precisa ser arrumadinho, tem que ser verdadeiro”, afirmou a respeito de sua decisão por investir em uma produção mais orgânica, “menos perfeita”. Eis que, dois anos depois, ela não se arrepende da postura tomada ali. “Não sinto pressão nenhuma para fazer algo extraordinário. Não acredito nisso. Espero estar crescendo, melhorando e me encontrando. Acho que esse é o maior desafio, sempre.”

É por isso que, em No Words Left, a voz de Lucy, por vezes, parece um sussurro. Chega mais grave aos nossos ouvidos acostumados com seus trabalhos anteriores. “Não faria sentido me acovardar a respeito da minha voz. Era a modalidade em que eu mais queria me desafiar. Por que cantar impecavelmente histórias que, nem sempre, são lindas? Tive que romper com essas regras para que eu conseguisse fazer com que meu canto representassem com mais clareza o que dizem as músicas. Quis errar mais e nunca me senti tão livre gravando um disco. Entrei no estúdio muito consciente de que queria experimentar mais dessa vez. Não só nas composições, mas também nas gravações. Sou mais experiente agora e pude me concentrar totalmente em forçar os meus limites.”

Não faria sentido me acovardar a respeito da minha voz. Era a modalidade em que eu mais queria me desafiar. Por que cantar impecavelmente histórias que, nem sempre, são lindas?

Assim, deslizam pelo LP diversos espasmos desses esforços. Vale citar as músicas que, de vez em quando, engatam umas às outras como se fossem uma só progressão, os espaços em branco, sem palavras, de “Just A Moment” e “Treat Me Like A Woman” e as letras que, quando existem, vêm espertas como em “Solo(w)”. Juntos, todos esses elementos ajudam a reforçar a narrativa de solidão e tristeza de Lucy. O que poderia beirar o desconforto, entretanto, alivia-se pelo que há de sublime, delicado e apaixonado dos arranjos e das melodias.

O intuito da compositora era, realmente, o de mergulhar em todas as possibilidades que ela enxerga na música. “Não me conformo quando alguém diz: ‘a coisas precisam ser desse único jeito’. Hoje em dia, não há limites e tem muita gente no mundo aberta para novidades”, opina. Ao mesmo tempo em que existe essa inclinação, persiste o anseio por ser compreendida. No limite, Lucy não quer ficar anexada a um disco em que essas características disruptivas falem mais alto que a emoção embutida nas canções que escreveu. “Só espero que entendam o que estou dizendo. Já passei pela situação de lançar algo que não foi bem absorvido e não foi legal.”

Aparentemente, até aqui, sua missão parece ter sido cumprida com sucesso. Não à toa, a nova turnê da britânica passa pelo Brasil (Porto Alegre [2.10], Curitiba [3.10], São Paulo [5.10] e Rio de Janeiro [6.10]. “Quero fazer shows que eu mesma gostaria de ver se estivesse na plateia”, promete a artista que lembra daqui como “o lugar onde estão as pessoas mais felizes que já vi na vida.” Na ocasião de seus shows, estará presente também o seu próprio engenheiro de som para garantir que o público experimente, ao vivo, a ambientação intimista e espaçada do álbum. Se essas noites tiverem a qualidade e a ousadia com as quais Lucy debruçou-se sobre No Words Left, estamos de frente para a possibilidade de presenciar apresentações inesquecíveis.

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ARTISTA: Lucy Rose

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.